Valor Econômico. 1º/09/2016

A redução das desigualdades não é apenas um imperativo ético ou uma exigência social. Ela é uma premissa fundamental para que se enfrente um dos mais intrigantes paradoxos da economia contemporânea: o do precário crescimento da produtividade do trabalho, em plena era da revolução digital. A literatura sobre cada um destes dois temas (crescimento das desigualdades e lentidão no avanço da produtividade) é hoje gigantesca. Mas poucos são os trabalhos que procuram estudar a relação entre eles.

É muito bem vinda, neste sentido, a tentativa de síntese da OCDE no relatório apresentado a seu conselho de ministros há algumas semanas, “The Productivity-Inclusiveness Nexus”. Embora voltado, sobretudo, aos países desenvolvidos (que compõem a maior parte dos membros da organização), suas conclusões são de grande atualidade para sociedades, como a nossa, marcadas por graves desigualdades e por lento avanço na inovação e na produtividade.

Desde o início do milênio 90% dos países da OCDE sofreram redução no ritmo de aumento da produtividade do trabalho. E muitos dos países em desenvolvimento também conheceram quedas importantes neste parâmetro. Em 1991 a produtividade do trabalho no México era quase metade da norte-americana. Esta proporção cai para menos de 35% em 2014. No caso do Brasil a relação com a produtividade norte-americana cai de 33% em 1991 para 28% em 2014.

Ora, entre 1950 e meados da primeira década do milênio o poder computacional dos aparatos digitais dobrou nada menos que trinta e duas vezes, com a consequente queda nos preços dos dispositivos e impressionante avanço e generalização de seu uso. Mas se é assim, como explicar que diante das mudanças tecnológicas tão rápidas e profundas trazidas pela revolução digital, seus impactos na produtividade do trabalho sejam relativamente tímidos? E qual a relação entre esta timidez e o brutal avanço nas desigualdades?

A resposta da OCDE é que a atual máquina de difundir inovações parece funcionar muito pior que suas antecessoras. Não há dúvida que a inovação contemporânea obedece a um ritmo alucinante, o que se exprime no avanço da robotização, na conectividade generalizada que emerge da internet das coisas, na inteligência artificial e na computação em nuvem. Mas sua adoção é extremamente concentrada, o que acaba por prejudicar o desempenho da economia como um todo. E esta concentração possui duas dimensões fundamentais.

A primeira refere-se às empresas. Enquanto a centena de indústrias que se encontram naquilo que a OCDE define como a fronteira global da inovação aumentaram a produtividade do trabalho a um ritmo de 3,5% ao ano, desde o início do milênio, a média do setor não foi além de 1,7% anuais. No setor de serviços a distância é ainda maior: 5% para as companhias mais avançadas e 0,3% para o conjunto. As empresas caracterizadas como de fronteira lucram mais, têm mais chances de obter patentes e são mais jovens que as outras firmas. Uma das razões de seu forte desempenho está nas rendas que conseguem extrair dos investimentos de capital baseados em conhecimentos e, sobretudo, nas externalidades de rede de que se beneficiam: na economia digital, mais usuários atraem ainda mais usuários, o que amplia o valor da inovação muito além da proporção em que aumenta a própria intensidade de seu uso. Ainda que parte da inovação digital contemporânea seja aberta e de livre acesso, seus primeiros criadores acabam por criar situações que se aproximam do monopólio, conforme seu uso aumenta.

Mas as desigualdades a que se refere o trabalho da OCDE não são apenas entre empresas. Elas são multidimensionais e não se atenuam apenas por aumento de renda dos mais pobres. Um ambiente em que os indivíduos reúnem baixos incentivos para investir em sua formação e na de seus filhos será fatalmente marcado por um crescimento abaixo do potencial na produtividade. A inovação, em vez de se difundir pela vida social, concentra-se e esta concentração esteriliza capacidades humanas e recursos materiais. Uma pequena minoria executa trabalhos de alta produtividade, enquanto a grande maioria volta-se a atividades rotineiras, justamente as que estão ameaçadas pelo avanço da revolução digital.

O que chama a atenção, neste sentido, é que apesar do amplo acesso à internet nos países desenvolvidos, somente 25% dos indivíduos usam os mais simples dispositivos digitais no trabalho e 40% dentre eles não têm formação suficiente para fazê-lo. O resultado é um mercado de trabalho tão polarizado como a própria estrutura empresarial das inovações, onde poucas empresas e poucos trabalhadores obtêm os maiores benefícios da revolução digital.

Esta concentração, porém, não significa que estão esgotadas as possibilidades de ampliação do corpo profissional capaz de levar adiante as inovações características da revolução digital. Melhorar o acesso ao conjunto das condições que permitam ir além do uso básico das mídias digitais por parte das empresas e dos indivíduos abre caminho à superação do vínculo perverso que marca hoje o avanço das desigualdades e a lentidão no crescimento da produtividade. Não é o aumento da riqueza que pode trazer a redução das desigualdades. Ao contrário, é a redução das desigualdades que pode ampliar as oportunidades de os indivíduos participarem de forma criativa da vida econômica e, por aí, contribuírem para o aumento da riqueza.

A principal conclusão política da OCDE merece ser citada literalmente: “em sociedades desiguais, domicílios de baixa renda têm menor capacidade de investir em educação e aproveitar oportunidades do que seus vizinhos mais ricos. Uma estratégia de produtividade que foque apenas nos negócios e nas inovações, ou que se apoie numa corrida para baixo – via baixos salários, desmantelamento da proteção social ou condições inaceitáveis de trabalho – para aumentar a vantagem competitiva de firmas e regiões, será em última análise menos efetiva que uma estratégia que também enfrente as desvantagens que impedem às pessoas de contribuírem para uma economia dinâmica”.

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