Os Einsteins perdidos e a economia do conhecimento

Página22 8/04/2019

Mal distribuída, a economia do conhecimento está longe de realizar seu potencial. A concentração em um punhado de poderosas corporações responde pelo fato de a inovação, paradoxalmente, avançar pouco no mundo contemporâneo, segundo recentes estudos.

A luta contra as desigualdades é parte essencial de uma estratégia que tenha por objetivo retirar o Brasil da retaguarda da inovação tecnológica global. É verdade que em setores ligados à produção de etanol, de celulose e em alguns outros segmentos da agropecuária, nossa pesquisa é significativa. Mas quando se trata das mais avançadas formas de produção que definem a nossa época, a economia do conhecimento, nosso quadro é desolador. Somos consumidores e não protagonistas do que se faz de mais relevante no mundo com base na revolução digital. Dois estudos recentes mostram que a maneira convencional de se pensar este tema (segundo a qual é preciso financiar as empresas e as pessoas que já são as mais inovadoras) precisa ser urgentemente revista.

O primeiro deles[1] tem por título a pergunta: quem se torna um inventor nos Estados Unidos? Os dados são impressionantes. O estudo rastreou (de forma anônima) 1,2 milhão de inventores do nascimento até a idade adulta. E o que foi encontrado? As crianças nascidas em famílias que se encontram no topo da pirâmide social (entre os 1% mais ricos da distribuição de renda) têm dez vezes mais chances de se tornarem inventoras do que as que vêm de pais que estão entre os 50% mais pobres. Crianças brancas têm três vezes mais chances que as negras e apenas 18% dos inventores são mulheres. A participação das mulheres está aumentando, mas, ao ritmo atual levaria nada menos que 118 anos para que a paridade de gênero ocorresse.

Além disso, o estudo mostra que a exposição a inovações durante a infância tem enorme influência sobre a propensão a que os indivíduos se tornem inventores. Só que aí também as diferenças sociais são determinantes: os jovens especialmente talentosas para matemática (de onde sai a maioria dos inventores) e cujas famílias estão entre os 80% de menor renda muito dificilmente conseguem realizar este talento como inventores.

O impacto das desigualdades para o futuro da inovação tecnológica é tão grande que os autores do estudo não hesitam em falar de “Einsteins perdidos”. Sua principal conclusão é que as inovações poderiam ser bem maiores se as oportunidades não fossem tão desigualmente distribuídas.

Estas conclusões são corroboradas por um importante relatório que a fundação britânica NESTA[2] (que apoia iniciativas de inovação para enfrentar os grandes desafios contemporâneos) acaba de publicar, sob a coordenação de Roberto Mangabeira Unger.

A ideia central do trabalho é que a economia do conhecimento encontra-se confinada e está longe de realizar seu potencial. A imensa riqueza dos gigantes digitais é produzida por menos de 70 mil funcionários e situa-se em poucos lugares do mundo. É verdade que as inovações promovidas sistematicamente pelas maiores corporações da economia do conhecimento são impressionantes. Mas a distância entre estas poucas empresas e o restante da vida econômica não cessa de se ampliar.

A hipótese básica do relatório da Fundação NESTA é que esta concentração das capacidades inovadoras entre um punhado de poderosas corporações responde pelo fato de a inovação estar paradoxalmente avançando pouco no mundo contemporâneo. Por isso, a grande aspiração emancipatória do Século XXI é a democratização da economia do conhecimento, ou seja, a formação de mecanismos e incentivos que permitam às pequenas e médias empresas, às associações territoriais e às cooperativas, participarem de forma ativa e criativa das potencialidades que a revolução digital oferece.

Em quase todo o mundo, as políticas de inovação voltam-se aos interesses das maiores e mais poderosas empresas. Há um abismo entre as comunidades acadêmicas e de políticas públicas que estudam e concebem mecanismos de incentivo à inovação e as voltadas à luta contra as desigualdades. É fundamental que este abismo seja suprimido. É completamente distópico conformar-se com um horizonte que considere inevitável esta concentração de riqueza e poder e proponha como compensação uma renda básica de cidadania. Democratizar a economia do conhecimento exige que se ampliem radicalmente as chances de a grande maioria da população tornar-se sujeito de seus potenciais criativos. Difícil pensar num desafio mais importante e fascinante para o desenvolvimento sustentável.

Enfrentar este desafio é um dos principais objetivos do 2º Encontro Nacional do Programa Academia ICE que se realiza nos próximos dias 8 e 9 de maio, em São Paulo[3].

[1] http://www.equality-of-opportunity.org/assets/documents/inventors_paper.pdf

 

[2] https://media.nesta.org.uk/documents/Imagination_unleashed-_Democratising_the_knowledge_economy_v6.pdf

 

[3] http://ice.org.br/

http://pagina22.com.br/2019/04/08/os-einsteins-perdidos-e-economia-do-conhecimento/

0 Shares:
0 Share
0 Tweet
0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments
Talvez você goste

Rádio USP: Análise Econômica do dia 13/06/2008

Se o etanol brasileiro é tão eficiente do ponto de vista econômico e energético, por que motivo ele desperta tamanha oposição internacional? Por que será que o Brasil está sendo tão perseguido? Não querem que a gente cresça, que o gigante adormercido desperte?

Agricultura e desenvolvimento rural

Qual a população rural dos Estados Unidos? A maioria dos leitores não hesitará em responder: 2 ou 3%. Na verdade, 20% dos americanos são considerados rurais, pelas estatísticas oficiais. Os 2 ou 3% referem-se à população economicamente ativa na agricultura.

A Economia Híbrida do Século XXI

Um espectro ronda os grandes fornecedores europeus e norte-­‐americanos de energia elétrica. Batizado, num relatório recente do Rocky Mountain Institute(2014), de “abandono da rede” ou, na expressão em inglês “grid defection” ele anuncia o crepúsculo dos sistemas centralizados de energia nos Estados Unidos e sua substituição massiva, antes de 2020, por um arranjo que envolve captação solar...