O bate-papo – que contou com mediação de Matthew Shirts, coordenador do Planeta Sustentável e redator-chefe da revista National Geographic Brasil – faz parte da programação para o lançamento do livro Muito Além da Economia Verde, escrito por Abramovay, em algumas capitais (na foto, da esquerda para a direita, Abramovay, Shirts, Saboya e Rache).

O primeiro a falar foi Abramovay. Ele contou sobre o processo de elaboração do livro – o primeiro com o selo do Planeta Sustentável – que teve origem no convite feito pela Fundação Avina. “O resultado desse trabalho é reflexo de várias conversas, conceitos e opiniões. Queríamos uma releitura de tudo o que já foi discutido até hoje sobre economia verde. Um olhar além da agenda que pensasse os desafios frente às novas tecnologias e estamos contentes de ver o projeto se transformar em algo maior que vem contribuindo para avanços importantes”, ressaltou.

Matthew Shirts deu início ao bate-papo com uma provocação direcionada ao presidente do Porto Digital: “A informática é mais problema ou mais solução?”. Mestre em Engenharia de Produção, Saboya declarou que sustentabilidade integra a pauta de prioridades do grupo empresarial que dirige já que o rótulo de indústria limpa, do qual a informática vinha se beneficiando até pouco tempo, deixou de ser realidade. “O componente ambiental não está mais distante do discurso de ampliação de plataformas e desenvolvimento da tecnologia da informação. O uso de recursos naturais ocorre de maneira demasiada a exemplo do consumo de energia, que é de 1% em todo o país, e de matérias primas como o Óxido de Índio-estanho, utilizado na produção de diversos equipamentos do setor. Sem contar o absurdo descarte proveniente do setor que equivale a 80 milhões de toneladas ao ano”, elencou. Para ele, o desafio agora é pensar as práticas e os usos atuais e elaborar formas de reaproveitamento e renovação.

Saboya levantou questão que embasou outro questionamento de Shirts. Exatamente no momento em que o mundo começa a incorporar uma nova classe média, os ambientalistas dizem que não vai dar mais. Isso parece injusto. Oscar Rache acredita que a questão está relacionada com o sistema econômico vigente. “O sistema no qual estamos inseridos é incapaz de acabar com as desigualdades sociais e algumas interferências são necessárias. Antes nós falávamos de um consumo consciente e agora o importante é saber como implementar uma produção consciente. Como fazer isso acontecer?”, indagou. Para ele, é papel da sociedade cutucar o setor empresarial e exigir mudanças.  “Os meios de produção precisam ser pressionados. A inovação tem papel fundamental nesse processo e a educação é o caminho”, defendeu.

Abramovay enriqueceu a discussão ao fazer a correlação entre a explosão demográfica e a extrapolação dos recursos naturais, observando que o crescimento populacional tem relação direta com as bandeiras levantas pela causa feminista. “Mais de 50 milhões de mulheres no mundo gostariam de usar métodos contraceptivos e não têm acesso. Anualmente, nascem 70 milhões de crianças. O problema se refere ao direito da mulher de decidir sobre o próprio corpo, sobre quando e quantos filhos ela quer ter”, pontuou. Segundo ele, se fosse possível um mundo com oito milhões de habitantes, seria muito mais fácil equacionar os recursos do que em um mundo com dois milhões a mais. No entanto, algumas estimativas mostram que a população pode chegar até 15 milhões.

Com base no seu livro, Abramovay alegou que, entre as pressões necessárias para frear o esgotamento do ecossistema mundial, está a eliminação do que ele denomina de “preços mentirosos”. “O sistema econômico não incorpora o que oferece para a sociedade, ou seja, os custos referentes ao uso e a destruição dos ecossistemas nos quais ele se apoia”. De acordo com o sociólogo que embasou sua fala em dados divulgados pela consultoria KPMG, se as empresas tivessem que pagar pela emissão de gases poluentes, por exemplo, cada dólar do lucro da economia mundial seria reduzido em 41 centavos. “Precisamos sair desse regime de preços mentirosos, mas isso remete a quem vai querer pendurar o sino no pescoço do gato?”. Para ele, só existe uma fórmula: protagonismo. Além de medidas de regulação governamentais, Abramovay chama a atenção para a intervenção da sociedade sob as atividades empresariais.

Para Chico Saboya, para o bem e para o mal, a informática tem feito a sua parte. Ele acredita que as implantações de uma nova ética de produção e de uma nova estética de inovação são fundamentais para conquistar resultados mais palpáveis. “A ética da produção nos leva a resignificar a funcionalidade das coisas e o uso de novos materiais. “O componente da estética da inovação reside na engenharia que pressupõe fazermos coisas novas de formas diferentes, pensando no reaproveitamento, no reuso, na reciclagem, no reparo e na manutenção”, pontuou. Para ele, a Apple é emblemática em dois sentidos. “Ao mesmo tempo em que a empresa resignificou a indústria e democratizou o acesso a bens e serviços, do ponto de vista ambiental ela é absolutamente perniciosa. Os aparatos da Apple não podem ser reutilizados. Ela vem desenvolvendo componentes cujas matérias primas não podem ser reaproveitadas fora de seus equipamentos”. Saboya fez coro com Abramovay ao afirmar que a pressão feita pela sociedade pode alavancar revoluções. “Os softwares estão cada vez mais presentes na vida das pessoas, nas redes sociais permitindo mobilização e troca de informação em tempo real. São mecanismos de pressão e posicionamento”.

Em sua visão empresarial, Rache afirmou que pensar em uma ética de produção que gere bem estar é um desafio que aflige o empresariado e voltou a relegar, às desigualdades sociais, a responsabilidade pelo colapso ambiental pelo qual o mundo vem passando. “Isso acontece nos EUA. O Canadá consume 25 toneladas per capita/ano enquanto a Índia consome duas toneladas per capital/ano. Como a gente vai convencer quem consome 25 toneladas a consumir 12, como na Europa? E como fazer com que quem consome duas toneladas passe a consumir seis ou dez e não seja chamado de poluidor? Essa é a maior dificuldade”, concluiu.

Abramovay encerrou o encontro chamando a atenção para o panorama que traz à tona a real situação mundial no tocante ao aumento do consumo humano: de 1992 a 2012 – os vinte anos que separam a ECO 92 da Rio+ 20 –, cada dólar produzido na economia mundial foi produzido consumindo 1% menos de recurso quando considerados combustíveis fósseis e minérios vegetais. “Cada dólar lançado na economia emitiu 23% a menos de gases de efeito estufa em 2012 do que em 1992. Mas tem um detalhe: o aumento da produção e do consumo aumentou e contrabalançou os ganhos obtidos pelo progresso técnico”. Em suma, o pesquisador defende que os sistemas produtivos precisam ser reorganizados para intensificar e dirigir a inovação para zero poluição, zero lixo e zero emissão. “Precisamos introduzir a ética no interior da tomada das decisões econômicas e, para isso, é fundamental a participação da sociedade civil no processo de decisão do uso de recursos por parte do setor privado”. O autor de Muito Além da Economia Verde ainda deixou uma provocação no ar: “Quanto é suficiente?”.

Foto: Viviane Enomoto

Compartilhar com amigos
  • gplus
  • pinterest

Postar um comentário