Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 23/08/2007.

“Emergência Sociambiental” (Editora Senac), título do último livro de José Eli da Veiga, professor do Departamento de Economia da USP, contém a palavra de ordem que resume um programa político e, mais que isso, uma ambição civilizacional: socioambiental é uma palavra só. Na tradição das ciências sociais, tal como se desenvolvem desde a filosofia do direito natural, são duas palavras e bem separadas. A sociologia e a ciência política formam-se e amadurecem, à medida que voltam as costas à natureza: o social explica o social, na célebre expressão do sociólogo francês Émile Durkheim (1858- 1917).

Na economia (com raras e recentes exceções), a natureza e o meio ambiente aparecem, no máximo, como externalidades: não pertencem organicamente, interiormente, àquilo que orienta as decisões dos atores e que se exprime no sistema de preços. Só entram neste sistema por meio de imposições governamentais, o que não reduz o abismo entre as palavras social e ambiental.

No mundo dos negócios, não faz muito tempo, o meio ambiente simplesmente não existia ou era apenas um estorvo que tanto o romantismo de movimentos sociais inconseqüentes quanto o autoritarismo estatal quiseram impor à capacidade de as empresas e os mercados funcionarem como elementos norteadores da alocação dos recursos sociais. Economia e sociedade de um lado, meio ambiente e natureza do outro, esta parecia ser a essência mesma da construção do Ocidente e rios de tinta correram para lamentar ou glorificar esta proposição.

Em 1970, logo após a primeira conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente, o prêmio Nobel deEconomia Milton Friedman (1912-2006) sustentava que qualquer companhia voltada a controlar a poluição além do exigido pela lei, para contribuir com o objetivo de melhorar o meio ambientem, estava praticando “socialismo puro e simples” (pure and unadulterated socialism).

Mas socioambiental vai-se tornando uma palavra só. Na expressão, há muito mais que o desejo de que se juntem os dois termos que a formação do mundo contemporâneo, no mínimo desde o Renascimento, separou: cultura e natureza. O importante é a constatação de que, nas últimas duas décadas, seus componentes básicos sofreram alteração não só em seu significado científico, mas na própria maneira como se expressam na prática dos governos, das empresas, dos consumidores e dos próprios movimentos sociais. Nem o social, nem o ambiental permanecem os mesmos quando se juntam. Mais que uma operação intelectual, é um verdadeiro movimento político que se exprime nesta unidade.

Cada uma das três partes de que se compõe “A Emergência Socioambiental”, de José Eli da Veiga, lança desafios à maneira habitual de refletir sobre o tema, numa linguagem simples, acessível ao não especialista e que consegue enfrentar de maneira clara os debates mais importantes. É um livro escrito não só para o público universitário, mas também para os tomadores de decisão, nas empresas, nas organizações da sociedade civil e no governo. A discussão de fundo se apóia na exposição organizada sobre as principais informações brasileiras e internacionais a respeito do tema.

No primeiro capítulo, “Mais Social que Ambiental”, o autor desfaz o mito de que o Produto Interno Bruto (PIB) pode ser parâmetro adequado para medir a maneira como uma sociedade se relaciona com os recursos de que dispõe. A inspiração básica aqui é o Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen e a idéia de que a economia e o crescimento econômico não são finalidades, mas meios que não podem nem devem escamotear questões decisivas a respeito da qualidade de vida dos indivíduos, da distribuição da renda e do uso que uma sociedade faz de sua riqueza.

Na segunda parte, “Mais Ambiental que Social”, o livro oferece um claro e resumido panorama sobre o estado dos recursos naturais em áreas tão diferentes como o aquecimento global, a desertificação e os recursos hídricos – que desemboca numa discussão decisiva: como medir o uso econômico e social do meio ambiente? Os métodos consagrados na contabilidade nacional são claramente insuficientes para isso e a economia ecológica vem dando passos decisivos para superar estas limitações.

O mais importante, porém, é a discussão da terceira parte do livro que faz de socioambiental uma “Unidade de Contrários”, a partir de uma leitura inspirada na tradição da dialética de Karl Marx (1818-1883) e oposta à tradição analítica das ciências sociais. Por um lado, José Eli da Veiga mostra o quanto a tradição dialética está viva em diversos segmentos das ciências naturais e nas obras de eminentes pesquisadores (sobretudo nas ciências da vida), apesar de sua tão freqüente maldição nas ciências sociais.

Além disso, o livro apresenta a discussão filosófica de maneira didática e a partir de suas conseqüências sociais práticas. É errado limitar-se ao trade-off, ao dilema entre o social e ambiental, como se uma equação que conseguisse reduzir um pouco o crescimento para preservar um pouco mais o meio ambiente bastasse. A unidade dos contrários vai manifestar-se na necessidade de alterar os estilos materiais do crescimento – e de consumo para que se alcance a sustentabilidade.

O que está em jogo não é um trade-off, mas uma contradição da qual começa – lenta e conflituosamente, é claro – a emergir o esboço daquilo que é mais importante no futuro da humanidade: uma nova relação entre natureza e cultura.

José Eli da Veiga e Marcelo Leite, responsável pelo pelo blog Ciência em Dia http://www.cienciaemdia.zip.net , e colunista do caderno “Mais!” da “Folha de S.Paulo”, vão debater estas questões no Ciclo Desenvolvimento Sustentável, no auditório da Livraria Cultura do Shopping Villa-Lobos (avenida Nações Unidas, 4.777), na quarta- feira, dia 29/08, às 19h30.

Ricardo Abramovay é professor titular da FEA-USP

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