Mais que melhorias graduais, relatório do IPCC impõe mudanças drásticas

UOL Tab passa a ter conteúdos diários – Meio & Mensagem12/08/2021

Nada indica que os mais importantes tomadores de decisão do planeta estejam preparados para enfrentar o horizonte traçado nesta semana pelo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), que analisa a evolução e as perspectivas da relação entre as sociedades humanas e o sistema climático do qual a vida na Terra depende. Uma das mais importantes e promissoras conclusões do relatório é que ainda existe uma estreita janela de oportunidades para que a temperatura global média não suba além de 1,5ºC até o final do século.

Mas esta janela converte-se numa quase invisível fresta quando o mais importante jornal de economia do mundo, o Financial Times, retrata o entusiasmo de Jan Jenisch, presidente do maior grupo produtor de cimento do mundo (Holcin), com o que ele chama de boom da construção, em função das necessidades de infraestrutura dos países em desenvolvimento. Sua alegria é compartilhada por Fernando Gonzales, o CEO da Cemex mexicana que fala em superciclo da construção.

O curioso é que a informação do Financial Times aparece num podcast do jornal, logo antes de um comentário sobre as enchentes na Alemanha e na China e a quebra de recorde de aumento de temperatura na América do Norte, sem que se faça qualquer relação entre cimento e eventos climáticos extremos. Ora, se fosse um país, o setor de cimento seria o terceiro maior emissor global. E não se pode dizer que o setor não esteja atento a seus impactos sobre o sistema climático.

Em 2021, cada tonelada de cimento é produzida com emissões 18% menores do que três décadas antes, mostra um trabalho do CarbonBrief. Neste período, porém, a demanda de cimento no mundo triplicou. O resultado é que, apesar dos avanços tecnológicos do setor, suas emissões continuam subindo.

O recente relatório conjunto da Agência Internacional de Energia e do Conselho Global de Negócios para o Desenvolvimento Sustentável (WBCSD, na sigla em inglês) corrobora esta informação. Até 2050, a produção global de cimento deve aumentar 12%, mas suas emissões crescem “somente” 4%. O relatório do IPCC lançado esta semana faz com que esta inegável conquista (emitir menos por unidade produzida) se converta tragicamente em componente decisivo da crise climática.

O cimento aqui é tomado como um exemplo que atinge o conjunto da vida econômica. Os dados do Painel Internacional de Recursos das Nações Unidas são claros a este respeito: as emissões vindas da produção de materiais (metais, madeira, construção e plástico, sem incluir combustíveis fósseis e alimentos) dobraram entre 1995 e 2016 e passaram de 15% a 23% das emissões globais. E, da mesma forma que no cimento, os avanços técnicos para descarbonizar a oferta de ferro, aço, plástico e borracha foram imensos.

Se a este quadro se acrescentam os planos de ampliação da produção de petróleo e mesmo de carvão e as emissões derivadas da agropecuária no mundo todo, a conclusão é que tanto as estratégicas empresariais quanto os planos governamentais de combate à crise climática estão muito aquém da urgência colocada pelo relatório do IPCC. É o que explica a afirmação de Cristiana Figueres, que dirigiu a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas e foi uma das responsáveis pelo Acordo de Paris de 2015, numa entrevista após a divulgação do relatório do IPCC: “Nós não estamos à altura do desafio de nosso tempo… Estamos ainda promovendo melhorias marginais e os tempos apelam para mudança drástica”.

O relatório do IPCC terá alcançado o objetivo de desencadear esta mudança drástica sob duas condições. A primeira é que cada cidadão e cada consumidor encare a crise climática contemporânea com a seriedade e a urgência que enfrentou a pandemia. É fundamental que a economia propicie bem-estar, conforto e condições para que as pessoas e suas comunidades floresçam, mas se não formos capazes de fazer escolhas orientadas pelas mensagens que o IPCC nos está transmitindo o resultado é que simplesmente não haverá futuro.

Neste sentido, enfrentar a crise climática consiste, antes de tudo, em combater as desigualdades, ou seja, em utilizar os recursos de que dispomos sob a orientação gandhiana de que o mundo é capaz de satisfazer as necessidades humanas, mas não o luxo, o desperdício e a cobiça. Nosso bem-estar tem que depender, cada vez mais, de bens comuns, de solidariedade, de sentido comunitário, de empatia e de cooperação social.

Nesta dimensão coletiva do bem-estar se fundamenta o vínculo entre combate à crise climática e sentimento democrático. Sociedades que cultivam o individualismo e a ideia de que a ascensão social é um esforço que depende estritamente das pessoas e não de suas relações comunitárias dificilmente terão condições de enfrentar a crise climática.

A segunda condição para que possamos nos aproximar do que Cristiana Figueres chamou de “mudança drástica” é que tanto as políticas econômicas como as decisões empresariais passem a se nortear por uma pergunta central: como isso vai impactar a relação entre sociedade e natureza e, especialmente, as mudanças climáticas? A urgência atual não permite mais que este tema seja encarado como “externo” à vida econômica, como uma espécie de consequência não antecipada, não prevista de nossas atividades e que será corrigida em algum momento. A luta contra a crise climática tem que estar no cerne da gestão econômica pública e privada.

União Europeia, China, Estados Unidos, Japão, Índia e inúmeras organizações empresariais dão claros sinais de que estão ao menos iniciando medidas nesta direção. A distância entre esta agenda e a dos fanáticos fundamentalistas que estão no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios não poderia ser maior. No centro da luta para superar as ameaças que pesam sobre a democracia brasileira agora e no ano que vem está a mudança radical que Cristiana Figueres preconiza e que exige uma vida econômica que regenere os tecidos sociais, e naturais que até aqui tem acompanhado sistematicamente nossa oferta de bens e serviços.

https://tab.uol.com.br/colunas/ricardo-abramovay/2021/08/12/relatorio-do-ipcc-exige-mudanca-drastica-na-vida-economica.htm

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Astaufo
Astaufo
1 mês atrás

No contexto da utopia tropicalista seu texto deixa claro que a Amazônia tem muito mais a oferecer ao Brasil e ao mundo do que sequestro de carbono, os rios voadores e os ativos da biodiversidade. É na definição do que é vencer na vida que as raízes africanas e indígenas da nossa cultura podem mudar esse cenário. Vai dar certo, eu tenho fé!

Arthur Moreira
Arthur Moreira
15 dias atrás

Olá, Ricardo. Me parece que outro tipo de mudança drástica que também tem que ocorrer é no tipo de inovação tecnológica relacionada a energia, materiais etc. Inovação incremental é importante e junto de mudanças comportamentais são necessárias para enfrentar a emergência climática. Mas não parecem ser suficientes. Faz-se necessário também um esforço científico enorme para que inovações radicais permitam um descolamento absoluto (não apenas relativo) no uso de materiais e energia.

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