Valor Econômico. 1ª/03/2016

Ricardo Abramovay[i]

O enigma que ronda a vertigem tecnológica com que a era digital, a internet, a robotização, as nuvens e a inteligência artificial marcam este início do Século XXI é bem expresso na célebre tirada do prêmio Nobel de Economia Robert Solow: “Podemos ver a era dos computadores em todo canto, menos nas estatísticas de produtividade”.

De fato, a produtividade total dos fatores (que mede o crescimento do produto, relativamente ao crescimento do capital e do trabalho) aumenta, desde 1970, nos Estados Unidos, a uma taxa que não chega a um terço da alcançada entre 1920 e 1970. Mas esta constatação é uma espécie de ponta de iceberg de um problema muito maior e que se exprime nas três teses básicas deste livro impressionante que coroa décadas de pesquisa sobre as fontes e os limites do crescimento econômico e da evolução dos padrões de vida americanos.

A primeira tese é geral e refere-se à natureza do crescimento econômico. Ele não é um processo contínuo que deriva logicamente do esforço humano em criar bens e serviços novos. Nem sempre as descobertas, as invenções e o progresso tecnológico se exprimem em real aumento da riqueza e muito menos do bem-estar. Algumas invenções são mais impactantes que outras. Portanto, a inovação deve ser avaliada sob o ângulo de seu real efeito sobre as condições de vida, o que a principal medida da riqueza nas sociedades contemporâneas, o PIB, dificilmente consegue fazer.

O período entre 1870 e 1970, o “século especial” (sobretudo sua segunda metade, entre 1920 e 1970) reúne inovações que revolucionaram a vida cotidiana dos Estados Unidos tornando, quando comparados com qualquer período anterior, irreconhecíveis a forma como as pessoas se alimentavam, se vestiam, se deslocavam, se comunicavam, bem como a carga do trabalho tanto para o mercado como dentro dos domicílio.

Foi neste período que se alcançou o acesso aos bens e serviços que permitiram que, entre 1870 e 1970 a expectativa de vida média norte-americana passasse de 45 para 72 anos. Na raiz destas transformações revolucionárias encontram-se as cinco grandes redes que romperam com o isolamento do domicílio tradicional: a eletricidade, a água encanada, o saneamento básico, o telefone, o rádio (e, posteriormente a televisão).

Além destas, a generalização do acesso ao motor a explosão interna e a substituição do cavalo pela força mecânica não só permitem melhorar a higiene das cidades, como, sobretudo, ampliam de forma inédita a mobilidade das pessoas dando lugar à instalação da classe média na periferia das grandes aglomerações urbanas.

Por fim, a descoberta dos antibióticos e dos mais importantes tratamentos contra o câncer completam um quadro social em que os ganhos de produtividade eram paralelos a conquistas massivas nas condições de vida e de trabalho.

A segunda tese é uma espécie de confirmação empírica da primeira. Contrariamente ao que defendem os que Robert Gordon classifica como tecno-otimistas, os Estados Unidos não se encontram às vésperas de um crescimento sem precedentes, impulsionado pela revolução digital.

Ao contrário, esta concentra-se nos setores de informação, comunicação e entretenimento e, nem de longe, tem o impacto transformador sobre a vida das pessoas das inovações que marcaram o período entre 1870 e 1970.

Habitação, vestuário, transporte, saúde e condições de trabalho dentro e fora do domicílio, claro que tudo isso foi afetado pelos computadores e pela internet e será ainda muito mais pelas nuvens e pela robotização. Mas os impactos destas mudanças sobre o cotidiano dos indivíduos é pálido, quando comparados às transformações do Século Especial.

Daí vem a terceira ideia central desta análise histórica tão rica das mudanças da sociedade norte-americana desde a Guerra Civil. Após dedicar a primeira parte do livro às mudanças técnicas e nos modos de vida de 1870 a 1940 e a segunda ao período que vai da Segunda Guerra Mundial aos dias de hoje, Robert Gordon aborda, na parte três da obra, um dos temas que mais preocupa a sociedade norte-americana: o impressionante avanço das desigualdades. Aqui a originalidade de sua análise está em mostrar a desigualdade não como uma espécie de efeito socialmente indesejável de um processo economicamente virtuoso e edificante, mas como a principal adversidade capaz de bloquear o próprio crescimento da economia americana.

O 1% no topo da pirâmide social norte-americana, que detinha 8% da renda em 1974, quase triplica sua participação em 2014. O 0,01% do cume, que controlava 1% da renda passam a dispor de 5% do total, neste período. Esta concentração é paralela à degradação do sistema educacional norte-americano, hoje entre os piores, quando comparado a outros países desenvolvidos.

A desigualdade, neste caso, vem desde a infância, uma vez que as escolas públicas de primeiro grau têm seu orçamento determinado pelos impostos que pagam os moradores do distrito que ocupam: escolas em bairros habitados por pessoas ricas têm chances de alcançar qualidade inatingível pelos estabelecimentos situados onde se concentram os pobres.

Além disso, a criminalização das drogas fez dos Estados Unidos o país com o maior contingente global de presidiários, comprometendo de forma quase irreversível a integração dos que passaram pelo sistema prisional ao mercado de trabalho.

Como houve, após 1970 a quebra do movimento sindical e a redução tanto do valor real do salario mínimo, quanto dos impostos cobrados dos mais ricos, o resultado é que praticamente todos os benefícios do crescimento econômico concentram-se entre as camadas de altíssima renda.

O que o livro de Robert Gordon coloca em questão não é o talento ou o ímpeto criativo dos inovadores e das conquistas tecnológicas atuais. O que ele mostra é que toda esta energia criativa sequer atenua as tendências socialmente destrutivas que marcam hoje o epicentro do capitalismo global e que comprometem seriamente seu próprio desempenho.

Robert J. Gordon (2016) – The Rise and Fall of American Growth: The U.S. Standard of Living since the Civil War (The Princeton Economic History of the Western World)

[i] Professor Sênior do Instituto de Energia e Ambiente da USP, autor de Beyond the Green Economy. www.ricardoabramovay.com – Twitter: @abramovay

 

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