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25/03/2020 – Por maiores que sejam os sofrimentos provocados pelo Coronavírus, tudo indica que ele não representa risco existencial para a espécie humana. Mas a pandemia imprimiu impressionante atualidade aos trabalhos acadêmicos, vindos de alguns dos mais prestigiosos centros de pesquisa do mundo e cujas perguntas centrais são: por quanto tempo a humanidade vai sobreviver? Quais os “riscos existenciais” que temos pela frente e que podem interromper uma história de 200 mil anos, que, para nós, parece um tempo gigantesco, mas que corresponde à infância de nossa espécie?

Uma pandemia global, a maior dos últimos cem anos, inspira o temor individual e a solidariedade coletiva com os que nos são próximos. Mas é fundamental que ela estimule também a reflexão sobre o futuro da própria espécie humana, a solidariedade entre as gerações. A única maneira de pagarmos a dívida com o que nos foi legado pelos que nos precederam é cuidando para que as gerações futuras possam florescer e desfrutar de uma vida que vale a pena ser vivida.

Este é o fundamento ético das pesquisas levadas adiante pelo Center for the Study of Existential Risk[1] da Universidade de Cambridge e pelo Future of Humanity Institute[2], da Universidade de Oxford. É o tema do fascinante livro que acaba de ser lançado por Toby Ord, pesquisador de Oxford: “O precipício: Risco Existencial e o Futuro da Humanidade”[3].

O que está em jogo nas pesquisas sobre risco existencial não é qualquer tipo de exercício macabro sobre o fim da espécie humana. A pesquisa sobre riscos existenciais valoriza, antes de tudo, nossa capacidade de fazer com que a criatividade e a inteligência humanas permitam realizações futuras com as quais não podemos sequer sonhar e que, evidentemente, só existirão se houver humanidade para leva-las adiante.

E é justamente em torno de nossa inteligência e de nossa criatividade que se situa o paradoxo básico que define os riscos existenciais, ou seja, aqueles que ameaçam o conjunto da espécie humana. Apesar da ameaça representada pelas catástrofes naturais (que o digam os dinossauros…) os principais riscos presentes resultam do próprio avanço da ciência e da tecnologia contemporâneas. Embora haja perigo em vulcões e terremotos, o que mais nos ameaça é o que criamos e que resulta de nosso engenho e de nosso talento.

Esta constatação não conduz absolutamente a rejeitar as conquistas que permitiram o aumento da longevidade, a melhoria da saúde pública, o aumento global do nível da educação, a redução da pobreza e o conforto material de que desfruta (apesar das impressionantes desigualdades) parte muito importante e crescente da espécie humana.

Mas o ponto de partida das pesquisas sobre riscos globais é o abismo entre o poder que acumulamos de transformar o mundo em nossa volta e a precariedade da sabedoria, da prudência e dos instrumentos políticos para lidar com este poder. O espetacular aumento de nossa mobilidade e a densidade das aglomerações em que vivemos ampliam, como ficou claro com o COVID19, estes riscos. E apesar de vivermos mais e melhor que nunca antes na história humana, nossos riscos existenciais estão aumentando.

São quatro os mais importantes riscos existenciais estudados pelos especialistas: guerra nuclear, crise climática, avanço da inteligência artificial e ameaças biológicas. E é claro que, nos dias atuais, o que desperta maior preocupação são os “Riscos Biológicos Catastróficos Globais”[4]. O livro de Toby Ord mostra um panorama que não poderia ser mais contraditório com relação a estes riscos. Por um lado, compreendemos mais que nunca as doenças que nos atingem, o que não ocorria duzentos anos atrás. Temos antibióticos, vacinas, somos capazes de organizar quarentenas e os sistemas de saúde, apesar de todas suas deficiências, nunca foram tão amplos e eficazes.

É claro que isso não nos livra de riscos biológicos como o que estamos vivendo agora. Mas o que mais preocupa os estudiosos do tema é a possibilidade cada vez maior de que pandemias resultem da própria pesquisa, seja por acidentes e vazamentos seja de forma intencional. 45 litros de um reservatório onde uma grande farmacêutica armazenava o vírus da pólio caíram acidentalmente num rio belga em 2014. Em 2005, na Faculdade de Medicina e Odontologia de New Jersey, foram perdidos e nunca achados três ratos infectados pela peste bubônica.

Ao mesmo tempo, a democratização da biotecnologia e o barateamento das técnicas que permitem a manipulação do DNA são avanços científicos notáveis, mas abrem perigos inéditos, entre os quais destacam-se os de uma guerra biológica e a possibilidade de contaminação massiva e intencional por patógenos criados em laboratórios.

O problema, diz Toby Ord, não está no excesso de tecnologia e sim na carência de sabedoria. Na prática a base desta sabedoria repousa sobre um elemento decisivo colocado por Yuval Noah Harari[5] num artigo recente do Financial Times: é fundamental fortalecer o multilateralismo democrático, a cooperação internacional para que seja formulado um plano global voltado a lidar com os quatro riscos existenciais que ameaçam a espécie humana. A retórica nacionalista que marca os governos de extrema-direita do mundo atual abre caminho para que em cada uma das ameaças existenciais atuais as soluções sejam ineficientes e destrutivas.

Não há como responder nacionalmente a ameaças que, como o Coronavírus, são globais. Mas o multilateralismo democrático supõe dirigentes políticos e uma elite econômica que respeitem a atividade científica, cultivem o diálogo sério e sejam capazes de despertar nas pessoas esperança na possibilidade de que o bom senso, o equilíbrio e a solidariedade orientem o poder cada vez maior da inteligência humana.

https://ricardoabramovay.blogosfera.uol.com.br/2020/03/25/covid-19-nao-ha-como-responder-nacionalmente-a-ameacas-globais/

[1] https://www.cser.ac.uk/

 

[2] https://www.fhi.ox.ac.uk/

 

[3] https://theprecipice.com/

 

[4] https://80000hours.org/problem-profiles/global-catastrophic-biological-risks/

 

[5] https://www.ft.com/content/19d90308-6858-11ea-a3c9-1fe6fedcca75

 

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