O que fica cada vez mais evidente, a partir do início da atual década é que este argumento vai deixando de ser verdadeiro. O avanço recente nas energias renováveis modernas (solar, eólica, biomassa e geotérmica) está superando as mais otimistas expectativas. E parte decisiva deste avanço ocorre acoplada à própria revolução digital, dando lugar a um processo inédito e altamente promissor de descentralização na maneira como, desde o início do século XX, a energia foi gerida.

Mas como é possível depositar tanta esperança em fontes que até aqui são consideradas caras, intermitentes e respondem por não mais que 3% da matriz energética global? Não será mais prudente garantir energia por meios convencionais (fósseis e grandes hidrelétricas) para só então poder dar-se ao luxo de incorporar, aos poucos, solar, eólica e biomassa?

O começo da resposta está na noção matemática de crescimento exponencial, como mostra um dos mais importantes inventores norte-americanos, Ray Kurzweil. Nos últimos vinte anos, o total da oferta de energia solar no mundo está dobrando a cada dois anos. Se dobrar mais oito vezes ao longo dos próximos 16 anos isso significa que 100% da oferta de energia do Planeta poderá ser solar. David Crane e Robert Kennedy Jr. mostram que os preços dos painéis solares caíram 80% entre 2008 e 2012. Como resultado disso, o preço do quilowatt gerado por painéis solares que era de cinco dólares em 2008, deve cair a US$ 0,50 em 2020. Já são vinte os Estados norte-americanos em que a energia solar compete com vantagem com fontes convencionais. Entre 2009 e 2013 a produção de energia elétrica por painéis solares nos EUA aumentou nada menos que 63,2% ao ano. A quantidade de energia gerada por painéis fotovoltaicos nos EUA em 2013 foi nada menos que quinze vezes maior que a gerada em 2008. Esta mesma tendência pode ser observada com a energia eólica, a fonte de geração de eletricidade que mais cresce no mundo. As turbinas dos geradores a vento são hoje mil vezes mais eficientes que em 1990. Em 2013 a oferta de energia eólica aumentou 33% relativamente ao ano anterior e vem dobrando, desde 1998, a cada dois anos. O resultado é que mesmo num país tão rico em carvão como a África do Sul a energia gerada por este mineral é mais cara que a eólica.

O avanço das energias renováveis já ameaça o próprio funcionamento da rede centralizada, uma vez que parte crescente da oferta é realizada a partir da auto produção dos domicílios e dos estabelecimentos comerciais. A unidade entre energias renováveis e revolução digital vai quebrar a associação, que marca de forma trágica a história do Século XX, entre energia e poder. Como bem mostra um relatório recente do Rocky Mountain Institute, “grid defection” (abandono da rede) é um território que não fazia parte dos cenários das empresas convencionais de energia. A organização financeira global UBS prevê que ainda nesta década, as contas de energia elétrica na Itália, na Alemanha e na Espanha cairão de 20 a 30%, como resultado do aumento da autoprodução. As empresas convencionais de energia na Europa devem perder 50% de seus lucros antes de 2020. E a chegada de baterias capazes de acumular energia vão compensar os momentos de ausência de vento ou a falta de insolação.

Neste contexto, o mais importante para os países em desenvolvimento não é garantir e ampliar seus direitos de emitir gases de efeito estufa. O princípio de justiça ambiental, contido no Protocolo de Kyoto, tem que se converter numa ampla cooperação global para universalizar o acesso às energias renováveis e descentralizadas.

Para isso há dois desafios centrais. O primeiro consiste em generalizar o avanço da revolução digital e as conquistas tecnológicas que marcam o vertiginoso declínio nos preços das renováveis modernas. Da mesma forma que os celulares se difundiram em países que não dispunham de rede telefônica convencional universalizada, o mesmo pode ocorrer agora com a energia renovável e descentralizada. O que supõe um desafio ainda mais difícil: enfrentar os interesses que tentam mostrar o atraso representando pelos fósseis e pelas hidroelétricas predatórias como único caminho para a energia barata.

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