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As relações entre o desenvolvimento de um país e a complexidade de sua economia

Tanto as maçãs que compramos na quitanda como as que foram desenhadas no Vale do Silício são bens econômicos e incorporam o que há de mais precioso naquilo que consumimos: informação. No caso da fruta, esta informação se exprime em dezenas de milhares de genes que cumprem sofisticadas funções bioquímicas. Mas por mais que tenhamos alterado as maçãs para torna-las doces e suculentas, a verdade é que elas existiam no mundo antes de povoarem nossas mentes. Já os objetos que usamos para nos comunicar por meio da internet foram concebidos por alguém antes de tomar uma forma útil a nosso uso. Ambos, maçãs e Maçã (apples e Apple) são bens econômicos produzidos e vendidos por meio de vastos circuitos de distribuição. Ambos incorporam informação. Mas só um deles materializa, cristaliza nossa imaginação.

Este exemplo é utilizado por Cesar Hidalgo, físico chileno e professor do MIT (Massachussets Institute of Technology), para ilustrar como o tema em torno do qual nasce a ciência econômica no Século XVIII (a origem da riqueza das nações) está hoje sendo reescrito. Claro que o aprofundamento da divisão do trabalho, tal como Adam Smith o expôs no célebre exemplo da fábrica de alfinetes, é a base do aumento da riqueza. O fundamental, entretanto, não está no fato de que cada um de nós se especializa e troca com os outros os resultados desta especialização. O que define a riqueza das nações, nos dias de hoje, não é tanto a liberdade de nos dedicarmos àquilo em que nos julgamos mais competentes, mas antes de tudo, a qualidade daquilo que fazemos, ou seja, nossa capacidade de incorporar inteligência, conhecimento, informação e imaginação aos materiais em que nos apoiamos para a oferta de bens e serviços. Em última análise é esta capacidade que distingue a produção de riqueza do desenvolvimento econômico.

Os países que conseguem exportar bens com alto teor de inteligência estão mais aptos a um crescimento contínuo

Paulo Gala, professor da Fundação Getúlio Vargas, apoia-se teoricamente no trabalho de César Hidalgo e do venezuelano Ricardo Haussmann (ambos do Media Lab do MIT) para colocar em dúvida a consistência do mantra difundido pela esmagadora maioria dos economistas e dos jornalistas econômicos do Brasil: o de que boas instituições, capazes de sinalizar aos empresários segurança jurídica, estabilidade nos contratos, discrição na presença do Estado na economia e redução drástica da corrupção são condições necessárias e suficientes para que o País volte a crescer retomando a trajetória positiva de aumento da riqueza que marcou a primeira década do milênio.

Claro que boas instituições são indispensáveis. Mas elas só podem ser vistas como meio para uma finalidade que define a essência daquilo que a sociedade deve esperar da economia: não apenas o aumento da riqueza mas, antes de tudo, a ampliação da complexidade da vida econômica. Não tanto a ampliação na oferta de maçãs, mas, em primeiro lugar, de um conjunto variado de bens e serviços ricos em informação e cujas redes de produção e distribuição apoiam-se em circuitos cada vez mais variados e ao mesmo tempo únicos. Muito mais Apple do que maçãs.

O novo livro de Paulo Gala tem a ambição de oferecer ao leitor, como diz o subtítulo da obra, “uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações”. E no cerne desta nova perspectiva encontra-se a categoria central que dá título a sua obra: Complexidade Econômica. A riqueza das nações não depende fundamentalmente da exploração de suas vantagens comparativas, ou seja, de sua concentração naquilo que conseguem oferecer aos outros pelo menor preço. Ao contrário, as nações que mais ampliaram sua riqueza preenchem simultaneamente duas condições: oferecer bens que os outros não conseguem produzir e que, ao mesmo tempo, sejam o resultado de redes de interação densas, marcadas por conhecimentos cada vez mais sofisticados, ou, em outras palavras, pela capacidade de imprimir imaginação à matéria e, por aí, aumentar as próprias capacidades humanas, que se trate de transportes, comunicação, energia, construção, saúde, educação ou organização urbana.

O instrumento básico para avaliar a situação de diferentes economias ao redor do mundo é o Atlas da Complexidade Econômica. Nele expõe-se a estrutura das exportações de cada nação. O que uma nação exporta é uma boa síntese da forma como consegue incorporar conhecimento e saber prático àquilo que faz. É também uma boa expressão da natureza das redes sociais e dos elementos que interagem em seu interior para formar sua riqueza. Países com pautas exportadoras ricas em ciência, tecnologia e baseadas em empresas que incorporam conhecimento e inteligência a suas práticas produtivas são exportadoras líquidas de imaginação. E é claro que, inversamente, os que dependem fundamentalmente de bens primários (por mais que estes se apoiem em algum nível de ciência e tecnologia) especializam-se em importar imaginação.

É sobre esta base teórica e metodológica que Paulo Gala inova a mais importante contribuição latino-americana ao pensamento econômico contemporâneo: o estruturalismo. O aumento do grau de complexidade econômica das sociedades atuais não decorre e não pode decorrer fundamentalmente de substituir aquilo que se importa por produção local. Muito mais importante que a substituição de importações é a maneira como cada país se insere nas cadeias globais de valor. Aqueles que conseguem, graças à força de sua indústria exportar bens dotados de alto teor de inteligência e informação, estão mais aptos a um crescimento econômico não apenas contínuo, mas são exatamente os que mais conseguiram também reduzir suas desigualdades. Na esmagadora maioria dos casos, a América Latina, sobretudo durante os últimos quinze anos, inseriu-se nas cadeias globais de valor por meio da oferta de bens marcados por baixo teor de conhecimento em seus processos produtivos e por redes produtivas pouco densas.

Por esta razão, enquanto que os países asiáticos de alto desempenho tecnológico conseguiram aumentar sua riqueza e, ao mesmo tempo, ampliar os empregos mais bem pagos, a América Latina cresceu sobre a base não só de produtos primários, mas de construção civil, comércio e shoppings centers. Mesmo que, durante alguns anos, este padrão de crescimento econômico tenha ampliado a formalização do emprego e melhorado a distribuição da renda, a fragilidade de sua base econômica mostra-se hoje não só no desemprego, mas também na acelerada desindustrialização do Continente.

O livro de Paulo Gala é uma contribuição fundamental mostrando o risco de que o crescimento econômico que a sociedade tanto almeja seja apenas a mimetização do atraso que marcou a vida econômica brasileira e latino-americana nos últimos anos.

Paulo Gala. Complexidade econômica: uma nova perspectiva para entender a antiga questão da riqueza das nações. Contraponto. 144 p. R$ 44.

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