Publicado em: http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/estante/muito-alem-economia-verde-ricardo-abramovay-roberto-smeraldi-693237.shtml

A ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, é figura marcante no processo de criação do livro de Ricardo Abramovay. Leu os originais e participou de um dos encontros organizados pela Fundação Avina* – que encomendou a publicação –para debater as ideias ousadas que o titulo da obra resume. Ela assina o prefácio, no qual revela seu encantamento pelas questões levantadas pelo especialista, dando início a este texto também com uma boa pergunta. Eis seu belo artigo, na íntegra:

“O que há para além da economia verde? A pergunta parece-me uma boa forma de iniciar o prefácio deste excelente trabalho do Ricardo Abramovay. E por quê? Mais uma pergunta. Sim, elas são essenciais e estão por toda a obra, lançadas pelo autor de forma despretensiosa, mas ousada. Aliás, a despretensão é em si mesma uma de nossas maiores ousadias. Algumas delas:

“Mas uma nova economia para quê? Que tipo de vida queremos levar? Qual o significado e o sentido da vida econômica? Pobreza de quê? Quanto é o suficiente? A desigualdade importa? Mais vale sempre mais? Se o crescimento econômico não é o caminho para maior felicidade, então qual é esse caminho?”

De pergunta em pergunta, o autor vai tecendo ideias e sua compreensão das relações econômicas e sociais. Vai apresentando conceitos complexos de forma didática e, principalmente, vai respondendo a cada um dos questionamentos de forma objetiva e consistente.

O pensamento vai sendo construído seixo a seixo – cada um assentado sobre uma boa e grossa argamassa de dados, informações e exemplos –, como é típico das sólidas e sofisticadas construções feitas com pedras não lavradas, onde cada encaixe exige muito mais que a quantidade mínima de cimento dos rejuntes padronizados.

Uma pergunta, em particular, chamou-me (mais) a atenção: é possível um capitalismo capaz de levar o mundo em conta? Primeiro, o autor mostra por que o capitalismo, do jeito como ele funciona hoje, não leva o mundo em conta. Para isso, vai buscar em Friedrich von Hayek, prêmio Nobel de Economia, as bases conceituais da economia de mercado, em que as decisões individuais – tendo os preços como principal parâmetro de escolha – garantiriam a melhor alocação dos recursos na economia como um todo. Abramovay sintetiza o pensamento de Hayek da seguinte forma: “O que promove a coordenação, a cooperação humana não são as ações diretamente voltadas a esse fim. É um sistema que ninguém controla e que transmite a todos as informações necessárias a que tomem decisões: o mercado, por meio dos preços”.

E assim segue mostrando de forma didática que os mercados são estruturas sociais que podem e precisam fazer isso urgentemente, incorporar valores ambientais e éticos. E em contraposição às decisões individuais como elemento de organização dos mercados não está o planejamento, mas sim a cooperação proporcionada por novas estruturas comunicacionais. E aí está, no meu entendimento, com toda a licenciosidade poética, a velha e atualíssima dúvida shakespeariana plasmando as importantes questões levantadas no livro: indivíduo e coletivo, eis a inseparável equação. Como não aprofundar o fosso que separa a motivação produtiva, criativa e livre dos indivíduos com a necessária mediação entre interesse individual e coletivo, sem o que não há como existir sustentação para o fazer humano.

São processos ainda incipientes, observa o autor, mas não são, de forma alguma, irrelevantes. Por isso mesmo ele estimula seu leitor com um extenso rol de iniciativas inovadoras, que passa por softwares livres, formas alternativas de remuneração da autoria intelectual ou produção cultural, negócios criativos no mundo da moda, geração distribuída de energia, sistemas de locação de veículos que rompem com a ideia de propriedade individual de bens, entre outros exemplos.

É a sociedade assumindo espaços de governança em um novo metabolismo social, como é definido no livro. Os instrumentos estão sendo criados, como sistemas de rastreamento e certificação. Um exemplo importante de que o mercado, cada vez mais, considera, além do sistema de preços, outros valores. Um exemplo apresentado no livro com a descrição do acordo firmado entre organizações socioambientais e produtores de soja para redução do desmatamento em 2006. Nesse caso, o constrangimento ético provocado pela divulgação em tempo real das informações sobre o desmatamento pelo poder público foi uma motivação importante para que o acordo ocorresse. Ou seja, sua livre circulação pode induzir processos fundamentais à economia que se configura, baseados em valores éticos.

E, para não fugir das perguntas incômodas, há espaço hoje no mundo para valores éticos? Sim, quando a humanidade coloca-se diante de seu maior desafio, aquele que pode inviabilizar sua manutenção como espécie: os limites estabelecidos pela capacidade de regeneração dos ecossistemas. Como o autor expõe logo nas primeiras linhas da apresentação, nossa forma insustentável de ser e de fazer já destruiu ou colocou sob forte ameaça 16 dos 24 serviços fundamentais que os ecossistemas prestam para a manutenção de nossas atividades econômicas e da própria vida.

Temos dificuldade em lidar com a noção de limite, pois ela nos coloca escolhas difíceis. Por isso, se pretendemos manter nossos propósitos éticos de ampliação constante das liberdades individuais substantivas, como propõe outro prêmio Nobel de Economia citado por Abramovay, Amartya Sen, precisamos de uma outra economia.

E como seria essa economia? Como o autor faz das respostas o principal combustível para que o leitor possa, a partir delas, levantar as próprias perguntas, cito mais um trecho: “Aumentar a eficiência e reduzir a desigualdade no uso dos recursos: esses são os objetivos estratégicos de uma nova economia que tenha a ética no centro da tomada de decisões e que se apoie em um metabolismo social capaz de garantir a reprodução saudável das sociedades humanas”.

Essa citação contém uma mensagem que ressalta: a redução das desigualdades é mais que um desejo, é um caminho necessário. E o autor ajuda a escolher essa via ao apresentar cuidadosamente extensos dados que demonstram uma imensa desigualdade no uso dos recursos naturais – como a energia, inclusive dos combustíveis fósseis, além de minérios – e outros materiais extraídos da terra.

E para enfrentar esse duplo desafio, o de reduzir as emissões de carbono e o de reduzir as desigualdades, os ganhos de eficiência nos processos produtivos são fundamentais, mas também insuficientes. Precisamos nos reinventar e nos reconectar uns com os outros e com a natureza. Uma relação que redefina felicidade e coloque o bem-estar coletivo em primeiro lugar.

Uma nova economia precisa de uma outra cultura, que passa por uma espécie de descontinuidade dos valores herdados da sociedade de superconsumo e “que não leva o mundo em conta” para o consumo justo e sustentável que, amparado pela visão de mundo que entende a sustentabilidade como um modo de ser, um ideal de vida aqui e no futuro, possa oferecer condições para uma relação mais saudável com o tempo, maior proximidade com a natureza, a superação do medo de relacionar-se com ela e até o reencantamento com as pessoas e consigo mesmo.

Para que estejamos dispostos a essas mudanças, é preciso compreender o sentido daquilo que nos move. O trabalho do Ricardo Abramovay nos ajuda nessa compreensão, e essa é a força propulsora que sustenta sua relevante contribuição.

Marina Silva

*Fundação Avina / Foto: Lailson Santos

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