UOL Tab passa a ter conteúdos diários – Meio & Mensagem13/08/2020

O tripé da sustentabilidade desabou. Em inglês, ele era conhecido pelo triplo P (People, Planet, Profit, ou seja Pessoas, Planeta e Lucro) e também pela expressão “triple bottom line” (triplo resultado), que, digitada entre aspas no Google, terá 2,3 milhões de referências, com inúmeras ilustrações gráficas. A ideia básica foi exposta por John Elkington em Canibais com Garfo e Faca, livro destinado ao mundo dos negócios e que vendeu mais de um milhão de exemplares.

Publicado em 1997, (e no Brasil em 2012) o livro mostra que são promissoras as oportunidades de lucro para as companhias que oferecerem bens e serviços capazes de evitar a destruição ambiental e de contribuir para reduzir as desigualdades. Ele teve influência na formulação do Global Reporting Initiative, pelo qual as empresas informam publicamente suas emissões de gases de efeito estufa e no surgimento do Índice Dow Jones de Sustentabilidade. Mas, mais que isso, ele se tornou um mantra do mundo empresarial por mais de duas décadas.

Apesar deste prestígio, John Elkington publicou na Harvard Business Review, em 2018, um “recall” do conceito.

O problema fundamental, que motivou a revisão de Elkington, é que o tripé se tornou um instrumento de medida e não uma orientação movida por valores. Se a sustentabilidade é um valor, isso significa que o raciocínio em torno do desempenho das empresas não pode se apoiar na compartimentação daquilo que elas fazem.

O “triple bottom line” acabou por favorecer o que Elkington chama de ética da complacência: o mais importante, para o gestor da empresa, era, evidentemente, o lucro de seus acionistas. O resultado triplo não foi capaz de neutralizar a atração exercida pelo resultado único: o lucro. Ainda mais que este lucro determina os ganhos não só dos acionistas, mas os dos próprios gestores.

É claro que se avançou em temas socioambientais desde o final do Século XX. Mas este avanço vem respondendo à lógica do “tanto quanto possível”. A ênfase da abordagem de Elkington acabou sendo desviada para um conjunto de medidas que detectavam redução em emissões, economia de água, de energia ou de materiais.

A sustentabilidade era escamoteada e apresentada por avanços tópicos, fragmentários e que em nada comprometiam a maneira como os negócios se organizavam nem tampouco os lucros advindos desta organização. Era como se a sustentabilidade fosse uma espécie de consequência gradual inscrita na própria lógica do mercado e na eficiência que ele pressupunha. Afinal, nenhum gestor razoável gasta água, energia ou materiais à toa e este bom senso acabou sendo assimilado, de forma indevida, ao que John Elkington queria ao criar o tripé da sustentabilidade. Os meios (o lucro e o que for possível fazer para compatibilizá-lo com avanços ambientais) tornaram-se mais importantes que a finalidade, que reside na natureza ética da própria ideia de sustentabilidade.

Green Swans (Cisnes Verdes), título do mais recente (o vigésimo) livro de John Elkington (ainda não traduzido para o português) é uma alusão ao Cisne Negro, imagem que Nassim Nicholas Taleb usou para referir-se a eventos muito difíceis de prever, de grande impacto e cuja ocorrência é racionalizada como se pudéssemos tê-los conhecido e anunciado de antemão: a Internet, o computador pessoal, a dissolução da União Soviética são exemplos de cisnes negros.

Já os Cisnes Verdes, têm outra natureza e, sobretudo, outra ambição: seus termos mais importantes são restauração e regeneração. Seu ponto de partida não está mais apenas na responsabilidade das empresas e sim no fato de que estas vão enfrentar durante a atual década mudanças exponenciais no que o mundo produz e consome e, sobretudo, no sentido desta produção e deste consumo para a vida das pessoas. Como escreve Elkington, o potencial para soluções exponenciais a problemas exponenciais está crescendo de maneira explosiva.

Mas, por mais importantes e disruptivas que sejam as tecnologias, não são elas que vão promover as mudanças a que os Cisnes Verdes abrem caminho. Estas mudanças exigem três atitudes fundamentais. A primeira é política: impostos sobre a herança, limites à remuneração dos executivos, valorização dos salários médios dos funcionários e reconhecimento da urgência de se pagar pelas custos socioambientais de funcionamento das empresas, para que a sociedade disponha dos bens públicos necessários a seu desenvolvimento e se reduzam as desigualdades. Ou seja, embora tenham por eixo o mundo dos negócios, os Cisnes Verdes só têm chance de prosperar com Estados atuantes e que se voltam tanto para a inovação como para a redução das desigualdades.

A segunda, diz Elkington, é que sustentabilidade não pode ser tema apenas de empresas e governos, mas tem que envolver de forma contundente os movimentos sociais, sobretudo os de jovens e os de mulheres. O autor dedica parte importante do final do livro a analisar o impacto das mensagens transmitidas tanto por Greta Thumberg como pelo Extinction Rebellion.

A terceira atitude a que os Cisnes Verdes abrem caminho está na inovação para a sustentabilidade. Um dos exemplos que ele cita é de imenso interesse para o Brasil e foi exposto nesta coluna: as formas de uso do solo e, sobretudo de criação e consumo de animais sofrerão mudanças que vão reduzir a extensão das áreas cultivadas, diminuir drasticamente as gigantescas concentrações de animais das quais hoje depende o consumo global de proteínas e passar por processos de descentralização apoiado em ciência e em tecnologias de última geração, que se exprimem na ideia de alimentos enquanto software.

Tudo isso derruba a ideia de que sustentabilidade é a soma de três dimensões, que podem ser medidas cada uma com seus parâmetros próprios.

As mais relevantes empresas do mundo estão atentas às oportunidades oferecidas pelos Cisnes Verdes. Embora a inércia no setor de petróleo seja impressionante, a Shell prepara-se para se tornar a maior companhia de energia elétrica do mundo, acompanhando a tendência à eletrificação da matriz energética global. A BMW prevê que os lucros das vendas de seus carros elétricos vão superar os convencionais até 2025.

Ninguém sabe qual o alcance e o resultado das transformações socioambientais anunciadas pelos Cisnes Verdes, como o próprio Elkington reconheceu em debate recente com Ricardo Young na Conferência 360º do Instituto Ethos. Mas o destino das empresas e dos países que teimam em ignorar estas transformações será certamente a irrelevância.

https://tab.uol.com.br/colunas/ricardo-abramovay/2020/08/13/sustentabilidade-aos-pedacos-e-sinonimo-de-complacencia.htm

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