Se todos os países cumprirem suas promessas de redução de emissões, elevação da temperatura global média, até o final do século, será superior a 3,5 graus

O desmatamento na Nova Guiné, registrado pelo Greenpeace, é um exemplo da relação insustentável entre o homem e a natureza
O desmatamento na Nova Guiné, registrado pelo Greenpeace, é um exemplo da relação insustentável entre o homem e a natureza

Não há como fortalecer a colaboração social no mundo contemporâneo sem mudar radicalmente a relação entre os homens e a natureza. Contrariamente ao que imperou desde a Revolução Científica do século XVII, a natureza não pode mais ser tratada como o objeto passivo sobre o qual a atividade e a inteligência humanas exercem seu poder soberano. Desde que emergiram, há dez mil anos, a agricultura e, posteriormente, as cidades, a destruição do mundo natural é parte da existência social. Mas foi somente a partir do Século XX, e sobretudo de sua segunda metade, que esta destruição tomou um ritmo e uma dimensão capazes de ameaçar a própria vida. As sociedades humanas que sempre foram uma força biológica de mudança da natureza convertem-se, com o aquecimento global, de forma inédita, em força geológica.

O que está em jogo é a reconciliação entre nosso presunçoso status especial como seres humanos e o universo como um todo, que é a fonte de nossa vida.

Hans Jonas, Filósofo

Assim, todas as ações humanas passam a ser condicionadas por seus impactos sobre o mundo natural. Este se converte, por aí, de puro objeto de extração e transformação, que era, num verdadeiro valor. É de sua preservação e, mais que isso, de sua regeneração que passa a depender a própria vida social e, portanto, as chances de ampliar a colaboração humana. Nas palavras de um dos maiores filósofos do século XX, Hans Jonas, o que está em jogo é a “reconciliação entre nosso presunçoso status especial como seres humanos e o universo como um todo, que é a fonte de nossa vida”.

O primeiro passo para esta reconciliação é o reconhecimento de limites. Dois graus máximos a serem tolerados na elevação da temperatura global média até o final do Século XXI, tornaram-se o emblema do reconhecimento desta existência. Limitar as emissões de gases de efeito estufa, porém, envolve transformações nos modos de vida e de produção que colocam em questão globalmente os atuais padrões de consumo, bem como a própria lógica da organização urbana, da produção de energia e a maneira como são ocupados e usados os solos.

É isso que está em discussão nas negociações climáticas que se abrem em Paris agora em novembro. Trata-se de estabelecer uma espécie de contrato de colaboração (e não mais de pura extração) entre as sociedades humanas e o mundo natural. Sem este contrato, ninguém sabe o que será a vida na Terra. O horizonte atual só pode despertar preocupação. Caso todos os países cumpram suas recém apresentadas promessas de redução das emissões, o mundo terá uma elevação da temperatura global média superior a 3,5 graus até o final do século XXI. É catastrófico. No entanto, dois elementos de esperança e um de profunda preocupação marcam a negociação em torno deste contrato.

O primeiro elemento de esperança é que a matriz energética global está transitando para fontes renováveis modernas muito mais rapidamente do que se esperava há cinco anos. Relatório recente da Bloomberg mostra que com os ganhos de eficiência e a queda nos preços das energias renováveis nos Estados Unidos, elas se tornam competitivas com relação às fontes fósseis tradicionais. O grupo financeiro global Citi também lançou relatório alertando investidores sobre os riscos crescentes dos ativos fósseis, que têm fortes chances de não se transformarem em riqueza e renda. E a recente tentativa dos gigantes petrolíferos de traçar cenários de um futuro predominantemente fóssil foi vigorosamente contestada por um sólido trabalho de organização britânica Carbon Tracker.

O segundo elemento de esperança está no surgimento de organizações empresariais com o objetivo de utilizar os mercados como forma de promover transformações socioambientais construtivas. É o caso do Sistema B, cujas empresas pretendem ser não as melhores do mundo, mas as melhores para o mundo. É também o caso do B Team, que procura fazer com que as empresas tornem visíveis, aos olhos da sociedade, o conjunto dos custos ligados aos serviços ecossistêmicos que usam e, na maior parte das vezes destroem.

Durante o mês de outubro de 2015 foi lançado no Brasil o escritório da Fundação Ellen McArthur, cujo principal objetivo é promover a transição de uma economia linear (composta pela sequência extrair-transformar-consumir-descartar) para uma economia circular, onde os materiais que compõem a riqueza social devem ser permanentemente não apenas reciclados, mas revalorizados em novos ciclos produtivos. Isso supõe que eles sejam desenhados tendo em vista o que vai lhes acontecer durante e depois de seu uso. Não basta, sob este ponto de vista, minimizar os danos. O fundamental é que na própria concepção de todo e qualquer produto, a questão central seja: e depois, o que vai acontecer? Trata-se de uma verdadeira mutação da economia que se apoia na destruição da natureza para aquela cuja base é o conhecimento da natureza. Uma das mais fascinantes expressões desta abordagem é a biomimética, ou seja, as técnicas que procuram mimetizar processos naturais e, por aí, conseguem reduzir o uso de matéria, energia e recursos bióticos na oferta de bens e serviços.

Claro que até aqui as empresas pertencentes a estas organizações são minoritárias em cada país e na economia global. Estas organizações empresariais, porém, têm em seu planejamento estratégico a ambição de contribuir para a emergência de um contrato natural por meio de uma economia regenerativa.

O elemento de profunda preocupação, mencionado pouco acima, tem dois componentes. O primeiro está na crescente distância do Brasil e, de forma geral, da América Latina deste movimento de inovação para a sustentabilidade. A árvore de empresas e iniciativas virtuosas não chega a encobrir a floresta do atraso que se exprime na crença de que o pré-sal consiste num bilhete premiado e na decisão de insistir em mais usinas hidrelétricas na Amazônia. O segundo está na escassa mobilização da sociedade civil brasileira e latino-americana contra estas formas predatórias de utilização de recursos públicos e privados, cuja inspiração é muito distante do contrato natural que começa a emergir nos países que procuram fazer da inovação para a sustentabilidade o vetor do crescimento econômico.

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