Matéria de Samantha Maia, publicada no jornal Valor Econômico, São Paulo 31/08/2010 – p. A2.

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O crescimento do interesse das empresas por certificados que mostrem a responsabilidade econômica e ambiental de seus produtos levantou o questionamento da comunidade acadêmica sobre até que ponto essas políticas trazem resultados efetivos. Qual seria o alcance desse envolvimento voluntário do setor privado com práticas sustentáveis?

Para Ricardo Abramovay, professor de economia da FEA-USP, o envolvimento das companhias e das Organizações Não Governamentais (ONGs) nas discussões sobre novas práticas do mercado trazem mudanças reais no processo produtivo. “Há uma transformação cultural dos dois lados. Das empresas, que abrem processos significativos de negociação, e das organizações sociais, que se preparam tecnicamente para participar das negociações”, diz Abramovay.

O professor considera que os movimentos sociais estão tornando-se mais capazes de fazer proposições a partir do conhecimento técnico exigido para negociar com as empresas. “Há dez anos, não havia no Brasil qualquer experiência dos movimentos sociais em discutir com a gestão administrativa das empresas a forma com que os mercados vão funcionar”, diz.

Para Tim Bartley, sociólogo e especialista americano em novos parâmetrospara o desenvolvimento sustentável, no entanto, o engajamento das empresas na busca de certificados pode, por outro lado, trazer impactos negativos sobre a ação dos movimentos populares, na medida que ela tem um efeito de diminuir o poder de mobilização desses grupos. Nesse sentido, ele chama atenção para o fato de que a certificação virou um campo especializado, com regras próprias e dinâmicas de poder.

Michael Conroy, diretor da Colibri Consulting, empresa de certificação e desenvolvimento sustentável, por sua vez, defende que o sistema de certificação promove uma transformação nos processos globais de governança, respondendo jameshallison casino às pressões da sociedade. “Não é um movimento restrito”, diz.

Leda Paulani, professora da FEA/USP, considera que sem haver um controle do Estado, a certificação pode virar algo frágil. “Se essas questões ficarem restritas ao voluntarismo, pode faltar uma melhora expressiva nas ações das empresas”, diz Leda.

Abramovay não classifica o movimento como algo alheio ao Estado, mas complementar. Segundo ele, a política de certificação só é válida se for para ir além do que o Estado exige, ou para legitimar a legislação. “Não é uma discussão de inspiração neoliberal, que retira o papel do Estado. O certificado se propõe a ser mais efetivo que a legislação, já que é fruto de um processo de negociação.”

Roberto Smeraldi, presidente da ONG Amigos da Terra Brasil, diz que é essencial que as certificações se antecipem à legislação. “As empresas não podem utilizar as certificações para provar o cumprimento da legislação, mas sim como estratégia para se antecipar a futuras exigências”, diz.

Para realizar tal esforço, as empresas precisam estar motivadas a fazer algo que por vezes significa o aumento de seus custos. Thierry Hommel, pesquisador francês da Fondation Nationale des Sciences Politiques, explica que as empresas buscam eficiência ambiental e econômica, além de uma justificativa ao seu público.

No momento atual, porém, o debate já estaria enraizado na sociedade, dificultando uma atitude indiferente das empresas em relação às pressões por uma postura sustentável na condução de seus negócios, diz Abramovay. “A atividade econômica hoje está profundamente enraizada na vida social, e por isso não há como a empresa ficar indiferente.”

O ganho mais perceptível hoje, segundo o professor da FEA-USP, é a maior transparência sobre a atividade das companhias. “Estamos caminhando numa escala inédita de conhecimento de quanto as empresas emitem de poluição, o impacto da sua atividade sobre a biodiversidade”, diz.

Os especialistas estiveram reunidos ontem em São Paulo no evento “Oficina sobre Governança Corporativa Conduzida pela Sociedade Civil na América Latina: Questões de Pesquisa Crítica e Oportunidades para Colaboração”, organizado pelo Núcleo de Economia Socioambiental da USP, juntamente com a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade e o Instituto Lozano Long de Estudos Latino-Americanos da Universidade do Texas. O evento termina hoje.

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