Artigo publicado no jornal Gazeta Mercantil – 17/10/00 – p. A 3

A segunda metade do Século XX desfechou dois golpes fulminantes na idéia malthusiana de que o crescimento populacional está na raiz dos problemas alimentares mundiais e que somente políticas voltadas explicitamente a conter a expansão demográfica podem evitar o pior. Em primeiro lugar, ficou demonstrado o equívoco das previsões apocalípticas de que a fúria reprodutiva da espécie humana só seria contida pelo sinal de alarme que o esgotamento dos recursos naturais faria soar. O que mostra, de maneira persuasiva, o livro recente de Michel Husson (Six Milliards sur la Planète – Sommes nous trop ? – Ed. Textuel – Paris) é que os processos pelos quais a população humana tende a estabilizar-se são endógenos: eles não resultam das regulações bárbaras antevistas por Malthus segundo as quais os pobres pereceriam por escassez absoluta de recursos.

A população reduz seu crescimento por escolhas sociais e não pelas imposições implacáveis da mãe-natureza. Os modelos biológicos que explicam o tamanho da população em virtude das fontes de sua sobrevivência e do poder de seus predadores não podem ser aplicados automaticamente à espécie humana: a transição demográfica característica de todas as sociedades não tem paralelo no mundo animal. É só entre os homens que o alongamento da esperança de vida, graças à melhoria das condições de existência, repercute, paradoxalmente, em redução populacional. Assim, embora importantes autores como Paul Ehrlich, Garett Hardin e o casal Meadow ainda sensibilizem o público com o fantasma permanente da explosão populacional, a verdade é que a taxa de crescimento demográfico vem cainda no mundo todo e a um ritmo muito maior que o previsto pelos especialistas no tema. O horizonte mais provável fica muito aquém dos 12,5 bilhões de habitantes projetados ainda em 1992 por Donella e Denis Meadow, em Beyond the Limits (Earthscan Publication, Londres): as Nações Unidas estimam que a população mundial estabiliza-se em 2050 com um total de 9 bilhões de habitantes. O que preocupa, na verdade, é que a esmagadora maioria do aumento demográfico mundial virá dos países mais pobres do Planeta e sobretudo de suas cidades: em 2150, a África ao Sul do Sahara deve passar dos 13% atuais a 26% do total da população mundial. Mas mesmo nos países africanos, as projeções populacionais têm sido sistematicamente revistas para baixo. E isso em função de mudanças nos modos de vida e não em virtude de escassez absoluta de recursos.

O segundo golpe recebido pela visão malthusiana refere-se aos recursos necessários à produção alimentar. Não é necessário ser um especialista no tema para saber que a humanidade produz o suficiente para que todos possam satisfazer suas necessidades nutricionais básicas há ao menos quarenta anos. As três bilhões de pessoas que virão aumentar a população mundial nos próximos 50 anos ameaçam a estabilidade desta situação ? A resposta, em termos globais, é definitivamente negativa. Até meados dos anos 1980, prevalecia o temor de que o aumento no consumo de carnes e leite nos países em desenvolvimento seria insustentável e que o padrão alimentar em vigor nos países ricos não poderia estender-se às populações pobres. O que se constata hoje é que os países em

desenvolvimento passam por mudanças tão decisivas em suas formas de consumo alimentar que um estudo recente do International Food Policy Research Institute (Livestock to 2020 – The Next Food Revolution) não hesita em chamar – com certo exagero – de “revolução pecuária” as transformações que se observam nos últimos 30 anos. A conclusão mais importante do estudo é que a participação crescente de proteínas de origem animal na alimentação dos países em desenvolvimento traz um conjunto de riscos ao meio ambiente e mesmo à saúde pública, mas não deve conduzir à escassez nas fontes da própria alimentação animal. Não haverá explosão dos preços dos cereais e oleaginosas como conseqüência do maior consumo de carnes e leite nos países em desenvolvimento.

O problema alimentar mundial concentra-se hoje nas áreas rurais das regiões mais pobres do Planeta. Vem caindo a população atingida por formas graves de subalimentação, mas as estimativas atuais ainda são próximas a 700 milhões de pessoas. E é exatamente onde o crescimento populacional ainda é alto (India, Bangladesh e África negra) que o problema da fome manifesta-se com maior severidade. Mas aqui a ordem dos fatores afeta decisivamente o produto: uma das mais imediatas conseqüências da elevação da renda dos mais pobres é a redução no número de crianças por mulher.

Ora, se globalmente não existe problema de escassez alimentar, o mesmo não pode ser dito dos países em que se concentra a fome no mundo. Estes países não têm e não terão como importar os alimentos existentes e teoricamente capazes de matar a fome de suas populações. Por esta razão só é parcialmente verdadeiro dizer que o problema alimentar contemporâneo não é de oferta de alimentos. É fundamentalmente na agricultura que será possível gerar a renda necessária à melhoria da situação alimentar das populações rurais gravemente atingidas pela subnutrição hoje. A verdade é que o mundo produz mais do que necessita para a alimentação humana: mas nem sempre se produz ali onde é preciso.

Esta constatação traz uma dupla conseqüência. Em primeiro lugar, o maior desafio da pesquisa agronômica hoje não está mais em elevar a produtividade de maneira geral, mas de fazê-lo exatamente nas regiões do Planeta que estiveram alijadas da Revolução Verde. Alguns chegam a falar da necessidade de uma “revolução duplamente verde” que aumente os rendimentos do solo pela introdução de inovações biológicas que se apoiem no conhecimento dos processos naturais e dos procedimentos dos agricultores que vivem em regiões problemáticas e não pelo uso em larga escala de insumos de origem industrial. Tanto mais que os ecossistemas em que vivem as populações gravemente desnutridas estão entre os mais frágeis. A segunda conseqüência é que os países em que se concentra a maior parte das fronteiras agrícolas do Planeta – como o Brasil – deveriam ser mais prudentes na abertura de novas áreas: correm o risco de sacrificar um patrimônio ambiental precioso para satisfazer uma demanda que nada indica ser explosiva.

Ricardo Abramovay é professor livre-docente do Departamento de Economia da FEA e presidente do Programa de Ciência Ambiental da USP – abramov@usp.br

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