Será possível então que o automóvel, síntese de algumas das mais importantes inovações do século XX, volte a ter um papel fundamental na emergência de cidades sustentáveis e deixe de ser o emblema
da paralisia e do desperdício material e energético a que hoje se vincula?

KPMG e a Roland Berger, duas das mais importantes consultorias globais, mobilizaram suas equipes para ouvir dirigentes da indústria automobilística no mundo todo a respeito desse tema. O resultado é fascinante e mostra uma indústria com um extraordinário potencial de transformação para colocar 
seus produtos a serviço da vida social que, 
ao mesmo tempo, está diante de obstáculos cruciais, que a fazem persistir em formas arcaicas de fazer negócios.

A primeira transformação que já está 
em curso foi batizada pela KPMG de “carro conectado”. As mídias digitais serão decisivas não só no funcionamento da própria máquina, mas, sobretudo, na sua ligação com as cidades, pela possibilidade de indicar onde 
há congestionamentos e quais os melhores horários e trajetos para evitá-los. Na segurança dos veículos e no monitoramento dos próprios motoristas, as tecnologias da informação vão desempenhar papel cada vez mais importante. A eficiência dos motores a combustão interna pode aumentar muito em razão do uso dessas tecnologias. Novos materiais (como fibras de carbono) tornarão os carros mais leves e mais econômicos.

Mas há uma segunda dimensão revolucionária do carro conectado: ela já permite que a economia da partilha ocupe lugar central no uso do automóvel. O estudo da KPMG prevê que em 2026 a partilha será, por exemplo, a opção preferida de um quarto dos brasileiros que usam transporte individual, por meio de sistemas de aluguel baseados em dispositivos móveis, como os que hoje já começam a existir em várias cidades do mundo.

A terceira transformação, mostra a Roland Berger, é que o próprio modelo de negócio das grandes montadoras globais está ultrapassado. Companhias não automobilísticas talvez estejam mais aptas a levar adiante projetos inovadores neste setor. Empresas automobilísticas são mais rígidas e hierarquizadas e mudam com maior dificuldade que as de tecnologia da informação. O atual modelo do negócio automobilístico continua norteado pela oferta: o traço fundamental deste push model consiste em investir cada vez mais em novas fábricas, na expectativa de vender mais e mais carros.

O problema é que, segundo os 
dois estudos, o horizonte de ampliação permanente na produção e venda de automóveis individuais choca-se contra um mercado em estado de saturação. Segundo
a Roland Berger, o mundo tem capacidade para produzir 90 milhões de veículos e a demanda é de apenas 69 milhões. Os dados da KPMG são basicamente os mesmos. Ao mesmo tempo, os dois estudos revelam que, no mundo todo, o carro deixa de ser a grande aspiração de consumo das jovens gerações. E, no entanto, os investimentos para 
ampliar a oferta, sobretudo nos países em desenvolvimento, não cessam de expandir.

Não se trata de preconizar uma sociedade sem carros. Trata-se, sim, de constatar
 que os avanços recentes na conectividade
e na eficiência material e energética dos automóveis só ganharão sentido se estiverem a serviço de cidades organizadas em função das pessoas. E, para isso, a indústria precisa aprender a oferecer serviços de mobilidade, e não cada vez mais carros.

RICARDO ABRAMOVAY É PROFESSOR TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ECONOMIA DA FEA E DO IRI/USP E AUTOR DE MUITO ALÉM DA ECONOMIA VERDE. TWITTER: @ABRAMOVAY

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Comentários

  1. Eduardo Abramovay
    13 de Maio de 2013 at 13:17

    O país com maior número de habitantes por automóveis é Mônaco. Quase 1 para 1. Depois EUA, um pouco abaixo. O 30º lugar é Portugal, com 1 carro para cada 2 habitantes. . O Brasil está em 57º lugar, com 1 carro a cada 5 habitantes. A Venezuela p. ex, tem um carro p cada 10 habitantes. O Egito, 1 para cada 25. África, Ásia, países pobres, 1 carro para cada 500. É nisso que a indústria aposta. A China está absorvendo mais de 20 milhões de carros/ano. É o principal mercado das marcar Premium -Ferrari, Bentley, etc. A indústria automobilística tem mostrado uma capacidade de reação e de adaptação formidável. A indústria automobilística americana está praticamente recuperada. Empresas problemáticas como a Chrysler, cujo casamento com a Mercedes deu errado, vem achando saída. Um dos maiores processos de fusão e absorção de empresas é o verificado no mercado automobilístico nos últimos 40 anos. Na Europa hoje em dia existe o grupo FIAT (que absorveu a Chrysler) e as três grandes alemãs. O eixo de produção se deslocou para China/Coréia. E vão a reboque do clamor da sociedade por carros mais limpos e seguros. Já existe tecnologia para acabar com os acidentes de automóvel. Bastará os GPSs se comunicarem. Enquanto o mundo for este, globalizado e individualizado, o automóvel tem seu lugar garantido. Estou errado?

    • Renata Seabra
      14 de Maio de 2013 at 22:15

      Caro Eduardo,
      Seu comentário remete a política americana dos anos 50, na qual foi criado o conceito de que a felicidade está diretamente relacionada ao que se pode consumir. Então, para se ter a felicidade, é preciso ter o mais novo modelo de automóvel disponível, ou ainda, sem um carro, não é possível ser feliz… E esta analogia pode ser feita para uma série de produtos disponíveis e ainda a serem criados pela corporações e muito eficientemente difundidos em campanhas vitoriosas de marketing veiculadas nas mais diversas mídias. O carro ainda é o sonho de consumo de muitas pessoas, talvez até por falta de opção de meios de transportes mais adequados, talvez pela falsa sensação de independência e poder que o mesmo possa trazer como acessório opcional. Seja como for, entendo que o destino do “carrocentrismo” esteja diretamente relacionada ás idiossincrasias individuais – a mudança partirá sempre do indivíduo. Então, o “individualizado” citado por você em seu último parágrafo passará a ser o agente de mudança na sociedade globalizada. Não vejo outra saída. Respondendo, sua questão: Está certo. Por enquanto.

  2. Homero
    14 de Maio de 2013 at 15:29

    Não existe futuro para “montadoras” de automóveis. Não há mais sentido em imobilizar um montante significativo de dinheiro para ser proprietário de UM carro. E, quase sempre, este carro não atende as necessidades de seu (in)feliz proprietário. Tem dias em que precisamos de um carro pequeno e econômico para deslocamentos em centros urbanos. Tem dias em que precisamos de carros grandes e espaçosos para levar toda a família e bagagens. Tem dias em que precisamos de uma camionete off-road. E tem dias que não precisamos de carro algum, mas temos que arcar com as despesas da posse e da garagem ou estacionamento para deixá-lo parado. E ainda temos que dispender recursos e TEMPO com manutenção, abastecimento, taxas e impostos (nem vamos entrar em questões que aborrecem e nos tiram TEMPO como combustíveis adulterados, oficinas desonestas, acidentes, furtos, etc.) O futuro será de prestadores de serviços de transporte personalizados, atendendo as necessidades de forma personalizada do usuário em cada momento. E o usuário pagando pelo o que usa.

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