Professor da FEA aponta a revalorização das regiões interioranas como um dos fenômenos mais importantes do milênio, enquanto uma equipe da Politécnica faz o levantamento do potencial dos recursos energéticos do Oeste Paulista

Por MIGUEL GLUGOSKI. Publicado em Resenha – Jornal da USP. Set/out de 2003. Disponível em: http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2003/jusp660/pag1011.htm

Quem se aposenta na cidade e tem algum dinheiro acumulado, ou o consegue vendendo sua casa, vai morar no campo para aproveitar melhor o ócio da terceira idade; quem, mesmo jovem, perde o emprego na metrópole, muda-se para o interior e ali monta um boteco, um serviço de transporte escolar, uma academia de ginástica, fabrica e vende doces ou faz outra coisa qualquer. Mas ninguém esquece nem abandona os hábitos, o estilo de vida e os confortos citadinos; carrega-os junto. Assim que se instalam na casa do sítio ou na cidade pequena, essas pessoas costumam ser vistas pelos habitantes do lugar como intrusos, hippies ou portadores de idéias e modos estranhos à comunidade rural; mas com o tempo elas serão as responsáveis principais por um fenômeno característico do início do terceiro milênio: a revalorização econômica, social e cultural das regiões interioranas. O elemento novo nessa transformação do território não é, portanto, a agricultura, que, a exemplo da indústria e do comércio, constitui um setor econômico tradicional, mas a ruralidade, isto é, um modo de vida em que se valorizam as relações com a natureza e entre pessoas, diversificando as formas de renda, preservando a biodiversidade, fortalecendo as manifestações culturais e outros valores humanos caros à sociedade contemporânea. Para desfazer o preconceito de que no meio rural a única atividade que conta é a agricultura, o professor Ricardo Abramovay, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, compilou em livro cinco ensaios, um dos quais, o último (“Subsídios e multifuncionalidade na política agrícola européia”), ganhou o Prêmio Ruy Miller Paiva 2002, concedido anualmente pela Sociedade Brasileira de Economia e Sociologia Rural para o melhor artigo do ano publicado na revista da entidade.

Abramovay assinala que a agricultura ocupa cada vez menos gente e participa com parcela sempre menor na formação da riqueza social – embora seja notório que, economicamente, nos últimos anos vem salvando a balança comercial brasileira com exportações crescentes. A tendência ao declínio é universal, o que não significa que os espaços rurais corram o risco de perder o slots seu lugar. Se é verdade, por exemplo, que nos Estados Unidos a população economicamente ativa não vai além de 2% ou 3%, a população rural ultrapassa 22%; na França, são 27% e nos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), um em cada quatro habitantes vive em regiões rurais. Não são todos agricultores; são operários, funcionários, enfermeiros, professores, artesãos, guias turísticos, aposentados ou profissionais liberais, que diretamente nada têm com a agricultura. Paradoxalmente, o envelhecimento da população mundial contribui para o dinamismo do campo, pois para lá os idosos se transferem, injetam renda e exigem qualidade de vida. Quase um terço dos brasileiros, mais de 50 milhões de pessoas, vivem em regiões rurais. Se tomado como base para a expansão de múltiplas atividades, esse território deve ser entendido como lugar promissor para as novas gerações, até agora habituadas a valorizar apenas a cidade.

No segundo ensaio, o professor da FEA estuda a forma de organização dessa multiplicidade de atores, assinalando que existem mais de 4 mil conselhos municipais de desenvolvimento rural e pelo menos 1.500 passaram pela experiência de aplicar um plano de desenvolvimento. No entanto, ainda não está superado o desafio de passar da “lógica do balcão” – ou da lista de reivindicações aos poderes federais – a uma racionalidade de projeto, capaz de construir o futuro dessa comunidade. No terceiro texto, mostra-se que a organização social é uma fonte decisiva de geração de riqueza e o segredo está no fortalecimento dos vínculos localizados, que permitem a ampliação da confiança e o alargamento do círculo de negócios.

O crescimento agrícola também pode trazer resultados nefastos, especialmente poluição e êxodo rural exasperado. Na Europa, a degradação ambiental e a exaustão dos recursos naturais se fazem particularmente presentes nas regiões cerealistas; no Brasil, um bom exemplo está nos cerrados, cada vez mais ocupados com lavouras de soja. O impacto dessas atividades sobre o meio ambiente é negativo e o efeito multiplicador, tênue no desenvolvimento nacional.

Subsídios – No ensaio premiado, Abramovay nota que a própria opinião européia se insurge contra a política oficial de subsídios à agricultura, pois os principais beneficiados são sempre os grandes produtores, os maiores proprietários de terra, os que mais degradam o ambiente e os que menos geram empregos e ocupações. A ajuda vai sobretudo para os produtores de cereais, de carne e de beterraba destinada à fabricação de açúcar. Embora a opinião pública internacional ainda acredite que o protecionismo favoreça os pequenos produtores, isso é falso, garante Abramovay.

A novidade na transformação do campo brasileiro não é a agricultura, mas a ruralidade, isto é, um modo de vida em que se valorizam as relações com a natureza e entre as pessoas, fortalecendo os valores humanos

Para o professor, “a reforma da Política Agrícola Comum de 1992 embute uma contradição fundamental, que se exprime agora no debate da multifuncionalidade: por um lado, a substituição da sustentação de preços por ajudas diretas acabou protegendo não os ‘sete milhões de agricultores’, mas a minoria que responde pelo essencial da oferta de grãos e carnes, e cuja presença no mercado mundial depende, de fato, de subsídios estatais”. É o mesmo que dizer que a sustentação de renda dos agricultores europeus não tem por fim o pagamento de funções múltiplas, socialmente valorizadas e não remuneradas pelo mercado, mas é uma forma de garantir o lugar dos maiores produtores europeus no mercado internacional.

De resto, conforme escreve Abramovay, os problemas enfrentados na Europa não são particulares do velho continente; em grande parte trazem a marca dos grandes desafios das políticas agrícolas e do desenvolvimento rural do século. Lá como cá, vão surgindo novas formas de relação entre o homem e o território, onde as necessidades da produção agrícola são apenas um componente, e cada vez menos importante, na utilização do espaço. E “o grande dilema da União Européia está na adaptação de sua política agrícola às novas exigências que a sociedade coloca ao meio rural”.

O futuro das regiões rurais
Ricardo Abramovay
UFRGS Editora
150 páginas
R$ 19,00

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