A adição química do sistema agroalimentar

notification icon23/12/2025

A regulação global de produtos químicos usados em larga escala na indústria e na agropecuária é perigosamente permissiva. Contrariamente ao que ocorre com os produtos farmacêuticos (testados rigorosamente por agências públicas especializadas, antes de receberem autorização de venda), o sinal de alerta para os químicos só é aceso se for provado de maneira irrefutável que eles estão na origem de alguma tragédia. E como as tragédias em questão não são súbitas e espetaculares, mas cumulativas e discretas, o resultado é uma regulação deficiente diante do uso de ingredientes químicos altamente lucrativos para as corporações que os fabricam, mas cujos impactos sobre a vida social e os serviços ecossistêmicos não entram em sua contabilidade.

Daí o título do relatório que acaba de ser publicado pela consultoria global Systemiq, elaborado por um grupo de 25 especialistas internacionais vindos de áreas como toxicologia e meio ambiente, mas também direito e economia: “Ingredientes invisíveis. Enfrentando os produtos químicos tóxicos no sistema alimentar” (Invisible Ingredientes. Tackling Toxic Chemicals in the Food system).

O que está em jogo é a própria base tecnológica em que repousa parte decisiva dos produtos que compõem a riqueza das sociedades contemporâneas, das frigideiras não aderentes aos retardadores de chamas, passando por vários tipos de embalagens e por componentes hoje indissociáveis da imensidão da oferta agroalimentar.

O trabalho da Systemiq mostra a existência de alternativas aos atuais métodos produtivos, mas que não se materializam, muito mais pelos interesses e pela inércia dos incumbentes do que pela impossibilidade técnica de substituir o que prejudica a saúde humana e os serviços ecossistêmicos por aquilo que a ciência aponta como passível de ser utilizado. Mais que isso, da mesma forma que no caso dos combustíveis fósseis, os custos da inação são muito maiores que os das soluções existentes, embora não necessariamente tão lucrativos para os setores que dominam a indústria.

Os 350 mil produtos químicos e misturas registrados no mundo (entidades novas, das quais uma parcela ínfima foi objeto de avaliação quanto a seus riscos) são agregados, no relatório da Systemiq, em quatro famílias que incidem sobre o sistema agroalimentar. Os ftalatos são substâncias adicionadas aos materiais para aumentar sua flexibilidade, sua durabilidade (filmes plásticos, embalagens para alimentos, mas também correias transportadoras e tubulações) e são usados largamente na indústria alimentar. Os bisfenóis produzem plásticos duros empregados como vasilhames de bebidas, plásticos reaproveitáveis e, até recentemente, em mamadeiras. O terceiro componente analisado são as substâncias per e polifluoroalquílicas, conhecidas como PFAS, presentes nos pacotes de pipoca, nos pratos de papel, nas embalagens de fast-food, nas caixas de pizzas e em utensílios não aderentes de cozinha. Por fim, o estudo se volta aos agrotóxicos, cujos impactos sobre a biodiversidade e a saúde humana são bem conhecidos, mas que continuam a ser usados em larga escala. Só nos Estados Unidos há mais de 15 mil ingredientes agrotóxicos registrados. E desde o ano 2000 a capacidade de produção de químicos, plásticos e ingredientes ativos de agrotóxicos quase dobrou.

Estes componentes químicos, que formam a base do sistema agroalimentar contemporâneo, são vetores fundamentais de doenças não transmissíveis, aumentando a incidência do câncer, dos distúrbios reprodutivos, das condições adversas de neurodesenvolvimento e de inúmeras outras doenças metabólicas. O trabalho da Systemiq estima que os custos do emprego pervasivo de ftalatos, bisfenóis, PFAS e agrotóxicos chegam a algo entre US$ 1,4 e 2,2 trilhões anuais, ou seja, 2% a 3% do PIB global ou o correspondente ao lucro das 100 maiores companhias globais listadas em bolsa.

Mas estes custos não são incontornáveis. O estudo mostra não só a existência de alternativas para cada um desses quatro elementos, mas também a racionalidade econômica de sua adoção. O “phasing-out” de 42% dos PFAS na União Europeia até 2030, por exemplo, é estimado em US$ 500 milhões anuais. Já os custos de tratamento das doenças e as perdas decorrentes do uso de PFAS sobem a nada menos que US$ 83 bilhões anuais. O remédio não chega a 1% da despesa com a doença. E isso ocorre com os quatro químicos em que o sistema agroalimentar atual se apoia.

Se é assim, por que motivo a adoção das novas tecnologias que poderiam substituir estes produtos nocivos não é acelerada? A resposta da Systemiq é que “a influência da indústria sobre a avaliação regulatória e a política de gestão de riscos constitui uma barreira para a mudança”. Da mesma forma que no tabaco, nos combustíveis e nos ultraprocessados, os “mercadores da dúvida” proliferam na comunicação da indústria química e são denunciados por organizações da sociedade civil citadas no relatório.

O relatório reconhece o pioneirismo e a liderança do Brasil nas pesquisas sobre bioinsumos (e particularmente biopesticidas) voltados à agricultura. Mas ele mostra a ilusão de considerar que o “phase-out” neste setor já foi realizado. Do ensino agronômico à extensão rural (pública e privada), passando pelos critérios que orientam os financiamentos do sistema bancário e pela cultura que domina as práticas agropecuárias, o que foge dos métodos convencionais é tratado como de alto risco e desestimulado. O que é coerente com a constatação da Systemiq de que as “companhias têm poucos incentivos para promover alternativas que iriam provocar cortes em seu negócio principal”.

Por mais que a agricultura regenerativa tenha se incorporado ao vocabulário das corporações agroquímicas e apesar de muitas delas estarem comprando startups de bioinsumos, elas perseveram no lançamento de sementes cuja alta produtividade é dependente do uso de agrotóxicos. Como se o principal desafio da agropecuária fosse o de aumentar a produção e não o de acelerar a transição para tecnologias que podem regenerar os tecidos socioambientais que, até aqui, os modelos convencionais têm sistematicamente destruído. O ponto de partida para o planejamento de uma agricultura regenerativa é a suspensão imediata do lançamento de supostas inovações que perpetuam as técnicas atuais e um horizonte temporal para que a intoxicação química atual deixe de ser o componente decisivo do sistema agroalimentar contemporâneo.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/a-adicao-quimica-do-sistema-agroalimentar.ghtml

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