Valor Econômico. 9/04/2018

Basta ouvir com atenção as revelações do jovem Christopher Wylie à reportagem do “The Guardian”, sobre o caso Facebook/Cambridge Analytica para fazer constatações fundamentais.

A primeira é que os bombásticos episódios recentes não resultam de um erro, de uma distorção ou de uma anomalia. O que está em jogo não é o comportamento da Cambridge Analytica: é o modelo de negócio das maiores e mais poderosas empresas do mundo, que consiste em colher informações sobre cada um de nós para, com isso, dirigir-nos, de forma individualizada, mensagens capazes de reter nossa atenção e de conservar-nos conectados aos dispositivos digitais que se tornaram indispensáveis ao nosso cotidiano. Não é por outra razão que o norte-americano Tim Wu deu o título de “Mercadores de Atenção” ao livro em que analisa os métodos usados neste sentido pelos gigantes digitais contemporâneos.

Mais importante que o eventual “vazamento” das informações é o fato de que se formou, a partir da segunda década do Século XXI um ecossistema de circulação de dados pessoais que tem seu epicentro naquilo que o Financial Times chama de FAANG (Facebook, Amazon, Apple, Netflix e Google), mas que envolve quase todas as organizações das quais depende nossa vida cotidiana, desde as lojas e farmácias, até nosso cartão de crédito e os dados sobre nós que os governos têm em mãos.

A segunda constatação é que este escândalo não é um raio num céu azul. Se a primeira década do milênio foi de imenso entusiasmo com relação ao poder emancipatório e às oportunidades econômicas abertas pela internet, pelos smartphones, pela computação em nuvem, pela inteligência artificial, pela aprendizagem de máquinas, pela internet das coisas e a realidade aumentada, este entusiasmo, nos últimos dois anos, converteu-se num sentimento de desencanto, decepção e traição.

Os potenciais da internet e das inovações a que ela vem dando lugar são inegavelmente extraordinários. No entanto, a concentração de riqueza e de poder a que ela abriu caminho, a natureza monopolista dos gigantes digitais e as técnicas invasivas que permitem uma influência inédita em nossas escolhas como consumidores e cidadãos vêm sendo denunciadas de forma enfática por quem mais entende do tema.

Justin Rosenstein, por exemplo, o engenheiro que criou o dispositivo “like” do Facebook, descreve hoje seu invento como uma “brilhante campainha de pseudo prazer”. Nir Eyal, consultor na área, mostra que foram pensados estímulos que nos impulsionam “a checar uma mensagem, a visitar o You Tube, o Facebook ou o Twitter por alguns minutos, após os quais nós continuamos digitando e atentos”.

Chamath Palihapitiya, ex-executivo do Facebook, declarou em dezembro de 2017 que sente imensa culpa por seu trabalho na criação de “ferramentas que estão destruindo o tecido social a partir do qual a sociedade funciona”. Tristan Harris que trabalhou como designer ético do Google mostra, em TED que já teve dois milhões de expectadores, como “um punhado de empresas de tecnologia controla a mente de bilhões de pessoas a cada dia”. Portanto, o que está ocorrendo não é surpreendente. É a consequência do que o recém publicado trabalho de Wolfie Christie, do Cracked Labs de Viena (http://crackedlabs.org/en), chama de “vigilância corporativa.”

As medidas tomadas pelo Facebook facilitando o acesso de seus usuários às informações que lhes permitem escolher os dados que querem compartilhar não enfrentam estes problemas. Em primeiro lugar, porque a grande maioria das pessoas não vai alterar seu perfil, por uma questão de comodidade. Além disso, o Facebook não é a única fonte de informação do capitalismo de vigilância. A esmagadora maioria dos aplicativos que usamos captura dados que são compartilhados com empresas neles interessadas, sem que o saibamos. O Spotify, por exemplo, segundo Christie, vende dados sobre as preferências musicais de seus usuários.

O simples fato de termos nosso smartphone no bolso produz informações sobre onde estamos, para onde vamos, o que compramos e, muitas vezes, até sobre nossas conversas. Os programas de lealdade de consumidores nos Estados Unidos, como mostra Wolfie Christie, envolvem 3,3 bilhões de membros, em setores tão variados como aviação, farmácias, serviços financeiros ou supermercados. Assinaturas de revistas e jornais, compras eletrônicas, compras em lojas por cartão também são produtoras de valiosos dados. A empresa de consultoria Nielsen diz possuir dados de mais de 900 mil lojas em 100 países.

Esta invasão massiva da privacidade, um dos valores fundamentais das sociedades contemporâneas, faz da ética dos dados um novo e estratégico desafio para a vida empresarial. O que está em jogo não é só como cada um de nós controla seus dados. O mais importante é a emergência de um verdadeiro movimento social que visa mudar a cultura a partir da qual os dispositivos digitais e as inovações a que eles deram lugar vêm sendo concebidos e usados. As pessoas e a dignidade humana têm que estar no centro das opções a partir das quais nossos dados são usados. Esta aliás é a mensagem central do Instituto de Engenheiros Elétricos e Eletrônicos (IEEE), organização que reúne 420 mil membros em 160 países e que está liderando uma reflexão profunda e aberta ao público em torno de “Considerações Éticas em Inteligência Artificial e Sistemas Autônomos”.

A legislação europeia que regulamenta o uso de dados pessoais por parte das empresas (GDPR) e que entra em vigor no dia 25 de maio próximo, é um passo decisivo para que a humanidade recupere a internet como bem público e não como meio de dominação e controle. A discussão sobre este tema no Brasil ainda é incipiente, mas as empresas que se anteciparem tratando seus clientes e seus dados com respeito, honestidade e transparência terão certamente vantagens competitivas importantes.

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