Abramovay debate consumo e papel das empresas e do setor público rumo à novíssima economia, no RJ

Por Carolina Bergier e Karina Miotto, com edição de Mônica Nunes

Na foto, Sean McKaughan, Carlos Minc, Ricardo Abramovay, Matthew Shirts e Sérgio Abarnches

Falar em diminuição do consumo em um país em que a classe C está em plena ascendência – com uma vontade de comprar nunca antes saciada – é um desafio. Uma das soluções possíveis é coordenar ações entre o poder público, as empresas e o consumidor. Para isso, se faz necessário entender que qualidade de vida não decorre necessariamente do aumento da rendae do acesso a bens de consumo e que escassez dos recursos naturais e desigualdades sociais precisam estar refletidas nas decisões da economia e da política mundial.

Paralelamente, a conscientização e a mobilização da sociedade civil têm papel importantíssimo na transição “de uma economia de muitos tons de cinza para uma economia que vá além do verde”, termo calcado por Carlos Minc, secretário estadual do ambiente do Rio de Janeiro, durante o lançamento carioca do primeiro livro com o selo Planeta Sustentável, “Muito Além da Economia Verde”, de autoria do sociólogo Ricardo Abramovay (O livro foi lançado em junho, em SP, depois durante a Rio+20. Em seguida, foram realizados encontros especiais, sempre precedidos por bate-papo entre Abramovay e especialistas, em São Paulo RecifeEste foi o terceiro da programação).

Além de Minc e  Abramovay, o debate realizado na noite da última segunda-feira, 17/09, na Livraria Cultura do Shopping Fashion Mall, teve a presença de Sean McKaughan, diretor executivo da Fundação Avina – idealizadora do estudo solicitado à Abramovay que resultou no livro –, e Sérgio Abranches,  jornalista e analista político. O encontro, que teve mediação de Matthew Shirts, redator-chefe da revista National Geographic Brasil e coordenador do Planeta Sustentável, focou em temas como consumo e o papel das empresas e do setor público no caminho para uma economia mais justa, que preserve o ambiente, muito além da economia verde.

McKaughan, da Avina contou que, quando a Fundação Avina procurou por Abramovay em 2010, tinha como o objetivo a realização de um estudo para instrumentalizar as empresas “que já estão vivendo uma nova economia, mas ainda sem conceitos claros de como se posicionar para criar uma forma de negócio compatível com a floresta em pé, gerando soluções sociais”. (Leia o post que conta essa história). A pesquisa do sociólogo foi tão longe e ficou tão rica, abarcando tantos temas, que tomou a forma de livro, lançado primeiro para convidados, na sede da Editora Abril, no dia do meio ambiente.

Tem chamado a atenção de Sean o interesse que a publicação assinada por Abramovay desperta no mundo empresarial. “É necessário entender novas formas de negócios por onde caminharmos”. No entanto, destaca a importância da mobilização da sociedade civil e considera que, para a mudança radical que se faz urgente, não basta o estímulo de políticas públicas, nem a movimentação solitária do setor privado. “O consumidor também tem papel muito importante nesse processo, com mecanismos como consumo e voto. A política e as empresas vão responder a isso”, afirmou.

De fato, o setor privado já percebeu que suas decisões precisam responder a questionamentos de cunho socioambiental. O autor de “Muito Além da Economia Verde” acredita que “apesar do greenwashing generalizado e da propaganda enganosa, os riscos empresariais estão passando pelas questões socioambientais e o simples fato de as empresas estarem conscientes disso me parece um bom sinal dos tempos”. Abramovay falou sobre a indústria automobilística para exemplificar os desafios que o setor privado tem pela frente: “Em vez de produzir mais automóveis, esse setor precisa investir em mobilidade”. Repensar valores, estratégias e missões empresariais faz parte da tomada de consciência dessa indústria, mas “a questão da ética não envolve boa vontade”, salientou o autor.

Para o sociólogo, a questão central nessa transição é esta: “Será que os movimentos sociais devem se concentrar em ações voltadas a políticas governamentais ou – considerando que os recursos naturais usados pelas empresas pertencem à espécie humana – a sociedade civil tem o dever de interferir cada vez mais na maneira como se organizam os negócios e os investimentos?”. Nesse contexto, Minc destacou que “Muito Além da Economia Verde” revela “que a complexidade do tema é muito grande e abre uma grande quantidade de leques, mostrando que economia verde não é só para economista”. E finalizou: “Estamos numa economia cinza, quem dirá verde?”.

Abranches trouxe para o debate a necessidade de repensar mundialmente os partidos políticos. “Não há como refazer a politica por dentro dos partidos. Todas as pesquisas feitas em democracias mostram insatisfação generalizada com seu tipo de representação, porque os partidos se assenhorearam da política e passaram a defender interesses organizados e estreitos, deixando boa parte da sociedade de fora, o que impacta diretamente na crise ambiental climática”. Nesse momento, Matthew comentou que o sistema político está muito lento para responder à crise ambiental. Abranches alegou, então, estar convencido de que a forma de rearticular politicamente os interesses da maioria é por meio de redes sociais e novas tecnologias de informação. “Só assim vamos atingir uma sociedade sustentável e igualitária”.

Abranches revelou ter sido motivado pelo livro a se questionar mais profundamente o papel da internet. “Ela serve para o bem e para o mal. Para fazer compras com mais facilidade, mas também para mapear o trabalho escravo, por exemplo. A rede se tornou incontrolável, o que cria um aprendizado de autocontrole na sociedade”. Abranches ainda comparou a rede à Ágora grega – expressão máxima da esfera pública. “Pela primeira vez, pudemos reconstruir a Ágora, e os Estados estão tentando controlar a rede, mas não estão conseguindo e nem vão conseguir”. Para ele, essa é a única e verdadeira utopia da liberdade humana, que prescinde do controle de algum tipo de instrumento, “porque a sociedade é suficientemente capaz de se autocontrolar”. E completou, dizendo que a participação social que demanda a presença física das pessoas acaba por enrijecer o processo de representação nas sociedades modernas, “levando à formação de estruturas que não têm como não se burocratizar”.

Questionando a qualidade de vida que o sistema econômico atual pode oferecer à sociedade, Abramovay defendeu que uma parte significativa de bens que causam grande impacto ambiental não é capaz de gerar felicidade nas pessoas. “O primeiro passo, neste momento, é a redução das desigualdades, no plural mesmo”, destacou. “Aposto que os jovens se sentem muito mais felizes ao se planejar sem carro. Não dá mais para imaginar que toda família do mundo terá dois automóveis. Em 2002, em São Paulo, metade de tudo o que foi construído foi para estacionar carros”. O sociólogo acredita que o processo de emergência da classe C tem se apoiado em soluções e modos de consumo individuais, mais do que coletivos. “Não há oferta de bens públicos de qualidade no Brasil: saúde, transporte, saneamento, educação”, ou seja, por mais “herói” que seja o cidadão que constrói sua casa sem qualquer tipo de financiamento (como 80% de tudo que foi erguido no Brasil até hoje), ele não supre sua família com educação, saneamento, segurança… “Que qualidade de vida é essa que decorre do acesso a bens de consumo? Ela é real?”, provocou Abramovay.

Para satisfazer a demanda de produção e consumo, os recursos naturais já não estão tão disponíveis assim. “Em um mundo com dois bilhões de habitantes, certos hábitos de consumo seriam viáveis, mas com 7 bilhões, não são”, alertou o autor de “Muito Além da Economia Verde”. Abranches defendeu que precisamos de uma nova sociedade, de uma nova economia e uma nova politica para que a vida no planeta seja de fato possível. “ Isso é urgente não mais pra nós, mas para as próximas gerações”, acredita o jornalista.

Os questionamentos feitos durante o debate e por Abramovay, em seu livro, são aplicáveis a todos os níveis de tomada de decisão: político, empresarial e individual. Afinal, quanto é suficiente? Mais vale sempre mais? Ainda dá tempo de fazer menos? Se crescimento econômico não é o caminho para a felicidade, qual o caminho?

Foto: Isabela  Baptista

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