Folha de São Paulo

 O mundo vive em um regime de preços mentirosos, do qual a atual crise da água no Sudeste brasileiro é apenas uma das expressões emblemáticas. Se as empresas tivessem que pagar pelo uso que fazem dos recursos ecossistêmicos de que dependem –e que sistematicamente destroem–, elas fechariam seus balanços no vermelho.

Os números são chocantes: nos EUA, o custo total da degradação vai além de um US$ 1 trilhão, ou seja, 6,2% do maior PIB mundial. Globalmente, são US$ 3 trilhões. E isso se refere apenas ao ano de 2013. Desde 2007, esses custos ocultos, não pagos, aumentaram 15% nos EUA e 17% globalmente.

São montantes superiores aos lucros obtidos pelas maiores empresas dos EUA e do mundo. Esses dados estão no relatório State of Green Business 2015, lançado em fevereiro, que contou com apoio da consultoria Trucost com base no estudo de 1.600 grandes corporações.

A Trucost analisou mais de 700 indicadores e empregou métodos de valoração ambiental consagrados na comunidade científica para chegar a tais resultados.

Emissões de gases de efeito estufa, extração excessiva e contaminação da água, desmatamento, poluição atmosférica, produção de lixo, são alguns dos efeitos das atividades econômicas que não se incorporam ou se incorporam de forma imperfeita aos preços.

O mais preocupante é que as maiores empresas globais empenham-se em reduzir seus impactos ambientais. Em 2013, por exemplo, cada dólar da economia global gerou 16% a menos de gases de efeito estufa que o mesmo valor produzido em 2009.

Só que esse avanço foi mais que contrabalançado pelo próprio crescimento econômico: a emissão total de gases de efeito estufa neste período cresceu 4%, apesar do declínio nas emissões por cada dólar gerado. E o lucro das empresas que constam do estudo aumentou nada menos que 20%.

A conclusão é a de que “os negócios vêm-se tornando mais eficientes, mas não num ritmo suficientemente veloz para contrabalançar o crescimento econômico, o que leva ao aumento no uso dos recursos e das emissões”.

Em algum momento, essa opacidade fantasiosa vai desaparecer. O regime de preços da economia global terá que mudar drasticamente. Se, por exemplo, as companhias que operam na China pagassem pela água o preço cobrado na Dinamarca, suas despesas adicionais seriam de US$ 130 bilhões, ou seja, 1,5% do PIB chinês.

Da mesma forma, quando a ocupação da atmosfera por gases de efeito estufa deixar de ser gratuita, isso tornará ainda mais complicada a vida dos grandes produtores de combustíveis fósseis. O mesmo raciocínio aplica-se à utilização em larga escala de água e à destruição da biodiversidade.

Os setores cujos lucros estão menos ameaçados pelos custos socioambientais não pagos de suas operações são os serviços de saúde, as telecomunicações e, de forma geral, os que mais incorporam tecnologias de fronteira a suas operações.

Já o capital natural usado pelos segmentos de alimentação, bebidas, minas e florestas, se tivesse preço representaria de 10 a 25 vezes seus atuais lucros. Economias tão dependentes desse tipo de produto, como a brasileira, serão as mais afetadas quando esses custos entrarem no sistema de preços.

São razões fortes para que a retomada do crescimento brasileiro seja planejada com base na sustentabilidade dos recursos de que dependemos todos, o que até aqui nem de longe tem sido feito nem pelo governo nem pelas empresas. Esse não é um assunto de ambientalistas. É um tema estratégico que envolve não só os riscos dos negócios, mas a vida de toda a sociedade.

RICARDO ABRAMOVAY, 61, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, é autor de “Muito Além da Economia Verde” (Planeta Sustentável/Abril)

http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/04/1615256-ricardo-abramovay–a-fantasia-dos-precos.shtml

 

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