Valor Econômico. 14/04/2015 Página D3

Sociólogo sugere que táticas de persuasão podem esvaziar a tendência atual ao contraste entre ciência e opinião pública. Por Ricardo Abramovay, para o Valor, de São Paulo

É na psicologia e na cultura e não na informação e na ciência que podem ser buscadas as raízes dos mais importantes debates políticos e ideológicos contemporâneos. A visão de mundo das pessoas explica muito mais suas tomadas de posição em diferentes domínios da vida social do que o veiculado nos jornais e nas revistas especializadas. Longe de atenuar as opiniões arraigadas, o maior nível educacional e a leitura de materiais técnicos contribuem para reforça-las. O próprio raciocínio dos indivíduos e a maneira como justificam suas crenças passam por filtros que refletem sua identidade cultural, ou seja, sua adesão às expectativas comportamentais dos diferentes grupos a que pertencem.

A gigantesca literatura sobre o ceticismo de parte importante da opinião pública diante das mudanças climáticas é sintetizada no mais recente livro do sociólogo norte-americano Andrew Hoffman a partir de um paradoxo crucial. Dos 11.944 artigos científicos publicados em revistas com sistema de arbitragem e revisão pelos pares entre 1991 e 2011, nada menos que 97,1% endossam a posição de que as mudanças climáticas existem e têm origem antrópica. Mas se é assim, como então explicar que em 2013, segundo pesquisa da Universidade de Yale, 37% dos americanos não acreditassem na ocorrência do aquecimento global? Ou que, em 2010, nada menos que 47% o atribuíssem a causas naturais? A resposta de Hoffman pode ser sintetizada numa frase de efeito: as mudanças climáticas são uma guerra cultural.

As armas nesta batalha não se restringem ao mundo das ideias, das palavras e das imagens. Andrew Hoffman, professor da Universidade de Michigan, consultor empresarial, pioneiro nos estudos sobre responsabilidade socioambiental corporativa e cuja tese de doutoramento ganhou, no início do milênio, o Prêmio Rachel Carson conhece bem os setores econômicos mais emissores de gases de efeito estufa. Assim, ele mostra não só que o combate ao aquecimento global fere poderosos interesses, mas revela também que o debate público sobre o tema está seriamente influenciado pelo poder do dinheiro. Dos 107 livros negacionistas publicados, globalmente, entre 1989 e 2010 a maioria foi patrocinada por organizações conservadoras e 90% não passou por qualquer processo de revisão pelos pares.

Além disso, a complexidade do tema torna-o cada vez menos apetitoso. Em 2013, o New York Times fechou sua editoria ambiental e apenas doze repórteres voltados especificamente ao tema trabalham hoje nos cinco maiores jornais norte-americanos. Com isso, o poder de difusão das mensagens sem qualquer fundamento científico se amplia. Um estudo de 2013, citado por Hoffman, constata que 72% do transmitido pela Fox News em matéria de mudanças climáticas continham erros, proporção que se reduzia a 8% no canal pago e pouco expressivo MSNBC.

Mas o livro de Hoffman não se limita a apresentar as bases culturais e materiais que explicam o contraste flagrante entre ciência e opinião pública e aos quais ele dedica seus três primeiros capítulos. Seu interesse maior está no esforço, que tem início no capítulo quatro, de superar o verdadeiro cisma cultural que marca o debate climático. Ele expõe uma teoria da mudança (termo cada vez mais usado por organizações de desenvolvimento no mundo todo) com base na qual são apresentadas táticas e habilidades para enfrentar a atual polarização. E sua recomendação básica é que não se vence uma guerra cultural acentuando e levando até a caricatura as concepções opostas que imprimem coesão a cada um de seus lados. O essencial (e claro que isso não se refere apenas às mudanças climáticas) é a construção de pontes que podem permitir diálogo, audiência e, portanto, alguma permeabilidade no tecido cerrado das verdades já conhecidas. O confronto direto, na visão de Hoffman pode ser útil para fortalecer a cola que une cada um dos extremos da polêmica. Mas quando se trata de pontes, as táticas e as habilidades são outras.

Em primeiro lugar tão importante quanto as mensagens são os mensageiros que as transmitem. É mais fácil que os segmentos conservadores da opinião pública se preocupem com as mudanças climáticas se mensagens nesta direção vierem de grandes empresas do que se forem veiculadas pelo Greenpeace ou pelo WWF. A norte-americana Union of Concerned Scientists, saudou com entusiasmo que diversas grandes empresas tenham abandonado a Câmara Americana de Comércio em 2009 por suas posições retrógradas sobre mudanças climáticas. Em segundo lugar, Hoffman cita vários estudos mostrando que os cenários catastrofistas são úteis para fortalecer as convicções dos convertidos, mas despertam a desconfiança dos céticos. Em terceiro lugar, a comunicação científica tem que ganhar maior eficiência e se apoiar no que ensinam os mais recentes estudos de psicologia, falando para as pessoas a partir de suas preocupações e repertórios. Estas táticas (que supõem habilidades nada óbvias) é que permitem ir além do quadro de “nós contra eles”, que tem marcado e em grande parte esterilizado o atual debate.

As propostas de Andrew Hoffman não devem ser encaradas como uma espécie de ética da complacência. O que ele propõe não é reduzir o alcance da descarbonização da vida econômica, nem mesmo a denúncia da destruição sistemática que os gigantes fósseis hoje promovem. Em nenhum momento ele escamoteia a força e o cinismo dos interesses que até dominaram globalmente a produção de energia, nem o fato de os EUA, com 4,6% da população mundial responder por um quarto do consumo de todo o petróleo.

Seu ponto é outro. As mudanças sociais necessárias ao desenvolvimento sustentável supõem a arte da persuasão e não o exercício tão comum da demonização das crenças alheias. É assim que os movimentos que hoje pressionam grandes fundações, universidades e fundos de pensão a não mais investirem em fósseis conseguiram legitimação que lhes garantiu sucesso crescente. O papel das ruas é fundamental, claro, mas delas, por si só, não emergirão as pontes necessárias à vitória nesta guerra cultural.

“How Culture Shapes the Climate Change Debate”. Andrew Hoffman. Editora Stanford Briefs. 120 páginas US$ 11,69

http://www.valor.com.br/cultura/4004822/mudancas-climaticas-sao-um-caso-de-embate-cultural

Compartilhar com amigos
  • gplus
  • pinterest

Postar um comentário