Comentário transmitido pela Rádio USP na sessão Análise Econômica do dia 13/06/2008.

Se o etanol brasileiro é tão eficiente do ponto de vista econômico e energético, por que motivo ele desperta tamanha oposição internacional? Por que será que o Brasil está sendo tão perseguido? Não querem que a gente cresça, que o gigante adormercido desperte? Enquanto com o milho se usa uma unidade de energia para produzir uma unidade e meia de etanol, no nosso álcool de cana a proporção é de um para oito. O resultado econômico é que o álcool de cana-de-açúcar é a forma mais barata até aqui conhecida de descarbonização da matriz energética do transporte individual. Além disso, as usinas usam o bagaço e a palha não só para produzir a energia de suas turbinas, mas vendem energia à rede e fornecerão, em 2012 o correspondente a uma Itaipu. A cana-de-açúcar não substitui alimentos, já que ela ocupa área relativamente pequena, quando comparada aos grãos e à pecuária.

Se é assim, qual a razão da gritaria internacional contra o nosso etanol? Dizer que são os interesses petrolíferos que estão contra nós não é muito consistente, pois as empresas de petróleo estão entre os grandes investidores nas usinas de etanol no Brasil. O mesmo pode ser dito para os grandes grupos de esmagamento e comercialização de grãos que também investem no Brasil.

O caso do etanol brasileiro, na verdade, é apenas um exemplo de uma tendência cada vez mais forte e generalizada de que os mercados internacionais sejam objeto crescente de pressão vinda dos mais variados movimentos sociais. Isso ocorre com a madeira, com a siderurgia, com os têxteis, com produtos transgênicos, com brinquedos e agora, com uma série imensa de produtos químicos, caso queiram entrar na União Européia. Para quem acha que a economia é o reino puro da concorrência que vai funcionar tanto melhor quanto menos questões sociais e políticas nele estiverem metidas é uma péssima notícia. Mas, ao contrário, para os que julgam que a economia só pode funcionar pela maneira como se insere na vida social as pressões sobre o etanol brasileiro vão muito além do protecionismo e mostram que os mercados contemporâneos são permeáveis a um conjunto variado de reivindicações vindas da sociedade civil. O etanol brasileiro só vai se afirmar como commodity reconhecida internacionalmente caso se submeta a um rigoroso processo de rastreamento e certificação do qual organizações, movimentos sociais e governos serão parte decisiva. É assim que hoje funcionam os mercados.

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