Valor Econômico. 17/11/2015 – p. A

Ricardo Abramovay[1]

Dos desafios solitários, no interior de um veleiro, em que fez a mais rápida circum-navegação do globo, em 2005, nasceu a inspiração para que Ellen McArthur lançasse um dos mais ambiciosos movimentos empresariais contemporâneos. Os 71 dias em que a britânica percorreu mais de 50 mil quilômetros, sem reabastecimento de combustíveis, alimentos ou água, forneceram-lhe uma imagem preciosa. Os materiais, a energia e os recursos bióticos do Planeta são abundantes, mas, em alguma medida, finitos e se não forem usados de forma inteligente, acabarão por esgotar-se. Entre 2005 e 2010 Ellen McArthur empregou seu prestígio e sua obstinação para encontros com líderes empresariais e de ONG’s do mundo todo. O resultado é a Fundação Ellen McArthur, apoiada hoje não só por mais de uma centena de empresas globais do calibre de Renault, Philips, e-Bay e IBM, mas também por uma ampla rede de organizações de consultoria e pesquisa, incluindo diversas universidades ao redor do mundo. Acaba de ser lançado seu escritório brasileiro, com seminário recentemente realizado na sede da Natura e na FEA/USP.

A constatação de base é que a vida econômica contemporânea percorre uma trajetória linear: extrair, transformar, consumir e descartar. O desperdício daí resultante até que podia ser tolerado num mundo com dois ou três bilhões de habitantes. Hoje, não mais.

Mesmo na Europa, onde os hábitos de vida são muito menos perdulários do que nos Estados Unidos, os dados são chocantes, conforme mostra um fascinante relatório da Fundação Ellen McArthur e da McKinsey, recém lançado[2]. 60% dos materiais descartados pelos europeus são enviados a aterros ou incinerados. Ora, materiais e componentes correspondem a algo entre 40 e 60% do custo total da atividade manufatureira europeia. Os europeus importam 60% dos materiais e da energia que consomem. Portanto, a urgência com relação à melhoria em seu aproveitamento não é um tema “ambiental”, mas um imperativo econômico de sobrevivência.

O relatório analisa três necessidades humanas básicas – mobilidade, alimentação e moradia – que correspondem a 60% dos gastos domiciliares e a 80% dos recursos consumidos na União Européia. O mau uso é generalizado. O automóvel europeu, por exemplo, fica estacionado 92% do tempo. Em média, ao ser usado, somente 1,5 de seus cinco lugar é ocupado. Quando se juntam os gastos domiciliares com o automóvel aos custos de suas externalidades (sobretudo congestionamento) o resultado total é de dois trilhões de euros anuais, equivalentes aos PIBs da Itália e da Suécia somados.

Na alimentação, joga-se fora nada menos que um terço dos alimentos produzidos. O uso da água é pouco eficiente e a estimativa é que as culturas absorvem apenas 30 a 50% dos fertilizantes aplicados. Além disso, não se pode separar a produção alimentar das distorções em seu consumo, razão pela qual o relatório mostra o impressionante custo social do sobrepeso e da obesidade na Europa.

O funcionamento da construção civil, também impõe custo exorbitante à sociedade europeia, que tem três expressões principais. A primeira é o desperdício de materiais e a baixa produtividade em muitos países europeus, em contraste com o avanço tecnológico em outros setores. Além disso, de 35% a 50% dos escritórios europeus permanecem sem uso, mesmo nos dias e horários úteis. Em terceiro lugar, apesar de sua tradição histórica de cidades compactas, o processo de dispersão urbana também avança na Europa, com custos imensos para toda a sociedade.

A economia circular tem a ambição de transformar este sistema para que tanto os nutrientes biológicos, como os nutrientes técnicos que compõem a riqueza sejam permanentemente não apenas reciclados, mas revalorizados ao longo dos processos produtivos. O ponto de partida é de natureza eminentemente ética: os vários documentos lançados desde 2012 pela Fundação Ellen McArthur preconizam uma economia não apenas menos danosa, mas regenerativa tanto dos ecossistemas como do tecidos sociais que têm sido sistematicamente destruídos pelas formas atuais como se obtém riqueza. Em um trabalho também recentemente publicado sobre a Suécia a economia circular é definida como um “sistema industrial restaurativo por intenção e por design”[3].

A novidade contida nesta orientação ética é tríplice. Por um lado, ela só vai florescer caso consiga se apoiar em muita ciência e tecnologia. Os vários documentos da Fundação Ellen McArthur reconhecem que já existe redução no uso de materiais, energia e recursos bióticos, mas mostram que estes ganhos têm sido constantemente contrabalançados pelo próprio aumento no consumo. Globalmente, o uso de recursos aumenta e só a pesquisa em torno de energias renováveis, novos materiais e formas regenerativas de uso de solo poderá reverter esta tendência.

Em segundo lugar, a inovação tecnológica disruptiva que pode dar origem à economia circular supõe novos modelos de negócio em que o acesso se torna mais importante que a propriedade e o compartilhamento passa a ser estimulado pelo próprio setor privado. De maneira realista e sem sensacionalismo, o relatório europeu mostra o avanço notável do uso compartilhado de automóveis na Europa.

Em terceiro lugar, os trabalhos da Fundação Ellen McArthur procuram estimar os ganhos econômicos que a transição para a economia circular pode trazer. No caso europeu se forem incluídas as externalidades, estes ganhos podem chegar a 1,8 trilhão de euros até 2030.

O Brasil e a América Latina são hoje os grandes fornecedores das matérias-primas cujo uso a economia circular tem a ambição de reduzir drasticamente. Parte cada vez mais importante da inovação contemporânea visa exatamente diminuir a dependência em que o sistema econômico se encontra de produtos primários. Longe de ser má notícia para nosso Continente, esta realidade abre as portas para o melhor uso dos recursos de que dispomos. A economia circular dá um rumo promissor para a retomada do crescimento brasileiro, quando ela vier.

[1] Professor Sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP, autor de Beyond the Green Economy (Routledge). www.ricardoabramovay.com

[2] http://www.ellenmacarthurfoundation.org/news/circular-economy-would-increase-european-competitiveness-and-deliver-better-societal-outcomes-new-study-reveals

[3] http://www.clubofrome.org/?p=8260

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Comentários

  1. ANTONIO MANUEL FONSECA RIBEIRO
    1 de fevereiro de 2016 at 17:31

    Gostaria de contribuir para difundir o conceito de economia circular. Sou economista pela FEA USP e cursei o MBA Internacional pela FIA. Sou fluente em inglês, espanhol e português.

    • Fabiano Martin Tiossi
      5 de junho de 2016 at 11:46

      Sou doutorando em engenharia de produção e tenho fortes interesses na área de economia circular. Por favor, entre em contato: fmartintiossi@yahoo.com.br.

  2. Murilo Almeida Santos
    13 de janeiro de 2017 at 11:31

    Prezados, sou formado em Engenharia Química e mestrando em contabilidade pela UFBa, tenho interesse em contribuir no desenvolvimento dos estudos sobre o tema. Segue meu contato: murilo.santos@ufba.br

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