Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 27/11/2006.

“Os mercados não são apenas pressionados pela sociedade como dois entes de lógicas distintas, mas se influenciam mutuamente”

As técnicas de empréstimo que consagraram Mohammad Yunus, o fundador do Grammen Bank, com o Prêmio Nobel de 2006, não são particulares ao microcrédito e não se restringem ao trabalho com populações vivendo em situação de pobreza. Nada mais falso que a dicotomia segundo a qual, para os pobres, o crédito apóia-se em grupos solidários, formas localizadas e personalizadas de controle, enquanto que, para os ricos, ele se fundamenta apenas em garantias patrimoniais e contrapartidas. Por esta imagem, o mundo da informalidade, da solidariedade social e do apoio mútuo seria uma espécie de fase inicial da entrada no mercado, cujo ápice culminaria em relações totalmente impessoais. Em mercados imperfeitos e incompletos, os atores teriam necessidade de recorrer a laços personalizados, ao mundo social, para levar adiante sua interação, enquanto que ali onde as trocas se desenvolveram, ao contrário, os mercados responderiam exclusivamente aos sinais anônimos e neutros emitidos pelo sistema de preços.

É contra esta divisão – entre um passado obscuro e tenebroso de inserção da vida econômica no mundo social, em contraposição a um presente (e um futuro almejado) radiante e promissor, em que ela estivesse, enfim, “livre de sociedade” e independente da política, da religião, funcionando mecanicamente a partir do que fazem indivíduos e firmas – que se insurge a sociologia econômica contemporânea. Não é só em populações tradicionais ou na Idade Média que a economia está inteiramente mergulhada, inserida na vida social: é no mundo contemporâneo que nem a economia, nem o mercado, podem ser caracterizados como esferas autônomas da vida social. Mais que isso: osmercados não são apenas pressionados pela sociedade, como dois entes funcionando a partir de lógicas distintas, que, no entanto, se influenciam mutuamente: eles se organizam a partir da própria vida social. É por isso que se pode dizer que o mercado está na sociedade tanto quanto a sociedade está no mercado. É o que procuram mostrar duas pesquisas sociológicas publicadas em prestigiosas revistas científicas, sobre temas tão distintos como o crédito bancário na França e o comportamento dos consumidores nos Estados Unidos.

Michel Ferrary, pesquisador do Ceram, importante escola de negócios do Sul da França, pesquisou os empréstimos que os bancos fazem aos proprietários das famosas brasseries, bares que tanto contribuem para a paisagem parisiense e que foram celebrizados em alguns quadros de Toulouse Lautrec (“Trust and social capital in the regulation of lending activities”. Journal of Socio-Economics 31, 2003, pp. 673-699). Da mesma forma que, entre nós, padarias pertencem com imensa freqüência – ao menos em São Paulo e no Rio de Janeiro – aos descendentes de portugueses, as brasseries parisienses concentram-se entre as mãos de pessoas vindas de uma região da França, o Aveyron.

Michel Ferrary estuda dois métodos pelos quais os bancos obtêm as informações essenciais a partir da qual constroem a confiança que permite decidir sobre o empréstimo. O primeiro volta-se à obtenção de dados objetivos: renda, patrimônio, situação familiar, histórico de crédito do cliente e desempenho do negócio. No segundo método o gerente entra na rede social a que pertence o tomador do crédito e, por este meio, obtém informações preciosas que os dados objetivos jamais poderiam revelar a respeito da honestidade do cliente, de sua reputação, de seus planos e de sua real situação familiar.

A conclusão do trabalho é que os métodos objetivos são largamente insuficientes e que aqueles gerentes capazes de inserir-se no círculo de amizades dos aveyronnais tiveram o melhor desempenho nos seus empréstimos. Longe de um caso curioso, mas excepcional, em que redes sociais se sobrepõem à imagem canônica de um mercado frio e impessoal, Ferrary sugere que está em curso verdadeira mudança nas técnicas de atuação bancária, com o estímulo explícito a que os gerentes invistam em sua inserção no mundo social de seus clientes como forma de obter as informações necessárias à concessão dos empréstimos que devem realizar. Os bancos patrocinam explicitamente a formação deste capital social: até meados dos anos 1990, era comum impedir que um gerente ficasse mais de três anos numa determinada agência. Agora, ao contrário, estima-se que é a partir de três anos de permanência que o gerente forma a rede social que permite ampliar a eficiência de seu trabalho. O atendimento personalizado e o conhecimento minucioso por parte do gerente das necessidades financeiras do cliente e da natureza do negócio que ele vai financiar é bem semelhante ao que faz a figura do agente de desenvolvimento nas organizações de microcrédito, que também utiliza redes sociais como meio básico para ter informações.

Mas não é só quando o crédito está em jogo, que as redes sociais permitem construir a confiança necessária às relações econômicas. Paul diMaggio, da Universidade de Princeton, um dos nomes mais importantes da sociologia econômica norte-americana, e Hugh Louch, também de Princeton, estudaram o General Social Survey de 1996 uma pesquisa nacional sobre a maneira como os consumidores norte-americanos tomam suas decisões de compras (“Socially Embedded Consumer Transactions: For What Kind of Purchases Do People Most Often use Networks”? American Sociological Review, vol 63, no 5, pp. 619-637). A pesquisa mostra que é freqüente a busca de informações junto a amigos e conhecidos para comparar os preços e a qualidade dos bens que se quer adquirir. Mas o que é surpreendente é a imensa importância das trocas no interior de redes (within network exchange) no mercado de consumo norte-americano. Quanto maior o risco da transação para o consumidor, mais ele procura vendedores com relação aos quais possua laços pré-existentes: os vínculos pessoais e até mesmo familiares permitem uma pressão extra-econômica sobre os comportamentos que, em princípio, formam um sistema de sanções e incentivos capaz de reduzir riscos. Por aí, as redes sociais permitem – paradoxalmente mais que o sistema impessoal dos preços – o melhor funcionamento do mercado. Negócios, negócios, amigos à parte, o trabalho de DiMaggio e Louch contesta esta célebre fórmula.

Os dois exemplos chocam-se contra a tendência marcante do pensamento sociológico contemporâneo de sublinhar o caráter, por assim dizer, dessocializador e destrutivo das relações de mercado. Mas desafiam também a sabedoria econômica convencional, que encara a impessoalidade e o automatismo como a condição mesma para o funcionamento do mercado. A conclusão de Paul diMaggio e Hugh Louch é um convite à reflexão: “uma vez que entendamos as condições sob as quais as pessoas se envolvem em relações comerciais com seus amigos, poderemos começar a entender de maneira mais completa como os mercados contribuem para – tanto quanto erodem a – solidariedade social”.

Ricardo Abramovay é Professor Titular do Departamento de Economia da FEA e do Programa de Ciência Ambiental da USP, pesquisador do CNPq –

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