Artigo publicado no jornal Valor Econômico,EU & Livros p. D8, em 28/02/2008.

“La Troisième Rive – À la Recherche de l’Écodévelopement” – Ignacy Sachs.
Bourin Éditeur, 400 págs. R$ 94,92

Quanto é suficiente? É difícil imaginar questão mais importante para a civilização contemporânea do que a formulada por Ghandi em plena ocupação britânica. Não é sem razão que a Índia e Ghandi ocupam lugar central na trajetória de Ignacy Sachs, criador da expressão “ecodesenvolvimento” nos anos 1970 e que acaba de publicar, no momento em que completa 80 anos, sua autobiografia: “La Troisième Rive – À la Recherche de l ́Écodévelopement” (Bourin Éditeur, Paris).

Professor emérito da École des Hautes Études en SciencesSociales, de Paris, autor de mais de 30 livros e com influência internacional marcante no estudo do desenvolvimento, Sachs tem uma história intelectual que abala o ceticismo daqueles que se habituaram a enxergar a economia como a ciência cinzenta, segundo a qual os preços são capazes, em última análise, de sinalizar aos indivíduos as escolhas que devem fazer, daí resultando a melhor ordem social possível. No cerne da questão ghandiana está o desafio fundamental da construção do desenvolvimento sustentável: a mudança nos padrões de produção e consumo que caracterizam as sociedades contemporâneas. A decisão sobre quanto é suficiente não decorre do puro e neutro exercício de uma racionalidade em que o indivíduo responde mecanicamente a estímulos, mas envolve, antes de tudo questões de natureza ética. Tampouco a questão da justiça social pode ser concebida apenas a partir da idéia de que é necessário melhorar a distribuição do que existe: é fundamental alterar as próprias bases produtivas da vida social, cujas atuais repercussões sobre os recursos de que dependemos são catastróficas. Sachs foi dos primeiros a mostrar que o “milagre” do crescimento chinês apoiava-se sobre fantástica concentração de renda e destruição dos recursos naturais.

Dois traços fundamentais caracterizam a abordagem de Sachs e fazem dele um dos grandes pensadores de nosso tempo. Em primeiro lugar, da mesma forma que Gunnar Myrdal, Amartya Sen e Celso Furtado – com os quais conviveu e trabalhou – Sachs não separa os fenômenos econômicos das demais esferas da vida social. Convidado recentemente a fazer uma conferência sobre “ética e desenvolvimento”, ele começa com a anedota do filho que pergunta ao pai: “Onde é o rabo da serpente?” Responde o pai: “Meu filho, a serpente nada mais é que um grande rabo.” O desenvolvimento, como mostra Amartya Sen, não pode ser definido senão enquanto liberdade e enquanto ética.

Mas além desta atitude que recusa a separação disciplinar que marca tão fortemente a história das ciências sociais no século XX e que insere os temas éticos no âmago da vida científica, Sachs aborda o estudo das sociedades humanas sob um ângulo material e não apenas a partir da maneira como as relações entre os indivíduos se traduzem no sistema de preços. Esta materialidade não envolve só o reconhecimento dos interesses e dos grupos sociais: ela parte da premissa de que a vida econômica deve ser compreendida com base no metabolismo que se estabelece entre sociedade e natureza. Daí o fato de, já no final dos anos 1970, ter liderado um projeto para as Nações Unidas voltado ao estudo das relações entre alimentos e energia. Deste projeto resultou contribuição decisiva e original para a crescente polêmica internacional em torno dos biocombustíveis.

Sachs recusa o que julga ser atitude irresponsável daqueles que consideram que os biocombustíveis representarão fatalmente a redução da produção alimentar mundial e a devastação ambiental em larga escala. É verdade, insiste ele, que a energia mais valiosa é aquela que se deixa de utilizar. Portanto, a parcimônia no uso dos recursos (quanto é o suficiente?) é decisiva. Reduzir o uso do automóvel individual e ampliar o alcance de modalidades alternativas de transporte é decisivo. Mas isso não basta, uma vez que esta parcimônia deve ser compatibilizada com a necessidade de geração de renda para os mais pobres, por meio de atividades socialmente úteis: a expansão de biocombustíveis abre potencialmente caminho para a expansão das capacidades produtivas dos que hoje estão em situação de pobreza. Este potencial será de fato revertido a favor da emancipação das populações mais carentes ou servirá de motor à concentração de renda? Será uma ocasião para o uso sustentável da biodiversidade ou dará lugar à destruição? As respostas a estas questões não estão dadas de antemão.

A abordagem da questão ghandiana não passa, para Sachs, pela recusa do crescimento econômico mas, antes de tudo, pelo planejamento. E neste sentido, tanto quanto a Índia, seu país natal, a Polônia, exerce sobre sua obra um papel de destaque. Sua família conseguiu fugir para o Brasil durante a Segunda Guerra Mundial e ele terminou em São Paulo o Lycée Pasteur e, no Rio, formou-se em economia pela Cândido Mendes enquanto trabalhava na embaixada da Polônia. Em 1954, em plena Guerra Fria, decide transferir-se, com a mulher e dois filhos, para aquele país, onde trabalha com Oskar Lange, Michal Kalecki e o historiador Witold Kula.

O livro tem histórias extraordinárias, tanto sobre a vida intelectual do Rio nos anos 1940 como sobre o que era, na prática. a vida dos responsáveis por pensar o planejamento em um país do bloco socialista. Mas, sobretudo, o livro mostra (a partir do exemplo de uma sociedade regida supostamente por planejamento central) como a tradução da pergunta ghandiana para a esfera prática é difícil. A eficiência dos organismos responsáveis pelo plano depende, é claro, de sua capacidade de acolher as aspirações populares e de contemplá-las nos limites dos recursos disponíveis. No entanto, sob um regime ditatorial, estas aspirações são expressas sempre de forma distorcida, a partir do filtro de uma representação política opaca e viciada. Os grandes objetivos éticos do planejamento pulverizam-se na maneira como se organiza o poder para levá- los supostamente adiante. Optar pela liberdade de mercado como solução – e por aí reduzir a dimensão ética da escolha social simplesmente àquilo que fazem os indivíduos – é consagrar a desigualdade e abrir espaço para a devastação.

A terceira margem (“la troisième rive”, alusão ao conto de Guimarães Rosa) exprime a convicção de que é possível uma solução para este dilema que não se reduza a um sincretismo insosso. Mas o subtítulo da autobiografia de Sachs mostra que esta terceira margem ainda não está desenhada e que estamos todos “à procura do ecodesenvolvimento”.

Ricardo Abramovay é professor titular do departamento de economia da FEA/USP e da cátedra Sérgio Buarque de Holanda da École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. Pesquisador do CNPq.

 

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