Sustentável, econômica, interligada e preparada para as mudanças climáticas

Além da crônica falta de saneamento, tudo indica que a construções de hotéis para a Rio 2016 foi superestimada
Além da crônica falta de saneamento, tudo indica que a construções de hotéis para a Rio 2016 foi superestimada

Não é só o Brasil que apresenta um extraordinário déficit de infraestrutura. E não é só o Brasil que corre fortemente o risco de preencher este déficit de forma equivocada, fazendo investimentos com o nefasto poder de pavimentar o caminho para o atraso e a insustentabilidade. Juntar infraestrutura, luta contra as mudanças climáticas e desenvolvimento sustentável é uma das mais importantes preocupações da Comissão Global sobre a Economia e o Clima, que reúne um poderoso time de economistas e dirigentes políticos e empresariais em torno do tema.

A ideia central da Comissão é que não basta criar as condições macroeconômicas e os incentivos microeconômicos para que sejam feitos investimentos em infraestrutura. Claro que estes investimentos são indispensáveis como bem o apontaram os membros do G20, quando lançaram, em 2014, oGlobal Infrastructure Hub, uma tentativa de estimular parcerias público privadas para suprir o gigantesco déficit de infraestrutura no mundo todo.

Mas o recém-lançado plano de negócios do Global Intrastructure Hub chama a atenção pela ausência de qualquer menção a mudanças climáticas. Na verdade, não só o G20, mas a esmagadora maioria dos planejadores públicos e privados, bem como os bancos de desenvolvimento costumam colocar infraestrutura e mudanças climáticas em compartimentos separados e independentes um do outro. Que o Brasil precise ampliar suas ferrovias, melhorar e aumentar suas rodovias, portos e aeroportos, que o saneamento tenha que se tornar a prioridade das prioridades (tema em que o professor José Eli da Veiga vem insistindo com razão e sobre o qual a Revista Página 22 acaba de publicar um excelente dossier) não há dúvida. Mas convém mencionar três riscos fundamentais apontados pela Comissão e que fornecem um excelente quadro normativo para repensar a infraestrutura.

Em primeiro lugar, as infraestruturas atuais serão cada vez mais vulneráveis aos impactos dos eventos climáticos extremos. 40% dos sinistros pagos mundialmentepela Seguradora Allianz em 2013 decorreram de tempestades e inundações e isso absolutamente não estava na previsão de seus técnicos. As dez maiores catástrofes cobertas pela seguradora relacionaram-se, naquele ano, a mudanças climáticas. No Brasil, a seca no Sudeste não só colocou (e, ao que tudo indica, ainda coloca) em risco o abastecimento das grandes metrópoles, mas ameaçou a principal fonte de energia elétrica do País.

A capa do novo livro de Kevin Kelly, fundador da revista Wired
A capa do novo livro de Kevin Kelly, fundador da revista Wired

O segundo risco está naquilo que os economistas chamam de lock in, ou seja, a permanência numa certa trajetória tecnológica não por ser ela a mais barata ou a mais eficiente e sim por estar já instalada e funcionando. Ampliar os investimentos no pré-sal, por exemplo, significa perenizar por décadas toda a cadeia de valor ligada a sua exploração, além de ser um imenso incentivo a que o setor de transporte siga na dependência do uso de combustíveis fósseis. Da mesma forma, levar adiante os projetos de usinas hidrelétricas no Tapajós traz consigo a necessidade de construir linhas de transmissão e um modelo de geração e distribuição de energia elétrica que afasta o Brasil da fronteira tecnológica da inovação neste setor e das condições necessárias para que as renováveis modernas (eólica e solar) ganhem maior relevância. Uma vez feitos os investimentos nesta direção, eles terão que ser rentabilizados, reduzindo as chances de alternativas melhores. A manifestação do Ministro José Sarney Filho, em entrevista ao Valor Econômico, de que a usina de Tapajós é “inteiramente dispensável” e a negação da licença do IBAMA para sua construção são sinais muito positivos.

O terceiro risco apontado pela Comissão refere-se à perda de valor e de rentabilidade dos investimentos em combustíveis fósseis. Já assume dimensão gigantesca o movimento pelo qual grandes investidores afastam-se do setor. A União Europeia acaba de aprovar uma legislação pela qual os fundos de pensão do Continente (3,2 trilhões de euros para 75 milhões de cidadãos) são obrigados alevar em conta os riscos climáticos nos ativos em que investem. Nas Filipinas, a Comissão de Direitos Humanos está processando as empresas de petróleo para que arquem com o pagamento dos danos provocados por eventos climáticos extremos que penalizaram sobretudo suas populações mais pobres.

A menção a estes riscos mostra que melhorar o ambiente regulatório, ampliar a confiança nos contratos, acabar com a promiscuidade entre grandes empreiteiras e Governo, estas são condições necessárias, mas nem de longe suficientes para a infraestrutura de que a economia do século XXI necessita.

Mas além dos riscos levantados no documento da Comissão Global sobre a Economia e o Clima, é importante que a infraestrutura se inspire em dois objetivos básicos.

O primeiro é a economia de recursos. Tudo indica, por exemplo, que as construções hoteleiras para os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro tenham sido seriamente superestimadas, o que conduzirá não só a imensa perda de recursos privados, mas também a um desperdício imenso dos materiais e da energia na sua construção. Que se trate de água, energia ou mobilidade, as oportunidades de obter comodidades com menor uso de recursos são imensas. A revolução digital amplia estas possibilidades, por meio do rastreamento minucioso da produção e do consumo, mas também do estímulo a formas colaborativas de uso dos recursos. As inúmeras iniciativas nesta direção vêm crescendo de forma animadora.

O segundo objetivo consiste em reduzir a distância que separa o Brasil da fronteira tecnológica contemporânea, composta por robotização, big data, inteligência artificial e internet das coisas. Como bem mostra o livro recém lançado de Kevin Kelly (fundador e colunista da prestigiosa revista Wired) tudo o que, desde a revolução industrial foi eletrificado, está sendo, agora, “cognificado”. A oferta contemporânea de bens e serviços vai-se apoiar, cada vez mais, na interatividade entre os objetos conectados em rede e fornecendo informações não só sobre seu próprio desempenho, mas também sobre os comportamentos de seus usuários. Esta é uma força tecnológica que abre um caminho promissor para ampliar a economia de recursos. Além das telas de computadores, haverá na internet em 2020 nada menos que 50 bilhões de objetos interconectados. A indústria vai apoiar-se fortemente nestas capacidades de conexão.

É o que um relatório recente da consultoria global Accenture chama de Internet Industrial das Coisas (Industrial Internet of Things). A consultoria pesquisou a probabilidade de adoção destas tecnologias que marcam o futuro da indústria contemporânea em vinte países e o Brasil encontra-se sistematicamente nas piores colocações. É fundamental que a melhoria do ambiente capaz de estimular investimentos em infraestrutura tenha como objetivo ampliar as chances de que o Brasil reduza sua distância do que de mais inovador a revolução digital hoje oferece.

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