Seu último livro é uma história do que de mais importante aconteceu no cenário global de energia durante o século XXI. Longe, entretanto de um tom impessoal ou neutro, o livro relata inúmeros eventos de que Leggett participou e nos quais debateu com algumas das mais importantes autoridades na área de energia e de finanças. A ligação entre finanças e energia envolve quatro riscos sistêmicos que ameaçam o mercado de capitais e, portanto, a economia global.

O primeiro é, nos dias de hoje, o mais polêmico. Por mais que se insista na comparação entre a Idade da Pedra (que não acabou por falta de pedra) e a do petróleo, o fato é que as formas convencionais de obtenção do produto já se esgotaram. A produção de petróleo cru atingiu seu pico de 74 milhões de barris em 2005 e aí permanece. Nada menos que 60% da oferta mundial vêm de países cuja produção já não cresce. Na Arábia Saudita, 90% do petróleo vem de apenas sete poços que já têm, todos, quase cinquenta anos.

Mas, dizem os críticos do pico do petróleo, as formas não convencionais de exploração não apenas conseguem satisfazer a demanda, mas têm horizonte altamente promissor. Leggett mostra que os números estonteantes das reservas contidas nas novas modalidades de exploração fóssil são, em grande parte, ilusórios: de fato, o petróleo está lá, mas o que pode ser extraído a um custo minimamente realista, com as técnicas atuais, corresponde a um ou no máximo dois por cento do total. Raymond Pierrehumbert, professor titular de ciências geofísicas da Universidade de Chicago, citado por Leggett, diz que a busca por petróleo nos Estados Unidos assemelha-se à corrida da Rainha Vermelha de Lewis Carrol: os 25 mil poços existentes atualmente nos EUA resultam numa produção equivalente à dos 5 mil que havia no ano 2000. Isso é agravado não só pela crescente preocupação em torno dos impactos ambientais do fraturamento hidráulico, como também por seus custos energéticos. A energia necessária para cada unidade de energia fóssil obtida de maneira não convencional é crescente.

Daí decorre o segundo risco. Se, de fato, a redenção promovida pelas formas não convencionais de petróleo e gás for efêmera, os impactos no mercado financeiro podem ser desastrosos, já que se trata de um setor que só em 2011 atraiu quase US$ 50 bilhões em fusões e aquisições. Longe de exprimir uma nova era de vigor dos fósseis, o gás de xisto representa, na visão de Leggett, uma bolha cuja explosão trará efeitos devastadores. E, tratando-se de energia fóssil, os mecanismos pelos quais altos preços se traduzem em posterior aumento da oferta são necessariamente imperfeitos, e lentos.

O terceiro risco é ligado às mudanças climáticas. Segundo Leggett, a multiplicação de eventos como Katrina ou Sandy
não será suficiente para gerar, em curto prazo, reversão na corrida da Rainha Vermelha. Mas os impactos socioambientais das emissões de gases de efeito estufa ameaçam a própria licença para operar das grandes petrolíferas.

Mais importante é o quarto risco: se as negociações internacionais fortalecerem mecanismos para que o aumento da temperatura global não vá além de 2o (como estabelecido na Conferência Global de Cancun, em 2010), menos da metade do patrimônio das empresas de energia fóssil no mundo poderá converter-se em riqueza, sob pena de destruição do sistema climático. É o que os especialistas chamam hoje de bolha de carbono ou “unburnable carbon” (carvão não passível de ser queimado). A maior dificuldade aí está em definir quem terá o direito de extrair e consumir essa parcela de fósseis compatível com um orçamento carbono que não destrua o sistema climático. Enquanto isso não se define, as grandes petrolíferas apressam-se em novos investimentos: US$ 6 trilhões é o que deve ser aplicado nos próximos dez anos na exploração não convencional de petróleo.

É impossível não se sensibilizar para o paradoxo apontado por Nicholas Stern em uma das recentes conferências de que Leggett participou: “Não dá para apostar em uma chance razoável de manter a temperatura do planeta no limite de dois graus de elevação e, ao mesmo tempo, acreditar que as empresas de energia fóssil estejam hoje avaliadas a um preço correto”. E até aqui, apesar dos grandes e promissores avanços das energias renováveis, os fósseis continuam absorvendo a esmagadora maioria do dinheiro, do talento, da inovação e dos subsídios voltados a resolver os grandes problemas energéticos das sociedades contemporâneas.

“The Energy of Nations”
Jeremy Leggett. Editora: Routledge. 272 págs., US$ 31,95
Ricardo Abramovay é professor titular do departamento de economia da FEA/USP, co-autor de “Lixo Zero: Gestão de Resíduos Sólidos para uma Sociedade Mais Próspera” (e-book Planeta Sustentável/Abril). Blog: ricardoabramovay.com – Twitter: @abramovay

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