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30/03/2020 – Não há melhor momento para pensar sobre o significado de viver juntos do que quando uma pandemia nos impõe estarmos separados. Esta separação pode ser obtida por vigilância, imposição e restrição às liberdades, mas ela pode resultar também de empatia, solidariedade e confiança. É difícil mencionar estes atributos em sociedades que sistematicamente, nas últimas décadas, desprezaram a essência do viver juntos destruindo ou não cuidando o suficiente de seus sistemas de saúde. Esta dificuldade entre nós é maior com um presidente que faz do culto à ignorância e ao individualismo (se o vírus ME pegar, tudo bem, EU sou atleta) um método de governo.

Viver juntos não envolve só o paradoxo do nosso atual cotidiano, em que estamos isolados, mas cada um a seu modo procurando os familiares, os amigos, os alunos e até os colegas de trabalho. “Viver juntos”, mais que isso, é uma noção de natureza ética e, como tal, tem uma tríplice dimensão.

A primeira é que “viver juntos” não é e não pode ser uma simples consequência do fato de precisarmos uns dos outros para satisfazermos nossas necessidades. Numa economia de mercado, em que a cooperação entre as pessoas se faz de forma anônima e impessoal, é claro que dependemos uns dos outros. Mas o reconhecimento do outro, no ato da troca, é regido por um mecanismo que Karl Marx caracterizou bem na expressão “estranhamento recíproco”. Isso nos trouxe inúmeras vantagens, quando comparamos a organização social apoiada em mercados com as que a precederam: mais riqueza, maior independência, maior conforto. Mas o fundamento desta organização social é que vivemos juntos quase que a nossa revelia, precisamos dos outros, mas sem que esta precisão gere, por si só, um vínculo pessoal.

Por isso Max Weber dizia que o mercado não conhece fraternidade. Este não é propriamente um defeito e sim uma característica do funcionamento dos mercados. Por mais importantes que sejam os mercados em diferentes aspectos de nossa vida, não é pelos mercados que exprimimos a dimensão ética envolvida na ideia de viver juntos.

Viver juntos supõe a busca do bem comum e não apenas a capacidade de produzir e distribuir coletivamente bens e serviços. Claro que a própria ideia do que é o bem comum envolve pontos de vista distintos. Mas por maiores que sejam os sofrimentos desta pandemia, ela está revelando, para as sociedades contemporâneas algo decisivo: a gigantesca riqueza e mesmo o impressionante aumento de bem-estar que o mundo conheceu nos últimos cinquenta anos não ampliaram na mesma proporção nossa capacidade de perseguir e conquistar o bem comum.

É que o bem comum não pode jamais resultar de um puro mecanismo de interação social. Seu conteúdo ético está no fato de ele só existir se for intencional. Os bens materiais e os serviços em cuja oferta e distribuição nós cooperamos coletivamente são apenas instrumentos, meios. A finalidade é uma vida que vale a pena ser vivida e esta só se alcança pela busca do bem comum.

Esta ideia é importante na filosofia africana, segundo Nelson Mandela[1], ao explicar o que é Ubuntu. A ideia não é que as pessoas não cuidem delas mesmas ou não procurem satisfazer seus próprios interesses. Mas esta busca tem que ser feita de tal forma que a “comunidade em sua volta também melhore. Estas são as coisas importantes na vida”.

Mas há uma segunda dimensão ética na ideia de viver juntos cuja discussão no momento atual é decisiva. Trata-se de nossa capacidade de viver juntos tanto com os que nos precederam, como, sobretudo, com os que virão depois de nós. Os 200 mil anos de história humana nos legaram conhecimentos, capacidades, histórias, realizações, mitos e fantasias constitutivos do que há de mais importante naquilo que somos.

Mais importante ainda é pensar no mundo que estamos deixando para os bilhões de pessoas que ainda poderão enriquecer incrivelmente a condição humana, dependendo do que nós, hoje, formos capazes de lhes deixar. O maior desafio de viver juntos com as gerações futuras, neste sentido, consiste em fazer emergir o quanto antes sabedoria, ética, prudência que estejam à altura das imensas conquistas científicas e tecnológicas em que o mundo não cessa de progredir.

E aqui vem a terceira dimensão ética do viver juntos. Um dos mais importantes sinais para a redução do abismo entre o que hoje sabemos e podemos e a precariedade das bases éticas e políticas deste poder e deste conhecimento está em nossa relação com as diferentes formas de vida das quais dependemos e em que estamos inseridos. Por que razão, por exemplo, deveríamos nos preocupar em preservar a existência da coruja pintada, mesmo que isso não traga nenhuma utilidade econômica? Citando Gautama Buda, Amartya Sen[2] (prêmio Nobel de Economia de 1988) responde que “por sermos enormemente mais poderosos do que as demais espécies, é preciso que tenhamos alguma responsabilidade para com elas, em um esforço por minorar de alguma maneira essa assimetria”.

Viver juntos, nestas três dimensões não é um antídoto passageiro em época de pandemia. É uma forma de estar no mundo e imprimir sentido à vida de cada um de nós.

Viver juntos e o bem comum

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Ubuntu_(filosofia)

 

[2] https://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u11316.shtml

 

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