Artigo publicado no jornal Gazeta Mercantil – p. A3 – 28/06/01.

A participação da agricultura na formação da riqueza e na ocupação humana tende a ser cada vez menor nas sociedades contemporâneas. Até o início dos anos 1970, era muito freqüente que o declínio da mão-de-obra trabalhando no setor fosse encarado como sólido sinal de progresso tanto nos países desenvolvidos como nas nações em desenvolvimento. Afinal, com altos e baixos, durante os trinta gloriosos anos posteriores ao fim da IIa Guerra Mundial, outras atividades econômicas – a começar pela indústria, mas também os serviços e a construção – absorviam este imenso contingente que deixava a agricultura. É compreensível então que parte tão significativa dos responsáveis políticos, dos cientistas sociais e da opinião pública encarasse o declínio da vida social no campo como inerente aos processos de crescimento econômico.

Desde então o panorama mudou. Durante os anos 1980, agricultores considerados até então ineficiente e inviáveis tornaram-se objeto privilegiado de políticas públicas, primeiramente na Europa e, a seguir, nos Estados Unidos. Pluriativos, diversificados em suas orientações produtivas, eles passaram a desempenhar um papel mais importante e mais valorizado que o da oferta de gêneros agropecuários: eles eram a força viva capaz de evitar a desertificação do meio rural. O tamanho relativamente pequeno de suas unidades produtivas e a dedicação a atividades variadas – fatores que pareciam condená-los irreversivelmente ao fracasso – converteram-se em trunfos. Menos dependentes dos subsídios agrícolas que as grandes explorações especializadas em cereais e carnes, os agricultores pluriativos oferecem às sociedades contemporâneas muito mais que produtos agrícolas: eles representam a possibilidade de valorizar o espaço rural, de fazer da manutenção da paisagem, da biodiversidade, dos monumentos culturais e da oferta de bens alimentares de qualidade uma nova fonte de geração de renda ali mesmo onde, alguns anos antes, tinham seus dias contados pela suposta inelutabilidade da concentração econômica trazida pela concorrência.

O pequeno município de Constantina na região de predomínio da agricultura familiar no Alto Uruguai, Rio Grande do Sul, oferece um interessante desmentido ao poder absoluto das leis e tendências objetivas dos processos concorrenciais. No final dos anos 1980, a grande cooperativa regional, para a qual cerca de 150 produtores entregavam seu leite decide recolher a produção apenas daqueles que estivessem acima de um patamar de 50 litros diários. Quem não chegasse a este ponto deveria procurar outra atividade. Em vez de resignar-se ao que parecia ser uma lei econômica incontestável, um grupo de agricultores, formados culturalmente e eticamente a partir do trabalho desenvolvido por Comunidades Eclesiais de Base nos anos 1970, organiza uma outra cooperativa que, passa a recolher a produção local, impedindo que os agricultores abandonassem a

pecuária leiteira. Mais próxima dos pequenos pecuaristas do município, a nova cooperativa (Coopac) inicia um trabalho de fomento e estimula a entrada de outros produtores na produção leiteira. Ao mesmo tempo, a nova cooperativa – exatamente pela ligação que seus fundadores tinham com as comunidades do interior do município e pelo desejo de fazer da atividade econômica uma forma de geração e distribuição de renda – leva adiante um trabalho de melhoramento de pastagens e de aprimoramento genético do rebanho. A cooperativa recebia um forte apoio do sindicato de trabalhadores rurais que colocou à disposição deste projeto sua estrutura e, especialmente, um técnico agrícola.

De 150 produtores em 1993, os produtores de leite do município saltaram, hoje, para nada menos de 600. De 1500 litros diários, a cooperativa passou a recolher 35 mil litros. O preço ao produtor aumentou, já que os grandes grupos privados e as cooperativas tradicionais da região encontraram um concorrente voltado explicitamente a elevar a renda do produtor. O município como um todo dinamizou-se com base nos recursos da nova cooperativa: os agricultores formaram, há pouco tempo, uma cooperativa de crédito – pertencente ao sistema Cresol (Crédito Solidário) – cuja existência permitiu a ampliação do acesso a financiamentos que os bancos relutavam em conceder, no âmbito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Desde 1997, Constantina é o município do Rio Grande do Sul com maior uso de créditos do PRONAF que chega a 98% dos agricultores. Isso tornou-se possível pelo fato de existirem no município 135 pequenos grupos de agricultores que oferecem ao agente financeiro aval solidário na concessão dos empréstimos.

Antes desta intensificação da pecuária leiteira, o município voltava-se fundamentalmente à soja nas unidades familiares de produção cujas áreas eram exíguas para os padrões dominantes nesta cultura. Aí também tudo parecia levar à eliminação social destes agricultores. Só que fazia parte da formação política e ética recebida pelas lideranças que criaram a cooperativa a crítica aos padrões técnicos que regeram o crescimento agrícola brasileiro recente. Passaram então a estimular novos métodos produtivos que fizeram de Constantina um verdadeiro pólo da produção orgânica de soja. Hoje 150 produtores têm o reconhecimento internacional que lhes permite exportar o produto pelo dobro do preço habitualmente praticado, o que viabilizou pequenas áreas que as leis de ferro da concorrência condenavam à retração. A nova cooperativa conseguiu ainda recursos de microcrédito do BNDES para financiar grupos voltados à costura de calçados: 2 grupos estão no interior e 4 na pequena cidade deste município rural, ocupando ao todo quase 80 pessoas.

Explicar as razões específicas de processos localizados de desenvolvimento é um dos mais férteis temas da economia e da sociologia contemporâneas. Ninguém sabe, ao certo, por quais fatores se forma a atmosfera que mistura espírito empreendedor, valorização do trabalho e do conhecimento, busca de inovação, cooperação e troca de informações e que resulta em notáveis dinâmicas locais. Mas uma coisa é certa: a explicação não se encontra em mecanismos automáticos e em leis sociais tratadas como fatalidades. É no estudo da subjetividade humana, das crenças dos atores sociais e das instituições que está o caminho mais promissor para explicar a energia que se propaga por um certo organismo social. Este é um dos meios pelos quais – aproximando-se as outras ciências do homem eda sociedade – a economia não se condena à condição conformista e cinzenta a que se tenta, com tanta freqüência, reduzí-la.

Ricardo Abramovay é professor Titular do Departamento de Economia da FEA e presidente do Programa de Ciência Ambiental da USP – abramov@usp.br

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