É um erro julgar que o poder do presidente dos EUA é absoluto. O ano de 2017 será marcado pelo confronto entre o fundamentalismo fóssil de Trump e quatro forças estruturais que a ele se opõem

Nexo Jornal 21/12/2016

Ricardo Abramovay[i]

Quatro anos antes do prazo formalmente estabelecido, foi ratificado, ao final de 2016, o Acordo Climático de Paris[ii], que lança as bases para limitar o aumento da temperatura global média, durante o Século XXI, a algo entre 1,5º e 2º. Este era, até novembro, o fato mais importante de 2016, no que se refere à relação entre as sociedades humanas e os ecossistemas de que dependem.

Com a eleição de Donald Trump e a confirmação de destacados negacionistas climáticos em postos chaves do primeiro escalão governamental as coisas mudam de figura. A diplomacia norte-americana passa a ser chefiada por Rex Tillerson, CEO da ExxonMobil, empresa sob investigação judicial[iii] pelo uso de informações distorcidas para persuadir a opinião pública e os investidores de que não existe consenso quanto aos impactos das mudanças climáticas.

Para a agência ambiental (Environmental Protection Agency), Trump escolheu Scott Pruitt, um aliado da indústria fóssil e que não hesitava em contestar os resultados dos estudos científicos[iv] sobre os efeitos do petróleo e do carvão sobre o meio ambiente e a saúde humana. Ele chegou a processar a agência que agora vai chefiar, porque ela procurava endurecer a legislação sobre poluição e emissões de origem fóssil. O primeiro resultado desta nomeação foi o que um post no site da Universidade de Toronto[v] chama de “guerrilha de arquivos”: cientistas armazenavam febrilmente, nos últimos dias de dezembro, informações que poderiam ser simplesmente apagadas ou danificadas com a chegada de Pruitt à direção da agência ambiental americana. Um importante conselheiro de Trump chega a propor que a NASA interrompa seus programas de pesquisa ligados a mudanças climáticas[vi].

Mas é um erro julgar que o poder do presidente dos EUA é absoluto. O ano de 2017 será marcado pelo confronto entre o fundamentalismo fóssil de Trump e quatro forças estruturais que a ele se opõem.

A primeira e mais importante é a ciência e a inovação tecnológica. A revolução dos semicondutores está permitindo impressionante barateamento na crescente oferta de energia eólica e solar em todo o mundo. Jeremy Legget[vii] mostra que fazendas eólicas construídas recentemente em Estados do Sul dos EUA oferecem energia a US$22 o megawatt-hora e os projetos solares estão a US$ 40 a hora. O custo médio do megawatt-hora com base em gás é de US$ 52 e o do carvão US$ 65. Além disso, há um imenso esforço que junta grandes investidores privados e o mais importante braço de pesquisa do Ministério da Energia (a arpa-e[viii]) em projetos sobre armazenagem de energia. Claro que a pesquisa científica também se volta aos fósseis[ix] e particularmente à exploração de petróleo e gás por meio do fraturamento hidráulico, o tão discutido shale gas. Mas enquanto as patentes em renováveis[x] aumentaram, nos EUA, de 200 para 1000 ao ano entre 2000 e 2009, as fósseis cresceram somente de 100 para 300 anuais neste período. O confronto entre o primitivismo de quem julga que as mudanças climáticas são embuste chinês para prejudicar a competitividade industrial dos EUA[xi] e a pujança da pesquisa voltada à descarbonização da economia vai certamente marcar o ano de 2017.

A segunda força estrutural de oposição ao negacionismo climático do Governo Trump vem do próprio setor privado. Por um lado, as dívidas das grandes petroleiras são gigantescas e comprometem os investimentos que aí ainda se realizam. Exxon, Shell e Chevron devem hoje o dobro[xii] do que deviam em 2014. Como mostra um estudo recente[xiii], os custos da exploração petrolífera não cessam de aumentar. Isso já minava a rentabilidade das empresas quando os preços estavam altos e foi catastrófico com a queda das cotações dos últimos dois anos. O resultado é duplo: por um lado mais fundos de investimentos aderem ao “divestment”, ou seja, à eliminação de produtos fósseis de suas carteiras, ao mesmo tempo em que os investimentos em renováveis modernas (eólica, solar, biomassa e geotérmica) batem sucessivos recordes. Ao final de 2016 nada menos que 688 instituições em 76 países, com ativos financeiros superiores a US$ 5 trilhões[xiv] tinham assumido compromisso de suprimir seus investimentos em combustíveis fósseis.

A terceira força origina-se no fato de que o movimento para a descarbonização não depende exclusivamente de governos centrais em nenhuma parte do mundo, embora estes sejam cruciais. Vários Estados norte-americanos têm compromissos legais com avanço de renováveis modernas, assim como algumas das mais importantes cidades do País.

A quarta força estrutural que serve de contrapeso ao negacionismo climático de Trump vem da Ásia do Leste. É verdade que a China continua instalando algo como uma usina a carvão por semana[xv] e que a Índia está longe de suprimir sua dependência com relação a este combustível. Ao mesmo tempo é claro que o Acordo Climático de Paris e sua ratificação recente não teriam sido possíveis se China e Índia não estivessem radicalmente comprometidas com a mudança em suas matrizes energéticas. Parte muito importante da pesquisa, dos investimentos privados e das orientações governamentais nestes dois países dirigem-se ao avanço das renováveis modernas não só na oferta de energia, mas também na incontornável modernização industrial por que estes países hoje passam. A Índia deve instalar até 2022 o correspondente a seis usinas de Itaipu em energia solar e outras quatro em eólica[xvi].

O resultado do confronto entre o executivo norte-americano e estas quatro forças é imprevisível. Mas não deixa de ser uma boa notícia que ciência, tecnologia, inovação, políticas locais, investimentos privados e mudanças importantes vindas da China e da Índia coloquem Donald Trump e sua turma na contramão da luta contra as mudanças climáticas.

https://www.nexojornal.com.br/ensaio/2016/4-for%C3%A7as-decisivas-na-luta-contra-as-mudan%C3%A7as-clim%C3%A1ticas-em-2017

[i] Professor Sênior do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo. Twitter: @abramovay – Blog: ricardoabramovay.com

[ii] http://unfccc.int/paris_agreement/items/9485.php

[iii] http://time.com/4101957/new-york-exxon-mobil-investigation/?iid=sr-link2

[iv] https://www.nytimes.com/2014/12/07/us/politics/energy-firms-in-secretive-alliance-with-attorneys-general.html?_r=3

[v] https://ischool.utoronto.ca/content/guerrilla-archiving-event-saving-environmental-data-trump

[vi] https://www.theguardian.com/environment/2016/nov/22/nasa-earth-donald-trump-eliminate-climate-change-research?CMP=twt_a-science_b-gdnscience

[vii] http://www.jeremyleggett.net/2016/12/state-of-the-transition-november-2016-steps-forward-continue-to-outnumber-steps-back-notwithstanding-trump-election-but/

[viii] https://arpa-e.energy.gov/?q=slick-sheet-project/organic-flow-battery-energy-storage

[ix] Covert , T., M. Greenstone and C. R. Knittel (2016) “Will We Ever Stop Using Fossil Fuels? Journal of Economic Perspectives. Vol 30 nº 1 Winter. Pp 117-138.

[x] https://medium.com/solutions-journal-summer-2014/the-energy-revolution-is-here-841c6906a348#.9e99eejbd

[xi] http://super.abril.com.br/ciencia/a-ciencia-segundo-donald-trump/

[xii] http://br.wsj.com/articles/SB10545754388814383509304582272150573707014

[xiii] http://www.asyousow.org/ays_report/unconventional-risks-the-growing-uncertainty-of-oil-investments/

[xiv] https://350.org/big-divestment-news/

[xv] http://www.nytimes.com/2016/04/26/business/energy-environment/china-coal.html?_r=0

[xvi] https://www.smashwords.com/extreader/read/596925/1/new-room-to-manoeuvre-an-indian-approach-to-climate-change

Compartilhar com amigos
  • gplus
  • pinterest

3
Deixe um comentário

avatar
3 Comment threads
0 Thread replies
0 Followers
 
Most reacted comment
Hottest comment thread
3 Comment authors
VaniaRafael Henrique Siqueira RodriguesWeliton da Maia Recent comment authors
  Subscribe  
newest oldest most voted
Notify of
Weliton da Maia
Visitante

Excelente texto!

Rafael Henrique Siqueira Rodrigues
Visitante

Uau!

Vania
Visitante
Vania

análise otimista e importante.