Oportunidade da América Latina está entre o ‘inteligente’ e o ‘verde’

UOL Tab passa a ter conteúdos diários – Meio & Mensagem30/07/2020

A bioeconomia converteu-se numa das mais importantes fronteiras da inovação científica e tecnológica global. Estados Unidos, União Europeia e, cada vez mais, a China empenham-se na implantação de programas governamentais voltados à substituição de combustíveis fósseis, à produção de novos materiais com base na biomassa vegetal, à descoberta de moléculas capazes de gerar alimentos, fármacos e cosméticos e à síntese em laboratório destas moléculas.

Um dos traços mais chocantes, porém, da literatura internacional sobre o tema é a ausência das florestas tropicais, tanto nas pesquisas de ponta como nas descobertas recentes da bioeconomia. Reduzir a distância é fundamental, não só para a Amazônia, mas para o conjunto da América Latina. Aí é que se encontra a oportunidade de que o continente ganhe alguma relevância na economia global.

Mas como assim? Recursos naturais podem ser base significativa de crescimento econômico e de prosperidade?

Carlota Perez, professora da Universidade de Sussex, no Reino Unidos, e uma das mais respeitadas pesquisadoras sobre revoluções tecnológicas, responde à pergunta mostrando que, na era da revolução digital (a quinta revolução tecnológica pela qual passa o mundo desde o século 18), a oportunidade da América Latina está na unidade entre o “inteligente”(smart) e o verde (green)”. Recursos naturais, nesse sentido, não representam apenas as matérias-primas que serão transformadas em alimentos, fibras, materiais e energia. Nisso o Brasil mostra competência, resultante do trabalho da Embrapa na emergência da mais importante agricultura tropical do planeta.

Mas é preciso ir além, caso a ambição seja, ao mesmo tempo, impedir a destruição da floresta e fazer de sua diversidade um fator decisivo de inovação científica e tecnológica. Recursos naturais podem abrir à América Latina a chance de ser parte da vindoura revolução tecnológica em quatro segmentos: biotecnologia, nanotecnologia, bioeletrônica e novos materiais, como mostra Carlota Perez.

Quando se fala de Amazônia, a diversidade se reveste de alguns atributos básicos, que formam a base de seus potenciais.

O primeiro atributo é de natureza social: o conhecimento detido pelos povos da floresta oferece pistas promissoras na descoberta de propriedades moleculares dos elementos naturais com os quais convivem há milênios. Mais do que a dimensão prática e instrumental de sua cultura material, eles são portadores de uma espiritualidade que se traduz nas línguas que falam, nos rituais que praticam e em modos de vida cheios de ensinamentos e que têm sido sistematicamente desrespeitados e agredidos.

Mas o conhecimento da floresta não depende apenas, é claro, dos povos que nela habitam. As universidades, a Embrapa e diversas organizações não-governamentais são hoje produtoras de conhecimento científico de alto nível, publicado nas melhores revistas internacionais. E esses pesquisadores mantêm vínculo estreito, tanto com os povos da floresta como com agricultores familiares e fazendeiros que ocupam áreas cuja regeneração florestal tem um potencial imenso na oferta de produtos e serviços da biodiversidade. Trabalho recente da Secretaria de Ciência e Tecnologia do Amazonas mostra a importância da interiorização de mestres e doutores pelo interior do Estado.

Além disso, o Estado do Amazonas é hoje um dos mais importantes centros de produção de tecnologias digitais do Brasil. É fundamental multiplicar os investimentos em educação, ciência e tecnologia. Mas a região possui um contingente importante de pesquisadores que se dedicam de forma significativa ao conhecimento, tanto das práticas sociais como das propriedades e atributos da biodiversidade da Amazônia.

O uso sustentável da sociobiodiversidade (um passo fundamental para que a Amazônia reduza sua distância da fronteira científica e tecnológica global da bioeconomia) apoia-se sobre uma forma de ativismo cada vez mais importante na Amazônia e que se volta ao mundo dos negócios. O Idesam, por exemplo, recebeu financiamentos pelos quais abre editais em que startups apresentam projetos voltados à utilização sustentável da biodiversidade e à solução de problemas de infraestrutura da região.

O Selo Origens Brasil ganhou em 2019 importante prêmio internacional por seu trabalho de certificação de produtos vindos da relação entre grandes empresas e povos da floresta. O Programa Sementes do Xingu (também premiado) oferece a fazendeiros tecnologias de reflorestamento apoiadas na coleta de sementes feita por populações que vivem na floresta, em conjunto com pesquisadores da Embrapa. A Conexsus, também em 2019, identificou 250 empresas com potencial de comprar produtos da bioeconomia, das quais quais 82 apontaram demanda por 290 produtos.

O mundo da ciência e do empreendedorismo sustentável está hoje na raiz das mais importantes organizações ativistas da Amazônia. E isso traz duas consequências fundamentais.

A primeira é que, como bem mostra Carlota Perez, o Brasil e a América Latina não vão alcançar a fronteira da inovação tecnológica global na produção de microchips, televisores ou automóveis. É na aplicação de ciência e tecnologia ao conhecimento e ao uso da biodiversidade florestal que estão as maiores chances de que a economia do continente ganhe relevância global. As organizações que hoje fomentam o empreendedorismo sustentável na Amazônia estão contribuindo para a emergência de um ambiente de negócios favorável a essas conquistas.

A segunda consequência da junção entre ativismo, ciência e empreendedorismo está no substrato ético das iniciativas atuais das organizações que fomentam o empreendedorismo na Amazônia. Elas não se pautam apenas por respeito à natureza, mas também pelo protagonismo das populações tradicionais da região nas iniciativas empreendedoras. É um empreendedorismo em que povos indígenas, ribeirinhos, agricultores familiares têm papel central.

Num país tão marcado pela destruição e pelo racismo, os negócios que surgem na Amazônia representam um passo fundamental no surgimento de uma vida econômica marcada pela unidade orgânica entre a inovação e a luta contra as desigualdades.

0 Shares:
0 Share
0 Tweet
0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Talvez você goste

Componente socioambiental da reputação bancária

Duas características inéditas marcam o capitalismo do Século XXI. A primeira é a exposição voluntária das bases socioambientais em que se apoiam seus processos produtivos por parte de organizações empresariais. A segunda é que esse movimento de abertura dos fundamentos materiais, biológicos, energéticos e, em certa medida, sociais dos empreendimentos resulta de pressões vindas de atores que até bem pouco tempo quase não dialogavam com firmas privadas e sequer faziam delas o foco de sua ação.

Novas fronteiras da agricultura familiar

Quem ainda imagina que agricultura familiar é uma organização social avessa ao risco, incapaz de inovação técnica e de pequeno porte por definição, não conhece um dos mais importantes fenômenos recentes da economia brasileira: a expansão do Oeste bahiano, que se estende, em grande medida, ao Piauí e ao Maranhão.