Artigo publicado no caderno Eu&Fim de Semana do jornal Valor Econômico em 24/08/2007.

Uma das mais importantes preocupações da sociologia econômica consiste em estudar os mercados como construções sociais e não como entidades cujo funcionamento corrói a cultura, a ciência e os próprios vínculos sociais. Essa preocupação envolve uma crítica tanto à idéia de que mercados são mecanismos neutros de equilíbrio entre indivíduos isolados uns dos outros, como à noção de que são fatores de corrupção e pasteurização da cultura humana. “L”Économie des Singularités”, título do livro de Lucien Karpik, sociólogo e professor da prestigiosa École des Mines, de Paris, agora publicado pela editora Gallimard, tem como ponto de partida essa dupla crítica, que faz dos mercados entidades ora endeusadas, ora demonizadas, mas pouco estudadas e compreendidas.

Para a escola de Frankfurt, por exemplo, o século XX assiste a uma fantástica atomização social, que faz do consumo e da mercantilização de todas as esferas da vida o prenúncio da barbárie. A obra de arte perde seu sentido especial e único, e torna-se mecânica, por incorporar-se ao mundo das mercadorias. Com isso, a produção artística passa a fazer parte do amplo processo de dominação e alienação social. Essa é a tese central do célebre texto de Max Horckheimer e Teodor Adorno, publicado em 1944, “A Produção Industrial de Bens Culturais – Razão e Mistificação das Massas”. A indústria cultural e a submissão do mundo da cultura às exigências do mercado marcam uma regressão da razão, um declínio das capacidades críticas e, portanto, ameaçam a própria vida civilizada.

Essa imagem vai além da produção artística e cultural. John Kenneth Galbraith tinha 96 anos quando, em seu último livro, denunciou o mito da soberania do consumidor como parte da “Economia das Fraudes Inocentes” (Companhia das Letras, 2006). A fantástica máquina de propaganda, capaz de dirigir os gostos, faz da identidade entre preferência e escolha uma ficção. As preferências não são livres, mas, sim, moldadas por mecanismos poderosos que os indivíduos não podemcontrolar e que corrompem a integridade de suas escolhas. Portanto, por trás da soberania do consumidor só pode existir fraude, ainda que inocente, por estar baseada na crença genuína de que indivíduos autônomos são os mestres de suas próprias escolhas. Entre a imagem canônica dos manuais de economia, em que o mercado é formado pelo equilíbrio de oferta e procura, e a visão opressiva da crítica frankfurtiana, em que os indivíduos são totalmente dominados por forças sobre as quais não exercem qualquer controle, a sociologia econômica procura construir uma alternativa intelectual, cujas conseqüências políticas são fundamentais. Mercados não são entidades impessoais em que unidades autônomas e anônimas se encontram de maneira ocasional, orientadas por sinais emitidos pelos preços. Tampouco, neles, os indivíduos apenas obedecem, sem saber, a determinações que vão além de sua capacidade e vontade. Para que os mercados funcionem, não basta que os indivíduos decidam, com base nos preços. Tanto é assim que, nas sociedades contemporâneas, é cada vez mais importante um conjunto de bens e serviços cujo uso não pode ser decidido fundamentalmente com base em preços. É o caso, por exemplo, da busca de um psicanalista, de um advogado, de um bom restaurante, de um bom vinho, de um produto ou um serviço ecologicamente sustentável. Por mais que os preços contem, os mercados desses produtos não se formam com base nas mesmas regras que caracterizam os mercados de bens de massa e indiferenciados. Exigem modalidades de coordenação econômica que a visão convencional de mercado é incapaz de conter. Deverão ser qualificados, e este é um exercício que exige a construção de dispositivos de julgamento que determinam a maneira como cada mercado monta seu regime de coordenação. E isso não importa apenas para os bens de luxo, mas também para mercadorias cuja qualidade social e ambiental é questionada, como os biocombustíveis ou os transgênicos. O traço decisivo dos bens e serviços singulares é que seu uso não se apóia apenas em decisão calculada. Ao contrário, supõe julgamento, mais que decisão. E esse julgamento envolve um nível de incerteza superior ao que existe nos mercados convencionais, não singulares. As incertezas ligadas às singularidades – por exemplo, a escolha de um dentista, a realização de uma viagem turística, mas também a compra, por uma empresa, de um combustível que não se origine em formas aviltantes de trabalho ou que não conduza à devastação da floresta tropical – não são dissipadas no momento da aquisição do produto. A concorrência em torno da qualidade é mais importante que a realizada com base nos preços. Por isso, o encontro casual entre oferta e procura – a base da economia de mercado – é muito difícil de realizar-se. Em outras palavras, o mercado é opaco e não funciona como mecanismo automático. Para que Test out our French casino Roulette variant below (free play- no sign up needed). possa operar, são necessários dispositivos que auxiliem os indivíduos na formação de seus julgamentos.

As colunas de vinho dos jornais, as críticas de cinema, música e teatro, mas também as apelações de origem, a rastreabilidade e as redes de contato personalizadas são dispositivos sociais indispensáveis para que esses mercados possam cumprir sua missão. Não se trata de propaganda ou de mistificação, como bem sabem os que acompanham as crônicas de gastronomia, a crítica literária e as diferentes modalidades de certificação. O importante é que esses dispositivos são construídos socialmente por um conjunto variado de atores. Não resultam de um encontro mágico e espontâneo entre oferta e procura. Mas tampouco podem ser interpretados como mecanismos de dominação onisciente sobre um consumidor totalmente ignorante, passivo, obediente e incapaz de raciocínio. Os “dispositivos de julgamento” são, como insiste Karpik, modalidades de construção da confiança indispensável ao mercado das singularidades. O mercado convencional é regulado pela concorrência de tal forma que, diante de uma decepção, o comprador simplesmente pode mudar de fornecedor. O mercado de singularidades exige a reunião de um conjunto de informações que reduza ao mínimo essa margem de erro. O estudo das singularidades faz parte de um longo percurso em que as ciências sociais dotam-se de meios para examinar os mercados sob o ângulo das qualidades e não fundamentalmente das equivalências. O aparato neoclássico, com suas unidades autônomas e isoladas umas das outras, é totalmente inadequado para isso. O próprio mercado passa a ser visto como construção política, cultural, em cujas estruturas é permanente a intervenção consciente e voluntária dos atores.

Nesse sentido, os mercados não são elementos de deterioração da cultura e da vida social, mas, ao contrário, são construídos permanentemente pela própria qualidade dos vínculos estabelecidos, em cada sociedade, entre os indivíduos e entre os grupos sociais. Os mercados não são os invasores da integridade cultural do mundo. Eles se encontram – como provam os equipamentos sociais em que se apóia o julgamento das singularidades – entre os principais produtos da própria cultura humana. São, portanto, um espaço de atuação política, cujo sentido não é forçosamente o de aniquilar a diversidade, exterminar a cultura e aviltar os laços sociais.

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