Artigo publicado no jornal Valor Econômico em 04/04/2008

———————–

Apesar de sua eficiência energética, o etanol brasileiro é apenas uma entre inúmeras alternativas para reduzir o efeito estufa e descarbonizar a matriz energética mundial no setor de transportes. O último livro de Lester Brown (Plan B 3.0 Mobilizing to Save Civilization) chega a repudiar os chamados biocombustíveis de primeira geração (etanol e biodiesel) e não hesita em afirmar que a humanidade já possui tecnologias para “reestruturar a economia energética mundial e estabilizar o clima”.

Robert Bell em The Green Bubble – Waste into Wealth – The New Energy Revolution (Ed. Scali) mostra, estudando o comportamento do próprio mercado acionário, que os investimentos em energia eólica, solar e fotovoltaica, bem como a rapidez das inovações nos motores dos veículos, não sugerem que o petróleo será simplesmente substituído pelas modalidades hoje conhecidas de energia derivadas da agricultura. A empresa indiana Tara, pertencente ao grupo Bengal Enamel (fabricante de utensílios domésticos) anunciou recentemente, em parceria com a chinesa Aucma (fabricante de geladeiras, freezers e carros elétricos para golfe), a fabricação do Tiny, um automóvel mais barato que o famoso Tata indiano e que deve funcionar com eletricidade, podendo ser carregado com bateria de 220 volts. O avanço representado pela bateria de hidreto metálico de níquel (NIMH, da sigla em inglês) e pelas de lítio-ion indica que alguns dos problemas tecnológicos que se opõem ao uso dos motores elétricos no transporte individual parecem estar a caminho da solução.

Competitividade nos preços e eficiência energética não bastam para que o etanol se afirme como alternativa viável na transição para o fim da era do petróleo

Estas tecnologias ainda não ganharam escala comercial e, portanto, não condenam o esforço brasileiro – do setor privado e do governo – de fazer do etanol uma commodity reconhecida internacionalmente. A maior parte das soluções já operacionais tem ainda alguns anos pela frente – ninguém sabe quantos – para se afirmarem comercialmente. Isso traz uma inegável vantagem ao álcool brasileiro. Só que eficiência energética e competitividade nos preços não bastam para que o etanol de cana-de-açúcar se afirme como alternativa viável na transição para o fim da era do petróleo. Transformar o álcool em commodity supõe duas difíceis conquistas. Uma de natureza geopolítica, a outra de natureza social.

A conquista geopolítica só poderá ser alcançada se outros países, além do Brasil e dos Estados Unidos, adquirirem peso considerável na oferta de etanol. Nenhuma nação – a começar pelos EUA – vai aceitar a dependência de um produto totalmente fabricado fora de suas fronteiras. Esta é, aliás, uma das razões que explica a opção aparentemente irracional, por parte dos norte- americanos, de investir no etanol de milho – além, é claro, do fato de este setor ser totalmente dominado pelos grandes grupos econômicos do agronegócio, muitos dos quais são investidores no próprio etanol brasileiro. Produzido nos EUA, o milho pode ser igualmente comprado no mercado mundial, o que não acontece com a cana-de-açúcar, que não pode ser armazenada ou exportada in natura. Para que o etanol brasileiro amplie seu espaço na mudança dos padrões energéticos do mundo contemporâneo, é necessário, paradoxalmente, que a oferta se pulverize entre diversos países. Isso não tem nada de trivial, já que o etanol supõe não apenas clima, solo, água e sol, mas também competências, infra- estruturas e mercados que não se improvisam.

O segundo desafio é ainda mais difícil e envolve outro paradoxo. Para se afirmar enquanto commodity, o etanol brasileiro terá que enfrentar a crescente polêmica em torno da viabilidade socioambiental dos biocombustíveis. É imensa a confusão neste debate. O próprio Comissário Especial sobre Direito à Alimentação das Nações Unidas, Jean Ziegler – pregador da moratória dos biocombustíveis há alguns meses – separou o álcool brasileiro daquilo que os críticos consideram, para empregar o título de um documento recente da OCDE, “curas piores do que a doença”. Mas a verdade é que a afirmação do etanol brasileiro no mercado mundial, enquanto commodity, supõe seu reconhecimento como bem singular, ou seja, seu rastreamento e sua certificação. Tanto quanto a marca de uma grande empresa, o produto terá que ser legitimado por diversas qualidades imateriais, o que, nem de longe, deriva imediatamente de seus atributos energéticos e econômicos. Deriva, sim, da negociação permanente com um leque cada vez maior de stakeholders interessados nos processos de fabricação do etanol e da capacidade de exprimir este diálogo polêmico nas regras de funcionamento do mercado.

O álcool é commodity, mas ele terá que ser caracterizado por qualidades, por particularidades que revelem seu conteúdo social e ambiental. Isso impõe ao setor privado, ao governo e às organizações voltadas a temas socioambientais desafios que marcam, cada vez mais, a gestão dos mercados. Por um lado, a rastreabilidade amplia a vulnerabilidade do produto já que passam a ser maiores as chances de contestação por parte da sociedade civil em torno de seus processos de fabricação e uso. Ao mesmo tempo, a certificação é o meio para reduzir este risco de reputação e traz vantagens importantes, pois sinaliza tanto aos envolvidos nos processos produtivos como aos investidores (e até às companhias de seguro) visibilidade no funcionamento do setor. Além disso, a certificação baseada em ampla participação social tende a atrair para o sistema empresas inicialmente relutantes quanto a seus efeitos economicamente positivos. Para isso, porém, é fundamental que a certificação não se confunda nem com controle interno de qualidade, nem com a vigilância de entidades representativas do setor. Ela só é efetiva quando levada adiante por terceiros e negociada com um amplo conjunto de atores que vão muito além dos interessados comercialmente nos destinos da empresa e do setor. O livro recente de Michael Conroy (Branded! How the ‘Certification Revolution’ is Transforming Global Corporations – New Society Publishers) é uma importante referência internacional para compreender o processo incipiente, mas tão rico, que vem fazendo de diversas organizações da sociedade civil protagonistas importantes na construção social dos mercados.

Ricardo Abramovay é professor Titular do Departamento de Economia da FEA/USP, coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental e pesquisador do CNPq.

Compartilhar com amigos
  • gplus
  • pinterest

Postar um comentário