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22/04/2020 – A psicologia pode ajudar no enfrentamento de ideias simplistas, caricaturais e que apesar de todas as evidências de sua falsidade, aparecem como verdadeiras aos que nelas acreditam e que as difundem? O tema é fundamental porque o extremismo e a polarização que, de forma crescente marcam o mundo contemporâneo, mostram-se incrivelmente resistentes à contestação racional fundamentada em fatos.

Grupos de ativistas e psicólogos norte-americanos estão tentando enfrentar este problema apelando a técnicas que fortaleçam o diálogo e a confiança entre pessoas cujas visões de mundo são opostas. Não tanto no interior dos consultórios (embora o stress trazido pelas ameaças vindas do extremismo seja um fator crescente de preocupação dos terapeutas), mas na rua e no contato direto com as pessoas.

O esforço tende a despertar estranheza e a ele certamente será apontado o dedo com a acusação de ingenuidade ou, pior, de conivência com o inimigo. Afinal, com toda a informação pública, apoiada em estudos científicos e em reflexões éticas vindas de personalidades respeitáveis, como é possível que alguém ainda compactue com atitudes homofóbicas ou que apoie leis que ferem direitos de pessoas LGBT? Dá para conversar com quem imagina, mesmo em lugares onde praticamente não há imigração, que refugiados de países em guerra ou em crise ameaçam sua segurança e seus empregos? Ou com quem duvida da existência de uma crise climática, mesmo depois de eventos extremos e com todas as evidências sobre o derretimento do Ártico e sobre a quebra incessante de recordes de temperatura ao redor do mundo nos últimos trinta anos?

O título do estudo de Joshua Kalla e David Brookman (“Reduzindo atitudes excludentes por meio de conversas interpessoais: evidências de três experimentos de campo”)[1] mostra um caminho novo para responder a estas perguntas. Os dois cientistas políticos orientaram e acompanharam, em sete localidades dos Estados Unidos, o trabalho de ativistas ligados a direitos de populações LGBT e aos direitos de imigrantes. Os ativistas conversaram com 6.869 eleitores, no momento em que eram convocados a manifestar seu voto em torno de leis referentes aos direitos destes dois grupos (LGBT e imigrantes).

É importante ressaltar que os ativistas envolvidos no experimento não eram psicólogos, atores, professores ou alguém com especial capacidade persuasiva e sim pessoas que contavam apenas com o treinamento na técnica aplicada chamada de “troca não julgadora de narrativas” e cuja essência resume-se a dois pontos: escuta ativa e compartilhamento de narrativas.

O ponto de partida do trabalho é trivial: ninguém gosta de reconhecer que está errado. E muitas vezes a forma de criticar o ponto de vista dos outros pode levar ao fortalecimento das crenças que se quer abalar. Hilary Clinton, por exemplo, tratou os apoiadores de Donald Trump como um “bando de deploráveis” e isso acabou-se voltando contra ela. Ausência de diálogo, de conexão interpessoal e de compartilhamento de experiências amplia as chances de que fatos absurdos e inverossímeis sejam interiorizados como verdadeiros. Isso levanta uma questão fundamental para a discussão democrática: o que pode ser o diálogo entre pessoas com horizontes tão diferentes?

A resposta dos estudos psicológicos voltados ao tema é que narrativas são percebidas como menos manipuladoras que argumentos diretos, factuais, objetivos e são menos propensas a suscitar imediata contra-argumentação e ameaça ao sentido de autonomia dos indivíduos. É mais fácil argumentar contra um raciocínio que contra uma história. É por isso que a técnica aplicada consiste em estabelecer uma conversa em que há um compartilhamento de experiências. Como? Não cabe aqui entrar nos detalhes técnicos sobre a seleção dos entrevistados e sua representatividade estatística, o que pode ser encontrado no próprio estudo.

O importante é que há uma conversa frente a frente que dura uns dez minutos e onde o entrevistador, em algum momento, pede que o entrevistado lhe diga se houve algum momento em sua vida em que se sentiu discriminado. É só então que ele lhe fala da discriminação que os imigrantes ou os indivíduos transgêneros sentem. A empatia que daí emerge é mais efetiva que o esforço de persuasão por meio de argumentos racionais e baseados em informações precisas. Ou seja, junta-se uma narrativa de persuasão baseada em histórias vividas a uma sincera escuta ativa. Os entrevistadores deixam claro que querem entender o ponto de vista de quem estão escutando e não julgar suas opiniões.

A principal base teórica do trabalho vem da psicologia evolucionista[2]: os indivíduos costumam resistir a argumentos que possam representar ameaça a sua própria auto-imagem. E aqui é importante lembrar que a auto-imagem provém da necessidade que nasce em nosso próprio cérebro de nos identificarmos a valores, comportamentos, atitudes e ideias dos grupos a que pertencemos. A explicação evolutiva desta defesa da auto-imagem é que têm mais chance de sobrevivência aqueles que aderem às normas do grupo do que os que buscam permanentemente a originalidade e que, por aí, correm o risco de não obter solidariedade quando necessário. Além disso, ser convencido de um ponto de vista contrário àquilo em que se acreditava até então pode ferir o sentido de autonomia da pessoa.

É claro que a difusão de um fato mentiroso pode ser expressão de má fé e desonestidade, sobretudo quando são autoridades políticas bem informadas que exercem este triste papel. Mas é com base numa narrativa, num poder de interpretação que estas mentiras vão-se encaixando na própria maneira de as pessoas se ligarem ao grupo social com o qual elas compartilham sua visão de mundo. E é daí que vem a importância não apenas de difundir informações, fatos e argumentos, mas sobretudo de entender as narrativas que fundamentam crenças absurdas e contrapor-lhes outras narrativas que revelem visões de mundo alternativas.

O trabalho de Kalla e Brookman mostra que houve uma proporção considerável de indivíduos que mudaram seu voto após a escuta não julgadora dos ativistas. Não é uma fórmula mágica, claro. Mas é interessante o surgimento, nos Estados Unidos de diversas iniciativas nesta direção. Essential partners[3], por exemplo, propõe-se a “construir uma comunidade fortalecida pelas diferenças e conectadas pela confiança”. Better Angels[4] é uma organização de “cidadãos para unir os americanos azuis e vermelhos numa aliança para despolarizar a América”. Make America Dinner Again[5], We Repair[6] e os Círculos Benjamin Franklin[7] são outros exemplos daquilo que parece constituir o embrião de um movimento social.

Em outubro de 2019, o New York Times[8] acompanhou o experimento levado adiante por James Fishkin[9] e Larry Diamond[10] (cientistas políticos da Universidade Stanford), que reuniram uma amostra aleatória e representativa dos norte-americanos inscritos em listas eleitorais. Eram 526 pessoas que não se conheciam até então e que passaram um fim de semana conversando sobre temas polêmicos da atualidade norte-americana. Alguns mudaram de opinião, outros não. O resultado, porém, é que todos se tornaram mais informados e até mais empáticos.

No Brasil um esforço nesta direção está sendo liderado por Rafael Poço, advogado e ativista que criou o promissor projeto Despolarize[11] e que promove “diálogos impensáveis[12], em torno de temas tão polêmicos como os enfrentados pelos ativistas estudados por Kalla e Brookman.

https://tab.uol.com.br/colunas/ricardo-abramovay/2020/04/22/covid-19-pode-abrir-caminho-para-o-o-fim-do-radicalismo-e-polarizacao.htm

[1] https://www.ocf.berkeley.edu/~broockma/kalla_broockman_reducing_exclusionary_attitudes.pdf

[2] https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicologia_evolucionista

[3] https://whatisessential.org/

[4] https://www.better-angels.org/

[5] http://www.makeamericadinneragain.com/

[6] https://werepair.org/

[7] https://benfranklincircles.org/

[8] https://www.nytimes.com/interactive/2019/10/02/upshot/these-526-voters-represent-america.html

[9] https://profiles.stanford.edu/james-fishkin

[10] https://diamond-democracy.stanford.edu/

[11] https://www.despolarize.org.br/

[12] https://www.instagram.com/despolarize_/

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