É imensa a pressão desses novos consumidores sobre os ecossistemas. Felizmente, o avanço científico e as inovações tecnológicas dos últimos 20 anos permitiram fazer mais com menos. No Brasil, por exemplo [http://ricardoabramovay.com/?p=339], em 2008, cada tonelada de cimento foi produzida com base na emissão de 30% a menos de gases de efeito estufa que em 1970. Uma geladeira hoje consome muito menos energia que há 20 anos. A ecoeficiência vem avançando nitidamente e é fundamental que seja ainda mais acelerada.

Mas, por mais que a inovação se intensifique, ela não será capaz de compensar os efeitos do crescimento econômico acelerado. Embora as emissões por tonelada de cimento, no Brasil, tenham caído 30% nas últimas quatro décadas, a produção cresceu tanto que as emissões totais do setor foram 200% maiores em 2008 que em 1970.

E esse não é um contraste apenas brasileiro, nem limitado ao setor de cimento. Os ganhos de eficiência são contrabalançados pelo incremento no consumo e na produção. A profissão de fé segundo a qual a ciência é capaz de resolver esse problema não encontra mais eco sequer nos documentos das mais importantes consultorias globais. Elas têm alertado para a volatilidade, com tendência à alta, dos preços das commodities e para os novos riscos do setor empresarial, caso se torne necessário pagar por recursos e por danos que hoje são, do ponto de vista social, gratuitos, apesar de seu imenso custo.

Não há governança do desenvolvimento sustentável -tema central da Rio+20, junto com a economia verde- sem a abordagem destes desafios sob um duplo ângulo. O primeiro é o das desigualdades. E não se trata apenas do escandaloso avanço da desigualdade de renda. Trata-se de desigualdades no uso de recursos materiais e energéticos cada vez mais escassos, não livremente reprodutíveis e cuja exaustão ameaça a própria vida social.

O exemplo do aquecimento global ilustra bem este desafio. A humanidade emite hoje 50 gigatoneladas de gases de efeito estufa. Para impedir que a temperatura média global suba além de dois graus durante o século 21, é necessário que essas emissões caiam para 44 Gt em 2020, para 35 Gt em 2030 e se estabilizem em 20 Gt em 2050, quanto o mundo terá entre 9 e 10 bilhões de habitantes. Isso significa passar da atual média per capita de 7 toneladas (que multiplicadas por 7 bilhões de habitantes resultam nos 50 bilhões de Gt atuais) para 2 toneladas em 2050. Para que essa redução aconteça, é necessário que um verdadeiro choque de inovações atinja a produção de bens e serviços.

Mas há um detalhe crucial que essas informações escondem. A média de 7 toneladas atuais per capita escamoteia que a produção e o consumo norte-americanos correspondem à emissão de mais de 20 toneladas per capita; as emissões chinesas são de 6 toneladas per capita, e as dos indianos não chegam a 2. Para que a média mundial, em 2050, caia para 2 toneladas per capita, é preciso muita inovação tecnológica, novos materiais, novas fontes de energia e, sobretudo, o melhor uso dos materiais e da energia.

Mas não parece realista imaginar que a redução necessária nas emissões seja compatível com o grau de desigualdade que hoje caracteriza o uso do espaço carbono do Planeta. Permitir que os americanos continuem com seu padrão de vida e que os bens e serviços hoje consumidos lhes sejam oferecido (graças às inovações tecnológicas) com base em emissões de gases de efeito estufa dez vezes menor que hoje não é compatível com um mínimo de realismo na previsão do que será o avanço da ecoeficiência.

Isso significa que, além de buscar novas fontes de energia e melhorar o uso das bases materiais da vida econômica, o principal desafio das sociedades atuais está em uma singela pergunta: produzir para quê?

Em 1980, 20% dos carros produzidos nos Estados Unidos eram SUVs (Sport Utility Vehicles), carros de 3,5 toneladas, versão civil de um tanque de guerra, consumindo uma quantidade impressionante de combustíveis e, em geral, levando, em suas viagens, uma pessoa. Em 2004, nada menos que 56% de toda a produção automobilística dos EUA já era de SUV. No Brasil, entre 2009 e 2012, a compra de carros aumentou 28%. Mas a de SUV ampliou-se 78%, contribuindo para dificultar ainda mais o trânsito das cidades médias e grandes.

Num mundo de 3 bilhões de habitantes, em que os recursos pareciam infinitos, era possível argumentar que tanto as empresas como os indivíduos são soberanos sobre a maneira como usam seus recursos, desde que o façam dentro da lei. A grande novidade de um mundo de 7 para 10 bilhões de habitantes e marcado por tantas desigualdades é que esse raciocínio perde legitimidade. O uso produtivo e o consumo privado dos recursos ecossistêmicos tornam-se, cada vez mais, uma questão pública, tendo em vista o próprio horizonte de escassez desses recursos, indispensáveis à vida social.

O desenvolvimento sustentável consiste em usar cada vez melhor os recursos ecossistêmicos para fazer mais: mais saneamento, mais acesso à água, mais educação, mais acesso a energias modernas.

Mas o maior desafio é que é necessário, igualmente, fazer menos: menos emissões, menor consumo de materiais, de água, menos carros nas ruas e menos alimentos que provocam obesidade.

A governança contemporânea aprendeu como fazer mais. Mas ela está ainda muito aquém do mínimo necessário para que consiga estimular os agentes privados, públicos e associativos a fazer menos.

Publicado em 21 de junho de 2012 no caderno Empreendedor Social do jornal Folha de S. Paulo. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/empreendedorsocial/colunas/1108042-fazer-mais-e-menos-ao-mesmo-tempo.shtml

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