Cresce a contestação contra os impérios de manipulação da vontade humana em que se transformaram os gigantes digitais contemporâneos

Página22

A gratuidade dos serviços oferecidos na internet está no banco dos réus. O modelo de negócios apoiado na troca de privacidade por conveniência vem dando lugar a uma contestação massiva, por parte de alguns dos mais destacados estudiosos, empreendedores e ativistas desta área. A revista eletrônica Select All entrevistou 12 protagonistas e pioneiros das tecnologias da sociedade em rede e batizou a série com o sugestivo título “A internet se desculpa”.

O tema das entrevistas é o impressionante contraste entre a esperança emancipatória que marcou os primeiros anos da revolução digital e a distopia atual, da qual o escândalo da Cambridge Analytica é apenas a ponta do iceberg. No cerne deste contraste encontra-se a crítica ao universo fantástico em que comodidades são oferecidas sem que precisemos pagar por elas.

Jaron Lanier, o primeiro dos entrevistados, acaba de publicar um livro que é uma denúncia e um manifesto. Lanier (músico, artista plástico e cientista da computação) é um dos criadores do campo da realidade virtual, trabalha hoje na Microsoft e conhece por dentro o mundo do Vale do Silício como poucos. Entre outras atividades, ele assessorou Spielberg em Minority Report.

Sua denúncia, sem meias palavras: as redes sociais estão nos transformando em idiotas (assholes). Ao usá-las renunciamos a nossa autonomia individual. Ele expõe dez sólidos argumentos (os dez capítulos de seu livro) pelo qual deveríamos abandonar as redes sociais.

O que está em jogo não é a revolução digital ou a internet e sim a natureza das trocas que cada um de nós estabelece com as empresas que nos oferecem serviços dos quais desfrutamos gratuitamente. A gratuidade, vista nos primeiros anos da revolução digital como expressão virtuosa da supremacia da cooperação social sobre as hierarquias convencionais, encarada como prenúncio do declínio do mundo da propriedade e dos direitos autorais em benefício da abertura e da liberdade, tornou-se tóxica.

O problema não está no fato de as redes sociais de que participamos se financiarem por meio da publicidade. O problema é que, como mostra Lanier, “o que já foi chamado de publicidade deve ser agora compreendido como contínua modificação de comportamento em escala titânica”.

Os smartphones, a computação em nuvem, a internet das coisas e o big data são alguns dos dispositivos que marcam a transição da internet de um sistema aberto e descentralizado para o controle e o poder de um punhado de gigantescas corporações.

Nossos dados pessoais servem a elas para duas finalidades básicas. Em primeiro lugar, são a matéria-prima sem a qual seriam impossíveis os avanços mais recentes da inteligência artificial, no campo das traduções, da mobilidade urbana, da saúde ou do reconhecimento facial. É com base nas informações que fornecemos em nosso cotidiano que as máquinas aprendem e, a partir de algoritmos fechados e até hoje invioláveis, nos oferecem os resultados dessa inteligência coletiva.

Mas esse sistema de vigilância permanente permite, em segundo lugar, que o conhecimento de cada um de nós abra caminho para a intervenção em nossas preferências, em nossa vontade e, portanto em nossas escolhas. É algo que a publicidade sempre tentou fazer, claro, mas nunca com instrumentos tão poderosamente capazes de interferir sobre os comportamentos humanos.

O mote do sistema de vigilância é que ele forneça as ferramentas para que nos mantenhamos conectados e nossas emoções ligadas aos dispositivos que nos acompanham o tempo todo. E, como hoje é largamente sabido, o grotesco, o escandaloso, o emocionalmente chocante têm muito mais poder para atrair nossa atenção que o racional, o afetivo e o reflexivo. O impacto sobre nossa própria sociabilidade dificilmente poderia ser mais deletério.

Em um paper recentemente publicado, Lanier e seus colaboradores sugerem que os dados deveriam ser tratados como trabalho e não como capital. Os donos dos dados (cada um de nós) também deveriam beneficiar-se com seu uso, sobretudo na economia da informação em rede. Ao mesmo tempo, nós pagaríamos pelo uso dos benefícios oferecidos pelas redes sociais. Isso permitiria uma relação menos opaca entre cidadãos e os poderes que hoje, como nunca antes na História, conseguem interferir sobre seus comportamentos. Mas também reduziria os lucros exorbitantes dos gigantes digitais e, assim, o absurdo poder que hoje detêm sobre a condição humana.

A publicação do paper de Lanier e seus colaboradores pela American Economic Association é um importante sinal da crescente contestação voltada contra os impérios de manipulação da vontade humana em que se transformaram os gigantes digitais contemporâneos.

A gratuidade tóxica das redes sociais

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