Artigo para o jornal Valor Econômico em 09/10/2008.

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“State of the World 2008” – Vários autores. 
Worldwatch Institute. 288 págs. US$ 18,95

Uma nova economia está nascendo. Não suprime a empresa privada, os interesses individuais, a motivação do lucro, o mercado ou as grandes corporações. Ainda assim, cuida de repensar o propósito e o funcionamento dos sistemas produtivos modernos. O foco é a construção de uma relação inédita entre sociedade e natureza e, ao mesmo tempo, entre economia e ética. Não se trata apenas de denúncia ou protesto, e sim de uma explosão criativa que começa a oferecer expressão prática à idéia de que é possível produzir e viver de maneira diferente daquela que marca o apogeu da civilização ocidental. Os conhecimentos e as técnicas disponíveis, bem como os movimentos sociais que respondem pelas mudanças nos comportamentos de empresas e dos governos, permitem anunciar, ainda que timidamente, a emergência de uma economia sustentável. Não há qualquer garantia quanto ao desfecho desse processo, cujos componentes não se articulam de maneira organicamente coordenada. Mas a diversidade social de suas manifestações lhe imprime uma força impressionante.

Fundado em 1974, o Worldwatch Institute é pioneiro no estudo de temas ambientais globais. O relatório comemorativo dos 25 anos de publicações é uma espécie de síntese do estado da arte no que se refere às inovações para uma economia sustentável. O livro, com catorze capítulos, escritos em linguagem acessível ao leitor não especialista, vai da energia à gestão de recursos comuns, passando por consumo sustentável e gestão das águas.

O ponto de partida é a constatação de que a maneira de medir a riqueza nas sociedades contemporâneas está completamente ultrapassada. O tema tem sido abordado por José Eli da Veiga e Marcelo Néri em colunas de opinião do Valor. John Talbert, diretor do Programa de Indicadores de Sustentabilidade do Redefining Progress e um dos criadores das técnicas de cálculo de pegada ecológica (http://www.myfootprint.org/en/) mostra a existência de um consenso entre “pesquisadores, governos e sociedade civil sobre a necessidade de uma rápida transição para um sistemaeconômico no qual o progresso seja medido pela melhoria do bem- estar, mais que pela expansão da escala e do escopo das atividades econômicas de mercado. Precisamos medir o progresso econômico pelo quão rapidamente seremos capazes de construir uma plataforma de energia renovável, alcançar as necessidades humanas básicas, desencorajar o desperdício no consumo e investir em melhorar (e não em degradar) os capitais cultural e natural”.

Apesar da distância que nos separa de um substituto do PIB, já há sinais que mostram o contraste entre bem-estar real medidas convencionais de riqueza. Os US$ 10,8 trilhões do PIB americano de 2004 reduzem-se a US$ 4,4 trilhões quando se aplica o “indicador de progresso genuíno”, que inclui os benefícios de atividades não mercantis, como o trabalho voluntário, e se desconta a extrema desigualdade e a degradação ambiental, pois não fazem genuinamente parte daquilo que oferece bem-estar à sociedade. No plano microeconômico, há também um forte movimento para alterar as medidas de eficiência empresarial. Talbert lista, nesse sentido, cinco objetivos básicos: certificação de produtos, eco-eficiência, bem-estar no ambiente de trabalho, vitalidade comunitária e desperdício zero.

Desperdício zero pode parecer exagero fundamentalista. Longe disso. Trata-se de um dos mais notáveis traços do que L. Hunter Lovins, autora do capítulo “Repensar a produção”, chama de sexta onda da revolução industrial e que teve início em meados dos anos 1990. Ela escreveu, há quase dez anos “Capitalismo Natural”, com Paul Hawkens e Amory Lovins (Cultrix – Amaná Key). Agora ela atualiza o tema, mostrando o poder e a profusão das técnicas baseadas na biomimética. O movimento nessa direção já vem dos anos 1970, quando o arquiteto suíço Walter Stahel, na direção do Product-Life Institute de Zurique, criou a expressão “de berço a berço” (“cradle to cradle”). A idéia central não está em reciclar como meio de atenuar os danos ambientais, mas em conceber produtos agrícolas e industriais que integrem o próprio metabolismo natural, que tenham o poder de fortalecer e até regenerar os ecossistemas.

Como a natureza levaria isso adiante? É uma verdadeira consigna que organiza o que de mais avançado se faz hoje em termos de inovação industrial. Os relatos de ganhos empresariais em torno dessas novas tecnologias mostram que elas embutem um potencial imenso. Suas repercussões no design, no planejamento urbano e no uso da energia são extraordinárias.

Essa nova onde de inovações ajuda a enfrentar o que Christopher Flavin, pesquisador do WWI, chama de desafio central de nosso tempo: a descarbonização da matriz energética das economias contemporâneas. Oitenta por cento da energia que move o sistema econômico mundial são de origem fóssil. Desde 1950, as emissões de carbono derivadas dessa energia fóssil aumentaram cinco vezes. Só de 1990 para cá o aumento foi de 30%. Os interesses e a inércia institucional em torno desses padrões produtivos são poderosíssimos. Mas há, ao menos, dois sinais importantes de mudança. O primeiro é uma tomada de consciência mais ou menos generalizada a respeito do desperdício de energia. O segundo é a evidência de que investimentos privados em energias alternativas são altamente rentáveis: nos últimos cinco anos, a manufatura de turbinas a vento cresceu 17% anualmente e a de energia solar, 46%. No Vale do Silício, uma economia pós- pontocom emerge em torno das energias alternativas. Um dos maiores riscos está no contraste entre o que essas tecnologias alternativas prometem e a tendência de muitos governos a concentrar esforços no petróleo e, pior, no carvão.

Essas inovações não abolem uma questão central relacionada ao propósito e ao funcionamento das economias modernas: seus estilos de vida e, antes de tudo, seus padrões de consumo. A abundância anunciada pelo capitalismo natural e a biomimética têm como contrapartida um movimento mais geral, em que os bens e os serviços que se obtêm no mercado não são finalidades, mas meios pelos quais os indivíduos melhoram seu bem-estar e sua inserção social. A sustentabilidade supõe um passo que a desigualdade social torna ainda mais difícil: a construção de uma economia da suficiência, que exprima relação inteligente e parcimoniosa entre sociedade e natureza. Ninguém sabe de que maneira chegaremos lá. A grande virtude do trabalho do Worldwatch Institute é mostrar que começam a se formar condições materiais e institucionais que dão consistência a essa grande utopia de nosso tempo, que é o desenvolvimento sustentável.

Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (NESA) e pesquisador do CNPq

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