O ano de 2020, utilizado no título de
seu livro, ecoa um conjunto de publicações originárias do meio empresarial mostrando 
a incompatibilidade entre o modo de funcionamento da empresa atual e a urgência de que surja uma vida social orientada pela redução das desigualdades e pela preservação dos serviços ecossistêmicos dos quais dependem as sociedades humanas.

Seu foco é a organização empresarial 
e as possibilidades de que esta se
 transforme para fazer dos mercados um
 meio de promover bem-estar, equidade
 e regeneração, ao menos parcial, do que
 já foi destruído até aqui. Esta abordagem 
é partilhada por trabalhos recentes da PricewaterhouseCoopers sobre mudanças climáticas, pelos da KPMG, calculando
os custos ambientais de funcionamento das companhias e pelos da Deloitte (cuja expressão mais completa é o último livro de John Elkington, Os Zeronautas).

Mas serão as corporações (mesmo que impulsionadas pelas mudanças radicais 
que muitas consultorias globais preconizam em seus objetivos e em seus métodos) as organizações estratégicas da vida econômica das próximas décadas? Serão elas os vetores fundamentais da mutação para uma economia sustentável? Gerald Davis, da Universidade
de Michigan, traz evidências de peso para responder a esta questão pela negativa.

Na verdade, a marca decisiva do capitalismo americano dos dias de hoje é o declínio e não o fortalecimento das corporações. Nos últimos 15 anos, a quantidade de empresas com ações em bolsa nos Estados caiu pela metade. As corporações respondem por parcela cada vez menor da produção material e do emprego. Mais que isso: suas funções históricas de promover coesão social por meio do acesso amplo a serviços de saúde e de aposentadoria deixaram de existir.

A proposta de fazer de cada cidadão o gestor de uma carteira de investimentos que lhe permitisse, por sua própria iniciativa, administrar sua previdência social e sua aposentadoria teve como resultado principal um aumento espantoso da pobreza e, sobretudo, das desigualdades na sociedade americana.

Um novo tipo de organização econômica emerge dos escombros do capitalismo corporativo que marcou a vida de quase todo o século XX, como mostra Gerald Davis em um texto recente. Sua base material e tecnológica está no extraordinário potencial das mídias digitais em democratizar não só o mundo da cultura, mas, de forma crescente, a própria produção material e de energia. “Soluções locais para produzir, distribuir e partilhar podem oferecer alternativas funcionais às corporações tanto para a produção como para o emprego”, diz Davis.

A ideia de que a organização empresarial é capaz de reduzir drasticamente os 
custos de transação e, em virtude disso,
 de que as formas hierarquizadas de gerir recursos materiais, energéticos e bióticos são sistematicamente superiores às descentralizadas encontra-se hoje sob franca contestação. Tecnologias digitais como a impressora em três dimensões e as máquinas de corte a laser levam ao mundo da matéria aquilo que a internet propiciou, nos últimos 20 anos, ao mundo da cultura.

Quando se juntam a essas novas técnicas o movimento em direção à oferta descentralizada de energia, o resultado é o desenho de uma vida econômica bem diferente daquela que marcou a era das corporações.

A grande virtude econômica da sociedade da informação em rede não
 reside tanto no aumento das capacidades produtivas, mas numa dupla contestação daquilo que marca a civilização industrial. Em primeiro lugar, ela abre caminho para que a iniciativa individual e as formas localizadas de produção ganhem eficiência econômica
 e disputem o coração da vida econômica em vários setores. Em segundo lugar, são formas de conceber, produzir e distribuir bens e serviços que se apoiam, cada vez mais, na cooperação social direta, na partilha.

Transformar as corporações em direção aos métodos e aos objetivos apontados nas sugestões recentes de várias consultorias globais é essencial. Mas tudo indica que o desenvolvimento sustentável vai apoiar-se cada vez mais na iniciativa econômica de indivíduos e comunidades locais com base em meios técnicos à disposição de sua criatividade e de seus talentos.

*Ricardo Abramovay é professor titular do Departamento de Economia da FEA e do Instituto de Relações Internacionais da USP, é autor de Muito além da Economia Verde. Twitter: @abramovay

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Comentários

  1. Hugo Penteado
    15 de Fevereiro de 2013 at 16:29

    Abramovai,

    Gostei muito do artigo.

    Tenho enormes dúvidas sobre o movimento de precificação dos serviços naturais, por não estar necessariamente relacionado a uma mudança real de paradigma. Gosto da passagem do Nicholas Georgescu Roegen sobre isso que me fez concluir que a Comissão Stiglitz seria um enorme fiasco quando muitos outros a endeusavam, assim como a também acertada previsão do fracasso dos acordos do clima pode entrar na mesma lógica perfeita apresntada por Roegen. Os economistas e estudiosos, explica Roegen, terão que se conformar que para certos itens da realidade é impossível atribuir valor, porque só possui valor intrínseco. Finalmente, não haverá mudança no sistema de preços se não houver uma mudança geral de valores, que precede as métricas. Mudar a métrica sem mudar nosso conjunto de valores não resultará em nada. O ponto de partida, portanto, continua sendo mudar (ou revogar) o atual paradigma de crescimento perpétuo baseado em consumo desnecessário financiado por dívida facultada por moeda sem lastro emitida pelos bancos centrais.

    Não está havendo mudança de paradigma em lugar algum, antes que nos enganemos mais a respeito disso, os produtos ecológicos de empresas sustentáveis representam apenas 2% do total da sua produção, tais produtos não se pagam, a sua principal linha de vendas é a tradicional, os colaboradores são terceirizados ou não celetizados e muitas matérias primas vem do outro lado do planeta a um custo ambiental local e de emissões incríveis.

    Para ser sustentável um empreendimento ou uma economia precisa ser como a natureza: circular, regenerativo e finito. Sistemas a nossa volta continuam operando na contramão da vida: são lineares (extrai, produz, descarta), degenerativos e submetidos a crescimento infinito. Tudo isso para acumular riquezas nas mãos de quem menos precisa.

    Sobre valor intrínseco, um único serviço da Amazônia, segundo Antonio Donato Nobre, a evaporação de água das folhas das árvores, seria equivalente a 40.000 usinas Itaipus. Fico imaginando a fila de pessoas querendo pagar por esse serviço…

    Pavan Sukhdev conhece Georgescu? Em outras palavras, ele reconhece que a economia não pode ser maior que a Terra e que o planeta não é um subsistema da economia como está impresso nas teorias econômicas tradicionais?

    Abraço

    Hugo

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