Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 07/06/2011 – p. D 10

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“The Crash Course – The Insustainable Future of Our Economy, Energy and Environment”
Chris Martenson. John Wiley. 317 págs., US$ 27,95

Chris Martenson: integração de economia, energia e ambiente é alternativa racional para objetivos insustentáveis

Dívidas crescentes e em larga escala, poupança quase nula, erosão da biodiversidade e dos solos, declínio dos recursos minerais, esgotamento da água, pico do petróleo, do carvão e do urânio, mudanças climáticas, chegada à aposentadoria da geração nascida no início dos anos 1950 e estouro da bolha imobiliária: enfrentar cada um desses elementos de maneira isolada já seria um fantástico desafio. O que justifica o título deste livro, “The Crash Course”, é que eles convergem, tornando o horizonte dos próximos 20 anos totalmente diferente daquilo que a humanidade viveu de 1990 para cá. A principal conclusão do trabalho de Chris Martenson é que são ínfimas as chances de os grandes problemas da sociedade americana serem resolvidos pela mais consagrada das terapias: o crescimento econômico.

Doutor em patologia/toxicologia pela prestigiosa Universidade de Duke, nos Estados Unidos, Martenson renunciou a uma carreira acadêmica que se mostrava promissora para atuar em postos de comando de empresas do porte da Pfizer e da Science Applications International. Com base nessa experiência, criou uma organização social e uma plataforma na internet  em que se encontram vídeos compactos(legendados em inglês, português, espanhol e francês) com a mensagem básica do livro: as sociedades contemporâneas (a começar pelos Estados Unidos) construíram, sobretudo a partir de 1980, um modo de vida apoiado no endividamento crescente, na poupança declinante e numa expectativa irrealista com relação às possibilidades de que os compromissos assumidos poderão ser pagos. Para Martenson, a reflexão que integra economia, energia e ambiente oferece a perspectiva mais realista com relação aos próximos 20 anos.

Os números são estonteantes. No fim dos anos 1980, o total da dívida americana (governo federal, Estados, Municípios, empresas e domicílios) já chegava a US$ 10 trilhões e pulou, em 2008, em valores reais, para US$ 53 trilhões. Só nos últimos 16 anos, essa dívida cresceu US$ 16 trilhões. O pior é que ela não está servindo como alavanca para riqueza futura, ou seja, para investimentos. No setor público, a Associação Americana de Engenheiros civis avaliou, em 2005, a condição das 12 mais importantes infra-estruturas do país e concluiu que seriam necessários investimentos de US$ 1,6 trilhão para que os Estados Unidos revertessem seu sucateamento. A esses itens somam-se todas as responsabilidades governamentais ligadas à saúde e à assistência social, cujo montante vai além de US$ 100 trilhões. Não são propriamente dívidas, mas compromissos que vão exigir mobilização de recursos. Martenson calcula que esse conjunto de dívidas e responsabilidades (“liabilities”) corresponde hoje a mais de dez vezes o PIB americano. E isso, no contexto de uma sociedade cujos habitantes poupavam, 30 anos atrás, cerca de 11% da renda e hoje não poupam praticamente nada.

Os capítulos dedicados à energia e ao ambiente mostram que os ecossistemas não têm como oferecer as bases materiais necessárias ao crescimento econômico com o qual essa dívida deveria supostamente ser paga. O pico do petróleo americano foi em 1970, quando o país produzia 10 milhões de barris por dia. Em 2007, esse total caiu para 5 milhões. No Golfo Pérsico, mais da metade da produção estimada já foi extraída e agora o declínio é incontornável. Nos novos poços, são crescentes os gastos e a energia necessária para produzir petróleo. A produção mundial de 84,4 milhões de barris diários, em 2009, atingiu o recorde, em 2011, de 88 milhões.

Mesmo que a energia nuclear supere a contestação de que é hoje objeto, não só os investimentos na produção dos reatores são imensos e também crescentes, mas as fontes de urânio com alto grau de pureza esgotam-se rapidamente, o que eleva seus custos econômicos e energéticos. Com o carvão não é diferente. É verdade que a produção americana cresce 2% ao ano desde 1940. No entanto, as fontes de maior rendimento energético já se esgotaram e o resultado é que se usa cada vez mais energia para obter a mesma unidade de calor. O pano de fundo desse menor rendimento energético é a previsão da Agência Internacional de Energia de que, entre 2008 e 2030, o consumo americano de carvão aumente nada menos que 47%.

Por maiores que sejam as esperanças depositadas nas energias solar e eólica, seu ponto de partida é tão baixo que não têm como compensar o aumento nos custos das energias fósseis. Se o crescimento da energia solar for de 25% ao ano, a partir de 2006, corresponderá, em 2020, a apenas 1% do fornecimento de eletricidade nos Estados Unidos.

Com os minerais o quadro é semelhante. Os Estados Unidos importam hoje 100% de suas necessidades em 19 minerais estratégicos. Ainda que haja alguma temeridade nesse tipo de previsão, as reservas conhecidas de alguns minerais críticos devem esgotar-se nos próximos 20 anos – se houver energia suficiente para levar adiante sua exploração.

Neo-malthusianismo? O termo, usado no verbete que a Wikipedia dedica a Chris Martenson, tornou-se um insulto, sobretudo quando empregado em sociedades ainda distantes do atendimento a suas necessidades básicas. No entanto, o alerta lançado por Martenson sugere que, mesmo em países com matriz energética menos dependente de combustíveis fósseis que os Estados Unidos, como o Brasil, não se caia na ilusão de que são quase infinitas as fontes energéticas e as reservas de materiais capazes de fazer do crescimento econômico um objetivo autônomo, a ser ser alcançado de forma ilimitada.

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