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5/04/2020 –  O mundo precisa estar mais vigilante que nunca para que a produção alimentar global contribua para a saúde das pessoas e não para a disseminação de doenças. Para isso, é necessário enfrentar uma mentira e uma falácia expressas pelo ministro Abraham Weintraub em conversa recente que manteve com o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) e que provocou nova crise diplomática com a China[1].

A mentira é a sugestão de que a venda e o consumo de animais vivos, muitos dos quais selvagens, expostos em condições sanitárias ameaçadoras e impondo-lhes sofrimento impiedoso ocorre na China e não no Brasil. Reportagem recente do excelente Infoamazonia[2] mostra que a destruição florestal (além de colocar populações humanas em contato com patógenos contra os quais elas não possuem anticorpos)  abre caminho a feiras clandestinas como a que foi desbaratada em novembro de 2019 em Manaus e que vendia macacos, jabutis, aves, quatis, corujas e cachorro. Em setembro uma quadrilha foi pega no Parque Nacional do Jaú com carne de anta, tartarugas e seus ovos.

Segundo estimativas da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres[3], citada pela reportagem do Infoamazônia, nada menos que 38 milhões de animais selvagens são retirados da natureza a cada ano no Brasil. O ministro parece mais preocupado em inflamar suas redes sociais do que em respeitar a sobriedade e o equilíbrio que o exercício de seu cargo deveria supor, mas ainda assim, seria bom que ele conhecesse um pouco a realidade de que fala.

E, além da mentira, qual a falácia exposta por Weintraub? Ela está no pressuposto de que a criação de animais em cativeiro é solução para garantir uma alimentação livre de patógenos causadores de doenças em seres humanos. Há dois problemas com esta afirmação. O primeiro é que um dos prováveis efeitos da atual pandemia é que a exigência de qualidade e de rastreamento do consumo alimentar vai-se ampliar. E animais criados soltos, em condições de bem-estar, com sua dignidade respeitada, isso é e será cada vez mais valorizado pelo consumidor. Estes são temas estratégicos para a FAIRR[4], uma rede de investidores com uma carteira de US$ 20,3 trilhões e dos quais depende boa parte do financiamento do agronegócio global.

O segundo problema, é que a criação em cativeiro que se consolidou, mundo afora, sob um modelo cuja escala tornou-se ameaçadora não apenas para a dignidade animal, mas para o meio ambiente e a saúde pública. Segundo pesquisa recente da FAIRR[5], 15% das emissões globais de gases de efeito estufa originam-se na produção de carne e leite, que também respondem por imenso consumo de água e por mudanças, frequentemente destrutivas, nos sistemas de uso do solo.

Além disso, como bem mostra relatório da ONU Meio Ambiente[6], é crescente a preocupação dos profissionais em saúde pública com o aumento da resistência à eficiência dos antibióticos, como forma de combate a algumas das principais enfermidades humanas. Morrem anualmente 700 mil pessoas porque as drogas antimicrobianas tornaram-se pouco efetivas no combate aos patógenos. E o que isso tem a ver com alimentação saudável e segura?

Tudo: os animais consomem nada menos que 70% dos antibióticos que a indústria produz. Ora, 80% dos antibióticos consumidos são excretados na urina e nas fezes. Os sistemas de tratamento e purificação de água não conseguem eliminar a presença dos antibióticos. Consequentemente nós acabamos por ingeri-los. Na criação de peixes em cativeiro, a ONU Meio Ambiente estima que o vazamento chega a 75% dos antibióticos usados. A própria indústria farmacêutica[7] mostra profunda preocupação com o assunto e trabalha, em coordenação com a ONU, no enfrentamento do problema.

Isso quer dizer que os cuidados com a segurança sanitária da produção de carnes em escala industrial estão trazendo ao mundo o aumento da resistência antimicrobiana, definida documento da ONU Meio Ambiente como a que ocorre quando “um microorganismo passa a resistir aos efeitos de um agente antimicrobiano e multiplica-se em sua presença”. Que parte fundamental do consumo global de proteínas animais esteja associada a riscos tão impactantes mostra a urgência de que o modelo agroindustrial contemporâneo seja profundamente transformado.

O padrão de consumo de carnes do Século XX é uma das mais emblemáticas expressões de como o avanço da ciência e da tecnologia (por meio dos indispensáveis antibióticos) pode converter-se em ameaça. Enfrentar esta ameaça vai exigir mais rastreamento, mais qualidade, mas também formas de criação que respeitem a dignidade dos animais, que não destruam os recursos ecossistêmicos de que dependemos e que não ameacem nossa saúde, sob o pretexto de nos fornecer proteínas a baixo custo.

[1] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2020/04/06/embaixada-da-china-weintraub-coronavirus.htm

 

[2] https://infoamazonia.org/pt/2020/04/portugues-uma-proxima-pandemia-pode-surgir-da-amazonia-com-avanco-sobre-a-floresta#!/story=post-40725&loc=-3.131633299999984,-59.98250410000001,7

 

[3] http://www.renctas.org.br/wp-content/uploads/2014/02/REL_RENCTAS_pt_final.pdf

 

[4] https://www.fairr.org/

 

[5] https://www.fairr.org/article/global-investor-engagement-on-meat-sourcing/

 

[6] https://www.unenvironment.org/resources/frontiers-2017-emerging-issues-environmental-concern

 

[7] https://www.ifpma.org/resource-centre/leading-pharmaceutical-companies-present-industry-roadmap-to-combat-antimicrobial-resistance/

 

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