O Magazine Luiza criou uma plataforma digital chamada Magazine Você, em que as pessoas usam seus conhecimentos e suas habilidades para vender produtos sobre os quais obterão uma comissão. O interessante é que se trata de uma loja virtual que se apoia nas redes sociais dos indivíduos, sem qualquer custo de armazenagem e entrega para o vendedor.

Silvio Meira, professor da Universidade Federal de Pernambuco e presidente do Conselho do Porto Digital de Recife (um dos mais importantes polos de inovação do país), acredita que, longe de um exemplo tópico e localizado, esse tipo de negócio tende a se ampliar. Afinal, trata-se de utilizar a confiança que emerge dos vínculos pessoais e que nos faz consultar com muita frequência amigos e conhecidos antes de realizar uma compra, numa escala e com uma agilidade que só as mídias digitais podem propiciar.

O modelo lembra um pouco aquele aplicado na venda popularizada de cosméticos, com duas diferenças essenciais: no Magazine Você, são valorizados os conhecimentos específicos do vendedor e não simplesmente sua capacidade de comercializar os produtos que as empresas fabricam. Além disso, a loja é virtual e não depende do vendedor bater de porta em porta oferecendo certos bens.

Mas a economia ao alcance das pessoas, para a qual esses dois exemplos chamam a atenção, não se limita à comercialização de produtos e ao financiamento colaborativo de iniciativas inovadoras por meio de plataformas como Catarse.

O potencial das mídias digitais vai muito além da informação, da cultura e da divulgação da atividade científica. Ele atinge o cerne da manufatura contemporânea e está na raiz daquilo que a revista The Economist, em dossiê recente, não hesitou em chamar de Terceira Revolução Industrial e a Wired de futuro da manufatura. Do que se trata?

O dispositivo básico das transformações revolucionárias anunciadas pelas duas revistas é a impressora em três dimensões, ou seja, que não imprime letras ou figuras sobre um papel, e sim objetos. As coisas são fabricadas, camada por camada, num processo batizado, por esta razão, de manufatura aditiva. Podem ser encontrados facilmente na internet exemplos de impressoras que fabricam correntes de bicicletas, próteses dentárias e objetos decorativos, mas o horizonte é que um número cada vez maior de produtos a preços decrescentes vão emergir dessas novas técnicas produtivas.

Muitas fábricas, no mundo todo, já incorporaram impressoras em três dimensões a seus processos produtivos. Mas as consequências socioambientais destas tecnologias superam seu potencial aumento da produtividade. Convém destacar quatro delas.

Em primeiro lugar, a impressora em três dimensões reduz de forma considerável a importância da economia de escala na produção material. Isso significa que uma das bases decisivas do capitalismo (a separação entre os que concentram em suas mãos os meios de produção e os que dependem destes meios para exercer sua capacidade de trabalho) é fortemente abalada.

Se hoje uma impressora em três dimensões ainda tem um custo considerável, os preços vêm caindo de maneira acelerada, correlativamente ao aumento da eficiência produtiva do equipamento. Hoje, 20 milhões de brasileiros possuem um smartphone. Num futuro não muito distante, impressoras em três dimensões poderão fazer parte do aparato de utensílios dos quais as famílias dispõem.

Jeremy Rifkin, em um livro recente, mostrou que a geração de energia pode ser descentralizada, transformando cada domicílio, cada escritório e cada fábrica não só num consumidor, mas também num produtor de energia para a rede. A impressora 3D tem potencial semelhante, mas no
campo da produção material.

A segunda consequência desses equipamentos é que, ao reduzir a importância da economia de escala na oferta de bens materiais, eles estimulam que sejam feitos produtos específicos, adaptados a necessidades concretas dos usuários e que podem ser desenhados por qualquer um que tenha talento para tanto. O poder individual do consumidor aumenta de forma impressionante, pois ele não tem que se adaptar ao que lhe é oferecido de antemão, mas pode ser protagonista da oferta e mesmo da produção do que deseja.

A terceira consequência é sobre o mundo do trabalho: essa terceira revolução industrial abala o pilar central do mundo moderno que é a sociedade do trabalho. O aumento das chances de eficiência econômica no trabalho pessoal e a domicílio representa uma novidade cujos impactos ainda mal podem ser antevistos.

Por fim, o tipo de material usado na fabricação de bens altera-se: compostos de fibra de carbono, terão importância muito maior que alumínio e aço. Mais que isso: a produção individualizada e voltada a uma demanda específica é muito menos geradora de resíduos do que os métodos consagrados pelas grandes concentrações industriais.

Claro que há nisso tudo uma boa dose de futurologia. O fundamental é que estão criadas as condições para que o empreendedorismo de pequeno porte, a iniciativa econômica individual e associativa sejam dotados de meios técnicos que, em muitos campos da oferta de bens e serviços, competem com aqueles que, até aqui, pertenciam exclusivamente aos que dispunham de capital e de poder para manejá-los.

RICARDO ABRAMOVAY, professor titular da FEA e do IRI/USP, pesquisador do CNPq e da Fapesp, é autor de “Muito Além da Economia Verde”, ed. Planeta Sustentável.
twitter: @abramovay
e-mail: abramov@usp.br

Compartilhar com amigos
  • gplus
  • pinterest

Postar um comentário