Dieta planetária global vai contar com a participação da sociedade

O que é o 'Nexo Políticas Públicas', novo projeto do 'Nexo' | Nexo Jornal14/10/2022

O sistema agroalimentar global é o mais importante vetor de erosão da biodiversidade, responde por cerca de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa, foi, em ao menos oito países, um dos epicentros da expansão da COVID-19, por meio dos frigoríficos e está na raiz da expansão da resistência bacteriana em virtude dos antibióticos consumidos nas criações concentracionárias de animais, cujos dejetos poluem os solos, os rios e até os oceanos. É verdade que, ao mesmo tempo, este sistema contribuiu decisivamente para ampliar a oferta alimentar e, por este caminho, reduzir a fome no mundo, desde os anos 1960. Mas é fundamental vincular esta imensa capacidade de oferecer calorias e proteínas baratas à crescente monotonia das dietas atuais e, sobretudo, à verdadeira pandemia de obesidade que atinge nada menos que 40% da população norte-americana e uma parte crescente da população mundial.

O agravamento da fome no mundo (que atingia menos de 600 milhões de pessoas em 2014, recomeçou a aumentar a partir de 2018 e hoje já ultrapassa 900 milhões de indivíduos) traz consigo o risco de obscurecer o colapso atual sob o pretexto de que o mais importante agora é ampliar a oferta de alimentos, tal como foi feito desde a Revolução Verde dos anos 1960, e não pensar em mudanças estruturais. O problema deste raciocínio é que persistir nas formas atuais de produção agropecuária e de consumo alimentar vai minar tanto as bases da oferta como seus impactos destrutivos sobre os serviços ecossistêmicos e sobre a saúde humana. São crescentes os custos ecossistêmicos da abundância alimentar e não é ampliando estes custos que se poderá enfrentar de forma justa, saudável e sustentável o desafio afixado pelas Nações Unidas como lema do Dia Mundial da Alimentação de 2022, “não deixar ninguém para trás”.

É para estabelecer bons diagnósticos e formular propostas construtivas de políticas públicas, privadas e associativas que se reuniram em Nova York, ao início de outubro, alguns dos globalmente mais respeitados cientistas, em torno da ambição de fazer emergir uma dieta saudável, com base em sistemas alimentares sustentáveis. Alguns destes cientistas (entre os quais estão Johan Röckstrom, famoso por seus trabalhos sobre as nove fronteiras ecossistêmicas planetárias, ultrapassadas as quais, a própria vida na Terra se encontra ameaçada) foram responsáveis pelo lançamento, em janeiro de 2019 de um ambicioso relatório sobre a “alimentação no antropoceno”, com o objetivo de estabelecer o que poderiam ser as bases de uma dieta que atendesse as necessidades humanas, sem destruir a biodiversidade e o sistema climático e que contribuísse à saúde humana não só provendo os nutrientes necessários a uma vida saudável, mas que não se apoiasse em formas de consumo prejudiciais à saúde.

Contrariamente ao que se propala habitualmente nas projeções que envolvem aumento populacional, ampliação de renda e, consequentemente, necessidade de expandir a oferta, o EAT Lancet preconiza “substanciais mudanças na dieta, incluindo uma redução maior que 50% no consumo de comidas não saudáveis como carne vermelha e açúcar e um aumento superior a 100% no consumo de alimentos saudáveis como frutas, vegetais, legumes e nozes”. Nos cálculos do documento esta direção de mudanças nas dietas pouparia 11 milhões de mortes prematuras no mundo (algo entre 20 e 25% das mortes totais).

O documento também sustenta a urgência de se interromper a expansão das superfícies agropecuárias, a redução no consumo de água e no uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos.

A boa notícia, para o Dia Mundial da Alimentação de 2022, está na proliferação de trabalhos científicos, organizações da sociedade civil e iniciativas tanto empresariais como de comunidades locais e que se voltam a enfrentar o colapso do sistema agroalimentar global. E é nesta proliferação que vai se apoiar uma nova versão do EAT-Lancet, que será elaborada a partir de agora e lançada em janeiro de 2024. Esta nova versão, segundo a reportagem do Foodtank, será redigida por vinte e cinco cientistas de 19 países, entre os quais Carlos Augusto Monteiro, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP e um dos criadores do termo “alimentos ultraprocessados” e de estudos globais mostrando os vínculos entre estes (que dificilmente podem ser caracterizados como comida) e a pandemia de obesidade.

Estes cientistas estão convidando indivíduos, organizações da sociedade civil, empresas, governos locais e comunidades a participar deste que poderá ser uma espécie de IPCC da alimentação, ou seja, um levantamento dos avanços científicos ligados ao tema, mas fortemente antenado na diversidade de iniciativas que, no mundo todo, vêm sendo tomadas para enfrentar o colapso do sistema agroalimentar global.

É fundamental que as organizações da sociedade civil brasileira respondam ao apelo de participação do EAT-Lancet 2, tanto mais que um de seus bordões mais importantes é a inclusão no documento a ser lançado em 2024 da contribuição dos povos originários e das práticas agrícolas, de transformação e de culinária que fazem parte de sua cultura material e espiritual.

O EAT-Lancet 2, em suma, é uma excelente notícia para que, superadas as ameaças que pesam sobre as instituições democráticas brasileiras, a discussão sobre o sistema agroalimentar tire o olho do retrovisor e coloque não só o acesso, mas a diversidade na produção e no consumo como o objetivo central da maneira como terras e animais contribuem para uma dieta saudável e sustentável.

https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2022/Dieta-planet%C3%A1ria-global-vai-contar-com-a-participa%C3%A7%C3%A3o-da-sociedade

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